Os sonhos da “Frágil Armação”de Adalberto de Queiroz

Ercília Macedo-Eckel examina a arquitetura do primeiro livro de poesia do autor de “Neon” e “Flor imediata”, que tem segunda edição lançada dia 14 de setembro de 2017 pela editora goiana Caminhos

Adalberto de Queiroz lança, após 32 anos, a segunda edição de seu livro “Frágil Armação” | Foto: Divulgação

Ercília Macedo-Eckel
Especial para o Jornal Opção

A palavra-chave que abre Frágil Armação é “sonho”. O poeta sonha, engendra lembranças e transcende a realidade. Consciência e alma entram em simbiose, e então se inicia a criação poética. E da “sementeira da memória” brotam sonhos desmedidos, mulheres nuas, cidades de sonho, ladrões imaginários e medo real. Brota o lúdico sonho da neve, “fazendo bonecos em plena praça/ mas neve também sonha a humanidade/ na vontade de ser eterna”. E o eu-menino sonha e lembra “a infância em Anápolis/ (…) à espera do almoço cheirando a trigo/ da Aliança para o Progresso”. Os sonhos dão ao poeta, ao sujeito lírico, conhecimentos sobre si mesmo e sobre a tecitura da realidade do mundo que o cerca.

Então, há um aspecto de “pequenez” com valor positivo – de modéstia, de diminuição de si, ressaltado por aquele que fala no poema, em “Neon”: “O que sou não me pertence por inteiro/ (…) É a presença clara de quem teme os fatos/ (…), prefere ver-se, de soslaio, em espelho embolorado”. Sobre essa “pequenez” fala também o professor Pedro Lyra (em Conceito de Poesia, 1986), a “pequenez a partir de certos atributos intrínsecos do ser”, como percebemos em “Neon”; e ao ler esse poema, lembramos ainda o “Cogi­to” de Torquato Neto, cujo refrão é: “eu sou como sou”. Porém o eu poético de Torquato tem uma imagem positiva de si, pois vive “tranquilamente todas as horas do fim”. Em “Neon” lemos ao final: “Sou o que teme o escuro – tremor de fato”.

À moda de Murilo Mendes, Adalberto de Queiroz dialoga com outros autores. Drummondniza-se: “Traço garatujas no dia dos Namorados/ por lembrança atado ao velho conselho/ aos que vão à busca da poesia:/ – Não faças versos sobre acontecimentos”. Camoniza-se: “… encontro armas e barões/ por seu canto assinalados/ no fim é uma nação. Joãocabraliza-se: “Poesia, te leio poesia/ como Cabral a escrevia:/ flor! conhecendo/ que és fezes”. Guimarãesrosaliza-se: “Jã-de-la-foice, Riobaldo, fantasmas/ que transitam a leve passo”. Nessa “Via Pública”, a palavra assalta o poeta em plena rua. E, como no romance de Rosa, a vida e o texto, o vivido e o imaginado se confundem. Porém a memória pode salvar-se no silêncio.

A poesia moderna da cidade, inaugurada por Baudelaire e Edgar Allan Poe, evidencia-se no próprio código usado pelo poeta, ao transformar em poético o medo urbano e ao dispersar-se na direção dos sonhos, da utopia e dos mitos: “E, num segundo, vadeamos o espaço/ crianças solitárias com medo da cidade,/ em vário instante transportados/ ao reino da primavera/ por faunos e musas visitados” (“Flor Imediata”). Em “Cidades (1)”, a cidade surge em suas múltiplas facetas, e o poeta é um peregrino entre elas. Porém seu encantamento “de pronto” em Porto, como no círculo, tem “a mesma alegria em praias” e “orgasmos arrebatados”, no ponto de chegada, o final do poema. O poeta moderno é um herói da cidade. Enfrenta a solidão das multidões, suporta a opressão com suas variantes, respira a poluição do silêncio, o ruído pastoso, e consegue livrar-se dos visgos e armadilhas que tenham o intuito de aprisioná-lo: “minha mulher e eu escutamos/ o ruído pastoso da cidade // nos damos conta do jeito/ passarinheiro de a vida/ nos tentar engaiolar.// E no visgo do cordão diário/(…) não nos deixamos fisgar” (“Na Noite de Sábado”).

Ao tema da cidade alia-se o erotismo, o poema tecido com versos de relações significativas, cheios de calor e paixão do amor erótico: “No quarto do hotel, ela/ passeia sua nudez/ como quem rega um jardim;/ e eu nada vejo que não floresça.// Do estreito triângulo ao limite/ dos seios, sugo a paixão, flor em fogo/ brando, ao poeta consumindo.” (“Flor Imediata”). E em “Brasiliense”, conhecemos essa metáfora: “A cidade é uma mulher/ se abrindo à espera/ da noite, sal e emoções/ com a mesma intensa fera/ que dorme entre suas pernas”. Aqui, a metáfora da sexualidade (como na poética barroca de Gregório de Matos) parece definir uma opção pelo corpo despido, pelo destaque às partes ocultas; porém é uma representação erótica elegante, quase “séria”.

Frágil Armação
Autor: Adalberto de Queiroz
Editora: Caminhos
Página: 94
Ano: 2017

Outro aspecto a considerar nos textos poéticos de Frágil Armação são os chistes que aparecem em “Riso Fátuo”, incorporando a ideia do cômico ou da anedota, com a finalidade de aliviar as tensões, desatar coisas, desfazer nós. O poeta “alimenta-se de palavras” e do jogo de palavras, porém continua magro. “Das duas uma: ou só come gíria/ ou o metabolismo mental falha”. Percebe-se que nesses vários minipoemas o desafogo da tensão, o gracejo, promovem o relaxamento do espírito (relaxatio animi) e permitem uma libertação momentânea de si mesmo, como em: “ não há segredos impossíveis/ tudo é questão/ de jeito e vaselina/ o Brasil está nas mãos/ nos pés nos dedos/ com a micose/ das multinacionais:/ o jeito é aprender inglês”.

Merece ser lembrada aqui a Antiguidade revestida de universalidade renovada que percorre Frágil Armação; principalmente na evocação de mitos, como o Prometeu Acorrentado, os faunos do campo, as musas inspiradoras dos poetas e heroínas da História, como Helena de Tróia; além de mártires e santas, como Joana D’Arc e Teresa D’Ávila, “dois nomes acesos no clarão da página/ em branco”.

Da mesma forma os vates e escritores, muitas vezes capazes de ver o invisível, podem se revestir de um caráter sagrado e ressurgirem das profundezas do paraíso perdido, como “Shelley cantando:/ Goethe e a procura obstinada/ da paixão – libertados”; ou André Gide e Caio Fernando Abreu, “inexplicada amizade”; e também “Certo Milton & The paradise lost: mundos decaídos”; Souzândrade e seu longo poema também evocado: “virtuose feito um Guesa/ Errante revivido”. Percorrem ainda os “labirintos” do poeta-criador pintores surrealistas não tão distantes assim: “abro os mesmos livros/ e vejo os mesmos quadros/ a mesma paixão por Delvaux e Maigritte”.

Dessa forma o “menino antigo”, admirador de Bandeira, vai Sizenando no Natal. Seus “sapatinhos” só aprendizado , enchendo-se de palavras, até chegar ao arremate dessa “túnica inconsútil”, ao ponto final. Sempre “significante o fino ouro: significado.”

Ercília Macedo-Eckel é escritora, sócia da União Brasileira dos Escritores – Seção Goiás (UBE-GO).

Alguns poemas de “Frágil Armação”, de Adalberto de Queiroz

SONHOS

Essas gares de Deulvaux
sob a luz dos lampiões
povoam sonhos desmedidos.

Essas mulheres nuas
tão naturalmente nuas
tão mineralmente nuas.

E dá-se que estão no meu quarto:
a morte é um frisson terrível;
sonhar não esvazia significados.

Tremo e toda a vida
é uma maleita incurável.

INFÂNCIA (1)

Sonho a infância em Anápolis,
no abrigo, no orfanato,
à espera do almoço cheirando
a trigo da Aliança para o Progresso.

Sonhando à beira do refeitório,
manhã de sol, eu menino; ao lado
minha filha — claridade de amigos,
discutindo política econômica.

Assim se deu, assim foi que ocorreu
nada é narrativo na poesia —
um pátio é um pátio
e um quintal, sementeira da memória.

NEON

“meu destino é miúdo,
é um caquinho de vidro na poeira.”
Adélia Prado

O que sou não me pertence por inteiro
são notas que sobem pelas paredes, apenas
sopro tocado na palheta, a boquilha molhada
grossa saliva inundando a noite.

O brilho que sou inteiro não me pertence:
brilho de vidros, cristais derramados
no asfalto, sob a luz do neon publicitário.

É a presença clara de quem teme os fatos
encarados de imediato e, ao chofre do estalo,
prefere ver-se, de soslaio, em espelho embolorado.

O que sou: fonemas abertos, concertos barrocos,
sem nenhuma tempestade aclarada
sou o que teme o escuro — temor de fato.

FLOR IMEDIATA

No quarto de hotel ela passeia
sua nudez, como quem rega
um jardim; e eu nada vejo
que não floresça.

Do estreito triângulo ao limite
dos seios, sugo a paixão, flor em fogo
brando — ao poeta consumindo.

Filha e irmão, parceiro e gueixa,
dividimos a companhia do 906,
em projetos de ontem, espinhos
futuros — flor imediata.

Ânima divina, mãe, pitonisa
e maga: decifra-me antes que tarde.
Na ampulheta do corpo, o Tempo
se esgota célere e o prazer escorre
— areia velocíssima.

E num segundo vadeamos o espaço
crianças solitárias com medo da cidade,
em vário instante transportados
ao reino da primavera,
por faunos e musas visitados.

O PRESO

A janela que me cerca
nada me acrescenta.
Acerca, esta jaula —
nada tem de casulo.

Estou em cabresto
sinto a focinheira —
mas aprendi a dormir.
A prisão é um palimpsesto
das horas em que decifro
intermináveis desígnios,
destinos vários.

A cadeia que me limita
movimentos é um fato
só negável aos sonhos.
E quando durmo como
a grama verde dos pastos,
cavalgando livre, centauro.

Nessas andanças animais
sonhando encontro
o cheiro da liberdade
o acre, forte da fruta
caída ao chão de estrelas.

Se a fuga irreal é sanha
não me dessedenta
esta sede interminável.

SERMÕES (1)

Porém eu vos digo: a luz emana
feito grão solto
ao vento e seu brilho
nada deve ao homem que a admira

Os pássaros na minha janela
e o Congresso Nacional
nada têm em comum árvore ressequida e sol
— apenas sonham ambos
com a chuva próxima —
o céu talvez seja azul.

Incólumes, futuro e passado se tocam
dois mil anos depois.
Há dois ao menos cúmplices definidos
nesta jogada: neblina e amargo dos fatos.
Nenhum rio corre sob os edifícios
de modo a tornar prática a diária
compulsão de observar e pensar.

Porém eu vos digo:
há luz em cada grão solto
pelo ar.

SERMÕES (2)

A oficina do ar agita um turbilhão
de coisas desmedidas: poeira, casa
igreja, roupas e artefatos de guerra.

Paixão e sonhos desandados.
Música e palavra — ambas
são música — um lullaby…

Só não adormecem os
membros da guarda nacional
tenho medo dos que se dizem
heróis de nossa América:
tão iguais em seu fim,
tão lacraias e esquartejados.

Tumbas e tirambaços
medo tenho, me desgoverno.
A alma, porém, dá voltas
enquanto pelotões solitários
alimentam sonhos.

DO SOL DO NORDESTE

O sol do nordeste tem
a mais exata geometria
embora pouco aparente,
e tem o brilho de metal
raro gravado até os dentes.

Do sol dali, marca de fogo
nas coisas logo se pressente
feito um ferrete em brasa
que ferisse a própria gente.

E de tal sorte esse estigma,
nas pessoas e coisas existente,
firma e se apega que é visível
até em quem não o ostente.

De modo frequente esse sol
queima, fere mais contundente:
ao meio-dia, a pino, criando
vidas secas, não viventes.

De dois modos, no entanto,
esses fatos se desmentem: s
e o sol deságua em chuva
e se essa chuva é persistente.

BRASILIENSE (1)

A cidade é uma mulher
se abrindo à espera
de noite, sal e emoções
com a mesma intensa fera
que dorme entre suas pernas.

Acidade é um lago
se inundando à beira
do precipício do desejo
em exato limite de sal
o igual calor de fêmea
que se esconde: a cidade.

E de outra forma
a cidade seja talvez
árvore triturando
a madrugada clara
entre pingos de chuva,
noz moscada, canela e cravo.

CIDADES (2)

No fundo do labirinto
não se encontra
Helena de Tróia,
mas uma praia
em que Maria
e sua rede cifrada
acumulam peixes
variados.

Aqui em seu vestido
rendado, molhando plantas
brasileiras sugere encanto.

Sem nenhuma cilada
encontro armas e barões
por seu canto — dela
assinalados.

No fim é uma nação.
Combates e heróis,
a sua volta acumulados.

O labirinto se espraia
no fim: arraial de Búzios,
Jurujuba, Araguaia…
O labirinto não tem fim.
No fundo as plantas nomeadas
e a paixão se construindo
espatódia, angico, jatobazinho
sertão e o barroco mineiro
ressuscitados.

POÉTICA (1)

O poeta rumina
boi no pasto coletivo
palavras alimentando
ideias
e a revelação —
seu sal diário
às sete, às nove —
oração das horas abertas:
— sonha acordado
sua lira tangendo
só e pensativo vai pela
estrada:
boi amordaçado —
pelos demais se imola
o poeta — boi
rumina
mas não é
vaca sagrada.

O LIVRO DO PESCADOR (1)

Para Alfredo Talarico Filho

Calado e arisco
o pescador espera
o peixe comer a isca
sem saber ao certo
se pescador ou se pescado
escolhedor ou escolhido
por não ser fruto
o peixe apanhado
é um fisgado acaso.

O pescador é um expectador frustrado
de se enriquecer
(como na fábula)
vivendo um expectativa vazia
a de fisgar que amadurece no fisgado
por isso tudo é silêncio
à beira rio
aos cais
ou alto mar.

Calado e arisco
o pescador espera
que o peixe amadureça
sua fome até rebrilhar à tona
d’água com seu corpo nu
rabanando segredos expostos
e náufrago do ar.

MENINO ANTIGO

Para Zello Visconti

Discreto e silencioso pensamento
alerta o pintor amigo que é viva
a memória e doce o sentimento antigo.

No coração, acesos fogos adormecem
bastando um sopro, mínimo, a avivá-los
com fino e cotidiano toque nas retinas,

nas papilas, nas mucosas das narinas:
e o coração, presto desanda, e a mão
trêmula logo incandescente pinta.

Saltando domina, sem temor a tela, ânima,
serpente, fagulha acesa. E o olor antigo
basta à memória salvando a infância perdida.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Obrigado, equipe do Opção Cultural pela força a este relançamento.

ADALBERTO DE QUEIROZ

Obrigado à equipe do Opção Cultural, pela divulgação; e à Editora Caminhos por acreditar na minha poesia.