Otávio Lage, o estadista que ajudou a salvar a Celg da falência

Obra do jornalista Jales Naves desfaz muitos mitos sobre a política de Goiás, mas também retrata o homem simples e empreendedor que foi o ex-governador do Estado

Livro recém-lançado traz polêmicas, mas, acima disso, mostra a vida de um homem cuja visão ajudou a desenvolver um Estado

Livro recém-lançado traz polêmicas, mas, acima disso, mostra a vida de um homem cuja visão ajudou a desenvolver um Estado

SALATIEL SOARES CORREIA
Especial para o Jornal Opção

Creio que seja do conhecimento de todos o que diferencia o grande político, que se credencia a estadista, do pequeno político, que as areias do tempo o apagam. O homem de Estado vê sempre as próximas gerações no momento em que toma suas decisões, enquanto o pequeno político, ungido pelas tentações populistas a curto prazo, enxerga sempre as próximas eleições.

Goiás, em seu processo de desenvolvimento, mostrou a presença de espírito do estadista e do populismo em diferentes momentos de sua história. Veja o caso daquela que um dia foi a empresa que mais orgulho rendeu ao povo dessa terra: a antiga Centrais Elétricas de Goiás; hoje, federalizada, Celg Distribuição.

Em dois momentos da história da Celg, os governos de Goiás, na condição de acionistas majoritários, tiveram de tomar decisões que implementaram rumos completamente diferentes na empresa. A diferença de rumos foi significativa. E o que fez a diferença de rumos entre uma e outra decisão espaçada em quase quatro décadas uma da outra? Eis a resposta: quem estava no comando político do Estado. Quem era o governador. E, assim, voltamos aos anos de 1968 e 1998.

Em 1968, governava o estado de Goiás o Engenheiro Otávio Lage de Siqueira. Naquela época, a maior empresa goiana estava numa situação pré-falimentar, atolada em dívidas, prestes a ser entregue ao governo federal. Otávio, percebendo a importância estratégica da empresa para o desenvolvimento de Goiás, não abriu mão do comando. Foi à luta. Solicitou empréstimos e os conseguiu. Ao emprestar o dinheiro ao governo goiano, o então presidente da Eletrobrás foi taxativo: “Vamos emprestar o dinheiro, mas vocês terão que trocar o nome da Celg, porque será uma nova empresa para gerir esse dinheiro. Se no prazo determinado não conseguirem entregar a obra, ela passará para o Governo Federal. E não adianta vocês irem ao Governo, que eu sou parente do Castello Branco, que não vai permitir a volta. Não adianta mexerem com política”.

Dito e feito. Criou-se a Centrais Elétricas do Paranaíba e, dessa forma, recebeu os recursos liberados; mas a Celg não chegou a mudar de nome. Durante todo o governo Otávio Lage, o presidente da empresa pôde gerir a empresa com absoluta liberdade técnica, sem nenhuma ingerência política. Vale ressaltar que, durante o governo de Otávio, Goiás oportunamente se inseriu na estratégia do governo federal de levar energia elétrica ao Distrito Federal. Resultado: recebeu ajuda para construção da segunda etapa da Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada. Com isso, de estado importador de energia elétrica, Goiás passou a exportar esse insumo.

Assim, do céu passamos ao inferno de 1998. A Celg chega ao fim de um ciclo e ao asfixiamento de dívidas que refletiam num patrimônio líquido extremamente negativo. Era a face mais visível do fim do desenvolvimento fácil ─ que só beneficiou obras superfaturadas de empreiteiros que financiavam campanhas políticas e, depois das eleições, cobravam o elevado preço em obras.

O populismo se viu sem dinheiro para continuar a financiar as obras paroquiais de sua clientela. Resultado: o governo de então decidiu vender a Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada. Para tornar atrativa a venda, impôs um criminoso contrato de compra exclusiva de energia ao comprador que deu um prejuízo à Celg de mais de R$ 400 milhões. Traduzindo: compraram uma usina e levaram outra de graça. Governava Goiás o senhor Luís Alberto Maguito Vilela.

Diferencial biografado

Otávio Lage/Maguito Vilela ─ eis a diferença entre o grande e o pequeno político. Um tomou empréstimo para recuperar e aumentar o patrimônio da empresa; transformando-a, então, num instrumento de desenvolvimento; o outro optou pelo caminho mais fácil: vendeu a usina ─ e isso ocasionou o derretimento de seu patrimônio e a sua federalização ─ para fazer o que todos sabemos: obras improdutivas completamente desconectadas de estratégias de desenvolvimento.

Quem nos evidencia essa diferença entre o pequeno e o grande político é o jornalista Jales Naves, no livro que escreveu a respeito da vida do ex-governador Otávio Lage. Não se trata de escritos acadêmicos, Jales Naves se propôs, na condição de jornalista, a elaborar uma grande reportagem a respeito das várias faces de um personagem que tem sua importância história no desenvolvimento do estado e que carecia de uma biografia.

Uma dessas faces expostas nos escritos do autor revela o pai de família que viveu alegrias, mas também dores explícitas, como a perda de um olho ante o coice de uma vaca; a doença do filho Rodrigo; e a morte do neto atacado por um cão.

Otávio se fez governador democraticamente eleito. Seu biógrafo mostra que muito contribuiu para sua eleição contra seu oponente de então, o médico Peixoto da Silveira, a diferença de estilo entre ambos. Otávio, naturalmente mais informal, acostumado com camisa de manga, embrenhava-se no meio do povo, enquanto Peixoto da Silveira adotava um estilo mais formal de terno e gravata, mesmo no desértico Norte de Goiás, hoje Tocantins.

Ainda criança, eu presenciei, nas eleições, os estilos de ambos em Pedro Afonso no Tocantins, na comarca da qual meu saudoso pai era o juiz. Lá chegou Otávio Lage de manga de camisa e chapéu na cabeça; e, dias depois, desceu no pequeno aeroporto da cidade Peixoto da Silveira, sob aquele solão de 40 graus trajando terno e gravata.

Jales Naves supre uma carência biográfica ao elabora esta profunda reportagem | Foto: Arquivo pessoal

Jales Naves supre uma carência biográfica ao elabora esta profunda reportagem | Foto: Arquivo pessoal

Os escritos de Jales Naves navegam por outros lados de Otávio Lage, que foi muito marcante na vida desse Estado e que, certamente, nenhum outro político conseguiu aliar: os de empreendedor e benemérito de uma cidade que a família Lage de Siqueira tirou do nada para torná-la próspera: Goianésia. Sempre procurando se cercar de gente de talento, Otávio Lage foi, por meio de sua extraordinária visão empreendedora, transformando em riqueza não para si, mas para toda uma comunidade, o trabalho que, para ele, sempre foi uma profissão de fé.

Dizem que, por trás de um grande homem, existe uma grande mulher. No caso de Otávio Lage, existiu, dona Marilda, sua companheira de toda uma vida, mas também seu saudoso pai Jalles Machado, a quem o ex-prefeito de Goianésia nunca deixou de ter como referência para sua vida. Uma vida que, por uma dessas tristes coincidências, teve a mesma causa mortis: dois desastres na estrada com ambos no volante. Otávio Lage fez história. Ele está no panteão dos grandes homens do Estado. A biografia de Jales Naves veio num momento mais que oportuno. Merece ser lida!

Salatiel Soares Correia é Engenheiro, Bacharel em Administração de Empresas, Mestre em Planejamento Energético. Autor, entre outras obras, do livro A Construção de Goiás.

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Cristiane

Sou de Goianésia e sei que as obras que o sr. Otávio Lages fez, propiciaram um grande avanço para a cidade. Mas infelizmente seu filho não tem deixado um bom legado como prefeito da cidade, contrário do que fizera outrora quando ocupou o mesmo cargo. Lamentável.

Carlos Augusto Tavares

Otávio salvou a Celg e Maguito Vilela, Iris Rezende e Marconi Perillo arrebentaram com ela. Três bandidos da política goiana.