Os rios de signos das “Primícias” do poeta Décio Jaime

O artista da palavra amadureceu as mensagens. O poeta conviveu com seus poemas e sofreu para que, a partir das sombras, brotassem seus textos

Maria de Fátima Gonçalves Lima

Poema é o lado físico da poesia, e a poesia é a singularidade e a essência do poema que desponta de uma realidade interior, apenas compreensível por meio dos sentidos. É a materialização de um sentimento, de um sonho manifestado em palavras marcadas pela angústia do poeta na ânsia de traduzir-se. A poesia é a essência do verso. O poema, composto por versos metódicos, não tem alma, é uma coisa triste, solitária, vazia. A poesia é ser do poema, é alegria, imaginação, criação e imortalidade dos versos. O livro “Primícias”, de Décio Jaime, traz na própria semântica do título o prelúdio de reflexões sobre a alma humana. Exprime os primeiros frutos colhidos de uma série de textos poéticos que refletem a maneira de escrever do artista da palavra e também a maneira de ser. Assim, a poesia de Décio Jaime é uma maneira de ver e de sentir o mundo desse poeta, que nos faz lembrar o conceito heideggeriano: “A linguagem é a morada do ser”.

Os versos de “Primícias” demonstram os cuidados, o trato com a linguagem, numa contemplação contínua da palavra que suscita traduzir o devaneio e o sonho do seu criador. Percebe-se que o poeta se volta, em cada poema, para o que se encontra por trás das palavras, no silêncio que se segue à melodia dos versos. O silêncio da linguagem de cada poema cria paisagens de signos, às vezes quase neutras e mudas. Entretanto, quando colocadas contrapontisticamente na pauta do poema, adquirem elas significados que ultrapassam a realidade do mundo, da linguagem e do próprio poeta. As palavras no xadrez do poema produzem significados e melodias que escapam, muitas vezes, à perícia do jogador, porque, prontas a se lançarem em outros domínios, como faz principalmente em textos de cunho dramático como “O Guarani” e “Cleópatra, Antônio e Otávio”.

Décio Jaime: poeta | Foto: Arquivo da família

“No teatro da vida” é um poema que exprime a poesia construída a partir de um mundo que tem raízes além da realidade. O poema mergulha no drama sonoro do tango, na arte de viver e amar com suas contradições:

Ao som da voluptuosa música argentina

Num prostíbulo rico, repleto de gente

Na alcova da mulher amada, alcova fina,

Carlos, a sós, dizia a chorar vagamente:

De que vale a vida, se ela não mais quer

O carinho, o que lhe ofereço, com loucura?

Esse poema revela um mundo visto pela sensibilidade e pela emoção, pelo drama: “Ah! Morrendo, acharei alívio ao meu sofrer… Subitamente, em meio à transbordante orgia/ Que agitava o salão do meretrício, forte/ Tiro repercutiu. Naquele mesmo dia, / Na cidade, a polícia anotou outra morta”. Esse texto poético é ser construído a partir de um mundo que tem raízes numa possível realidade (ou não), como uma alusão a um feminicídio. É claro que “o poeta é um fingidor”, como afirma Fernando Pessoa. Isso quer dizer que o poema descreve um mundo visto pela sensibilidade e pela emoção, mas também pela razão, como reflexão, pois o ato criador é duplo: intuição e, ao mesmo tempo, reflexão. O poeta realizou sua “aretê” (a ἀρετή dos gregos), que significa “fazer o melhor que se pode”. O que nos faz lembrar as palavras de Edgar Allan Poe que observou: “Num poema nada se deve ao acaso. Tudo funciona com a rígida precisão de um problema matemático”. E, ainda, Baudelaire quando escreveu: “Tenho dó do poeta que não conhece a sua arte”.

Diante do exposto, vejo que o poeta se embrenha nos signos dos discursos e sofre todas as dores de uma emoção e transfigura o sentimento por meio das indomadas, bravias e destemidas palavras. E, o mundo real é resolvido ou transfigurado no silêncio do poema, porque nele a realidade e o ser se manifestam em plenitude. Não se trata de uma realidade pura e neutra, mas um mundo que transcende seus próprios limites, porque incrustado no silêncio, no segredo, no mistério, do drama poema. Essa percepção acontece também em “História real”:

 Eu encontrei numa estrada

 Numa casa bem antiga,

 Numa tosca e velha calçada

 Uma trêmula mendiga,

 Olhei-a e senti piedade

 De tanta infelicidade?

Nesse poema e em vários textos de Décio Jaime, todos exigem que o poeta realize um mergulho nas imagens retorcidas que sua percepção de mundo. Percebo que o artista da palavra amadureceu as mensagens, conviveu com o poema. E, como todo bom poeta, conviveu com seus poemas e sofreu, sem medo da morte, para que, a partir das sombras, brotassem seus textos. Por esse motivo, cada verso de seus poemas sempre nasce sob nova realidade, uma visão diferente. O tempo, em Décio Jaime, imobiliza-se em dor e palavras, cuja face de sonhos amanhece cantando no poema. Uma realidade que eterniza o poema, que é transformado em poesia, em sensibilidade e rios de signos.

Assim são os poemas de “Primícias”, para citar apenas alguns: “Meretriz”, “Infortúnio”, “Clamor de desterrado”, “Maldito… mas feliz”, “Mal sem remédio”, “No fim da jornada”, “Adeus”. Em todos os textos, há evidências da aguda sensibilidade desse artista da palavra. Ele penetra, senhor de si, nas malhas dos discursos, nas indômitas e infrenes palavras para transfigurar uma possível dor do mundo real. Porém, tudo é determinado no segredo, no mistério, do poema, porque nele a realidade e o ser se manifestam em plenitude. O poema traz em si o enigma da Esfinge, “decifra-me ou te devoro”. Além do caráter enigmático, o poema é em si um paradoxo, uma vez que, mesmo fazendo referência a alguma realidade, é antes de tudo criação e não quer expressar necessariamente nenhum mundo preexistente. Não existe uma realidade pura e neutra, mas um mundo que transcende seus próprios limites, porque incrustado no silêncio da imagem poética por analogias, que são os pontos de semelhança entre coisas diferentes.

Assim as metáforas, os contrastes e as comparações são criadas. É preciso entender as imagens retorcidas nas metáforas dos versos. Elas estão imobilizadas nos gritos, nos êxtases, no pasmar de cada momento, cada ritmo, cada estrofe, cada canto que compõe as palavras dos poemas que cantam a poesia, que diz muito, com poucas palavras. A poesia diz o indizível e pensa o impensável e sempre atribui novos sentidos, cria novas ideias e novos mundos. Vejo, dentro dessa perspectiva, as “Primícias” que eternizam Décio Jaime. (Prefácio do livro, publicado com autorização da autora.)

Maria de Fátima Gonçalves Lima, com doutorado e pós-doutorado na área de Literatura, é professora da PUC-Goiás e membro da Academia Goiana de Letras.

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