Ousadia e angústia na poesia de Yêda Schmaltz

Poeta viola silêncios convenientes, expressa a existência com intensidade cortante e expõe com limpidez as expectativas e decepções da alma do corpo da mulher                      

Heloisa Helena de Campos Borges                       

A poesia de Yêda Schmaltz (1941-2003) é plural. Ela vai do desejo à rebeldia, do amor à amargura, da ironia ao fascínio, da esperança ao desamparo, do sagrado ao profano.

Yêda Schmaltz: uma das mais importantes poetas brasileiras | Foto: Reprodução

Constituindo-se desses e nesses predicados, a palavra de Yêda Schmaltz viola silêncios convenientes, expressa a existência com intensidade cortante e, sobretudo, expõe com ríspida limpidez as expectativas e decepções, não apenas da alma, mas também do corpo da mulher.

Logo, trata-se uma poesia inovadora e ousada, que enreda e ao mesmo tempo é enredada pela volúpia, em busca do mais que a paixão possa lhe dilatar os sentidos essenciais, sejam os sentidos dos prazeres, das palavras ou do fazer artístico.

Profundamente transgressores, às vezes agressivos, os seus versos descrevem comportamentos habitualmente segredados, não se conformam ao moralizante, registram o incomum, transmitindo tanto delicadezas do corpo e da alma, quanto deleites e angústias que acompanham o desmedido:

                                                   

Posições

Eu fiquei de joelhos

implorando migalhas

mas fiquei de joelhos

foi a vida inteira!

Por recolher as migalhas.

As migalhas de pão

que as crianças deixavam,

pra encerar o chão

e por tê-lo ajoelhado

entre as coxas.

Amor que me teve deitada,

que me reteve horizontalmente esticada

em gemidos e orgasmos

em soluços e dores

e saudades tranquilizantes.

Que me deitou,

Abertas as entradas

e em sangue fez-se o parto

e a luz dos filhos.

Deitada sempre por tê-lo,

amor, sugando os meus mamilos.

(Os que me deram fama

de orgulhosa,

nunca me viram na cama.)

Depois de conhecê-lo, amor,

nunca mais me aprumei:

deitada amando, amando

em pé, dobrada,

o pescoço caído como uma flor

meio murcha.

Amor, enfim me ajoelhei

e lá vou rastejando

o meu câncer:

uma dor na espinha,

essas flores laranja,

uma vaga memória

da infância

quando, por não ter mãe

nem o que amar,

me apaixonei.

(“Baco e Anas Brasileiras”, p.116, 1985).

Divindades, demônios e heróis

Quem lê os poemas de Yêda Schmaltz convive com divindades, demônios, heróis e desperta para as mil e uma peripécias que não raramente interferem no andamento dos acontecimentos, pois que são como cartas indomáveis do destino.

Daí a presença das sugestões ou das explícitas referências a Penélope, Dionísio, Eco, Ariadne, Narciso, Atalanta, Prometeu, Pandora, Apolo, Ulisses e outros, pois a Mitologia serve-lhe de contundente suporte para expressar as humanas carências, as buscas, os desencontros, enfim, tantos temas que a poetisa entrelaça com trágicos nós e líricos pontos. Com certeza, um íntimo cantar, fruindo a liberdade de ser, esteticamente.

Porém, o desconsolo de reconhecer a incapacidade da sua palavra para escrever com justa medida o seu pensar, o seu sentir, isso a obrigou a declarar a falência da sua escritura, no poema em que a confirma insuficiente e rasa:

XXVI

Escrever: não mais pretendo.

O esforço do suplício de limar,

suar, sofrer – só sacrifício.

Queria morder a fruta, mas ela não o é

igual a todas as outras, que pena,

ela é diferente!

Palavras limitam, qualificam.

Não quero mais escrever porque a palavra

não consegue refletir meu sentimento.

(“Vrum”, p. 63, 1999).

Quanto de conflito e angústia nas falas dos poetas! Não sendo a primeira, igualmente não será a última a se desassossegar pelo mesmo motivo. Contudo, mesmo cansada dos limites e interditos da palavra, essa palavra que desejava como pele, seu peso poético é verdadeiro e irrefutável, pois sua coloração é singular. Até quando os seus poemas são escritos a partir da temática ou do molde dos versos de outros poetas, eles se constroem intertextos arrojados, personalíssimos:

                           Triângulo                                       

Onde estás, amor,

que não me repondes?

Entre teus pares, ou entre as meninas?

Onde estás, amor,

no Capitólio?

Foda-me

rapta-me

como as Sabinas.

(“Rayon”, p.57,1997).

A convivência de deuses e de homens, o registro das faltas e das necessidades, das buscas e desencontros, facilmente vistos na poesia de Yêda Schmaltz, fardo pleno de angústia que desassossega e desconsola mesmo deuses, semideuses e heróis, esse peso existencial a faz indagar:

Mulher

Eu sou

uma passagem só:

que seja um rastro de luz.

Mulher

Que fazia poesia

A vida inteira.

Maneira

de ser o mundo:

ser transparente,

de vidros.

Mulher

que fazia da vida

a poesia

Mania

na passagem por portões,

gerânios, figos, epígrafes,

lastros, relâmpagos, trovões

e astros.

E fui

uma passagem só.

Deixei um rastro de luz?

(“Baco e Anas Brasileiras”)

Yêda Schmaltz: poeta | Foto: Reprodução

Bastante há para se dizer da arte poética de Yêda Schmaltz. No entanto, apesar do muito breve desse meu comentário, já me preparo para finalizá-lo. Não sei bem se o que motivou a minha pressa foi a emoção de sabê-la, hoje, estrela de aflições e amores a brilhar no infinito.

Sem mais, retorno à frase com a qual desenrolei o meu pensamento, agora, acrescida de mais alguns predicados. Se, no início, afirmei ser plural a sua poesia, para terminar digo que, além de plural, ela é grande, saborosa, impudica e capaz de suportar dores do mundo e dos poetas.

Então, quando em seu poema Mulher, nos versos acima destacados, Yêda Schmaltz faz a indagação, talvez a mais grave, talvez a mais corajosa para um artista:                             “Deixei um rastro de luz?”. Não serei apenas eu que responderei, todavia os seus próprios versos, em um tempo muito maior do que o ontem, muito mais duradouro que o agora.

Heloisa Helena de Campos Borges é mestre em Teoria da Literatura. O ensaio foi escrito em 2005 para o livro “Mais que Simples Palavras” (Editora Kelps). É colaboradora do Jornal Opção.

Nota

Yêda Schmaltz nasceu, no Estado de Pernambuco, em 8 de novembro de 1941. A família mudou-se para Ipameri (Goiás) quando ela era criança. Depois, a poeta radicou-se em Goiânia. Em 2021, a escritora — que faleceu em 10 de maio de 2003 — completaria 80 anos.

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