“Os nerds também leem ‘Ulisses’ de James Joyce”

“Não faz sentido o governador Ronaldo Caiado recriar a Secretaria de Cultura para deixar a cultura desabrigada”, afirma presidente da UBE-Goiás

Adérito Schneider*
Especial para o Jornal Opção

Ademir Luiz é doutor em História Medieval e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Além da produção acadêmica em diversas atividades de ensino, pesquisa e extensão, se dedica à escrita literária e aos quadrinhos. É é autor dos romances “Hirudo Medicinallis” e “Fogo de Junho”, além do romance gráfico “Conclave” e do conto “Quixote noir”, presente na antologia “Cidade Sombria”. Em sua trajetória dedicada à literatura, o autor vem acumulando conquistas como o Prêmio Cora Coralina (2002), o Troféu Goyazes (2013), o Prêmio Hugo de Carvalho Ramos (2014) e a Comenda Medalha do Mérito Cultural (2015), do governo do Estado de Goiás.

Ademir Luiz, presidente da UBE-GO: “Meu modelo intelectual é Umberto Eco. O intelectual italiano mesclava interesses em Idade Média, alta cultura, cultura pop, tinha um lado humorístico forte e era um polemista nato” | Divulgação

Neste ano, Ademir Luiz assumiu a presidência da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás (UBE-GO), uma das mais importantes entidades representativas de autores literários e outros escritores no Estado. Apesar de estar há pouco tempo à frente da entidade, é possível notar que sua marca como presidente está sendo impressa com uma pegada mais “jovem”, mais “pop”, mais “nerd” ou “geek”. Um bom sinal de que a vida literária goiana (e brasileira) está em constante renovação e aposta na diversidade.

Como se deu o processo em que assumiu a presidência da UBE-GO? Atualmente, está como presidente interino? Quando são as novas eleições e qual a possibilidade de permanecer no cargo?
É um pouco mais complexo. Com a nomeação do então presidente Edival Lourenço, que realizou um trabalho histórico na UBE-Goiás, como secretário de Cultura do governo Caiado, o caminho natural seria que o vice-presidente, o escritor Aidenor Aires, assumisse. Contudo, Aidenor é o presidente da Academia Goianiense de Letras e mostrou-se inviável que acumulasse dois cargos diretivos. Consultando o estatuto constatou-se que seria preciso chamar uma eleição interna para efetivação de uma nova diretoria. Eu, que ocupava o cargo de primeiro-secretário, tornei-me candidato e fui eleito pelos associados como presidente, Arthur Rios como vice e Clenira de Fátima Carminaste Valle como secretária-geral. Aproveito para agradecer publicamente a confiança. Apesar de ter sido uma eleição efetiva, nossa gestão vai até 2020, cumprindo o tempo que faltava para a chapa completa que foi anteriormente eleita. Quanto à possibilidade de continuidade do trabalho, acredito que vai ficar nas mãos dos associados. Veremos se minha gestão vai atender as expectativas. O futuro dirá.

Uma marca visível da sua gestão é que a UBE está com uma cara mais jovem, mais “pop”, mais “nerd”, mais “geek”. Vocês realizaram um Dia da Toalha (25 de maio), que é uma homenagem dos fãs de “O Guia do Mochileiro das Galáxias” ao autor da série, Douglas Adams. Esta pegada “geek” vai ser uma das marcas da sua gestão?
É uma questão de perfil e influências. Meu modelo intelectual é Umberto Eco. O intelectual italiano mesclava interesses em Idade Média, alta cultura, cultura pop, tinha um lado humorístico forte e era um polemista nato. Sem falar na famosa área de sua biblioteca dedicada aos temas tolos, crendices e esquisitices em geral. Também tenho uma pequena coleção de bizarrices na minha humilde biblioteca. Tenho interesses ecléticos. O Dia da Toalha, apesar de seu caráter lúdico, é uma data importante no calendário literário internacional. Parte de Douglas Adams, mas festeja a cultura pop como um todo. A literatura de ficção científica, suspense, horror. Se pararmos para pensar, as obras mais conhecidas de autores canônicos como Edgar Alan Poe, Aldous Huxley e George Orwell pertencem a esses gêneros que, em geral, recebem pouco reconhecimento das academias e leitores cultos. Ao mesmo tempo, no dia 16 de junho a UBE-GO prestou sua homenagem ao “Bloomsday”, uma data pouco lembrada no Brasil, que festeja o romance “Ulisses”, do escritor irlandês James Joyce. Tem espaço para tudo.

Ademir Luiz, doutor em História: “O escritor colombiano Gabriel García Márquez era o queridinho da crítica, mas quando se tornou best-seller passou a ser visto como uma figura folclórica” | Foto: Divulgação

Os jovens são responsáveis por fatia considerável do mercado editorial. Especialmente, cada vez mais este universo “geek” garante lucros aos autores, editoras e livrarias. No entanto, sabemos também que muitas vezes o universo da literatura mais ligado à academia (universidade) despreza esta relação com o mercado e, consequentemente, as obras de apelo mais popular. Como essa relação vai funcionar na sua gestão na UBE?
Há autores geniais, medíocres e ruins em qualquer gênero. Literatura é, sobretudo, trabalhar a linguagens esteticamente. Se o autor consegue fazer isso ao mesmo tempo em que agrada ao grande público deve ser reconhecido, estudado e festejado. Sucesso não deve ser motivo para desprezo ou desconfiança. Há alguns casos curiosos: o escritor colombiano Gabriel García Márquez era o queridinho da crítica, mas quando se tornou best-seller passou a ser visto como uma figura folclórica. É como se os “críticos sérios” dissessem: “Se todo mundo gosta, não pode ser tão bom assim”. Algo parecido aconteceu com Milan Kundera e o próprio Umberto Eco, que só voltou a ser respeitado fora da Itália depois da morte.

Os fenômenos “pop” estão cada vez mais transmidiáticos, migrando constantemente entre literatura, cinema, séries de TV, jogos de videogame, quadrinhos. Neste sentido, a UBE vai trazer outras linguagens para seus eventos ou o foco permanecerá na literatura?
A UBE é uma entidade de escritores, mas acredito ser possível estabelecer conexões com outras artes. Planejo realizar um ciclo de debates sobre a obra de Tolkien, o autor de “O Senhor dos Anéis”. Os filmes adaptados de seus livros não poderiam ficar de fora. Eu mesmo, em parceria com o professor Eliézer Cardoso, estou produzindo um documentário sobre a literatura goiana moderna, viabilizado com recursos da UEG e da Fapeg (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás). Minha pretensão é fazer o lançamento no Porto do Escritor, a sede da UBE. Não somos cineastas, trata-se de um filme com fins eminentemente didáticos, mas é um flerte com a arte cinematográfica. Também estou realizando o que chamo de “entrevistas self” com escritores, intelectuais e pesquisadores. Trata-se de conversas em ritmo rápido e descontraído, próprias para a linguagem da internet, gravadas em meu celular e divulgadas em nossas redes sociais. Já disponibilizamos entrevistas com escritores como Ana Luiza Serra, Heleno Godoy, Solemar Oliveira, José Fábio Silva, Nelson Morais, Delermando Vieira, Carlos Edu Bernardes.

Umberto Eco: semiólogo, crítico e escritor italiano

Como fica a questão dos “clássicos”, da produção literária mais ligada à academia ou aos cânones, na sua gestão? Especialmente, como será a relação da entidade com os autores menos jovens e consagrados da literatura goiana?
De total respeito e reconhecimento dos méritos. Até porque a literatura moderna e contemporânea de Goiás segue em um fluxo de continuidade. Não há rupturas temáticas ou estéticas evidentes. Autores do Grupo de Escritores Novos (GEN), como Heleno Godoy, Miguel Jorge e Maria Helena Chein, seguem produzindo em quantidade e qualidade. Por exemplo, atualmente estamos realizando o projeto Dia de Campo com as Letras, que foi planejado por Edival Lourenço e está sendo implementado por mim, com algumas adaptações. Trata-se de uma série de dez oficinas literárias oferecidas aos sábados. Entre os palestrantes estão nomes consagrados como Delermando Vieira e Aidenor Aires. Ao mesmo tempo, temos autores jovens como Cristiano Deveras, Leonardo Teixeira e José Eduardo Umbelino Filho. Não vejo motivos para a UBE promover um conflito de gerações.

Qual autor(a) ou obra clássica você acha ruim ou chata e qual você adora? Qual autor(a) ou obra “pop” você acha ruim ou chata e qual você adora?
Nem sempre se acerta. José J. Veiga é um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, mas o romance “Relógio Belisário” é vergonhosamente ruim. Adoro “O Perfume”, de Patrick Süskind, mas considero “A História do Senhor Sommer” fraco. O próprio Umberto Eco, que escreveu dois romances extraordinários, “O Nome da Rosa” e “O Pêndulo de Foucault”, despediu-se da literatura com um livro péssimo, “O Número Zero”. A obra literária de Chico Buarque equivale ao Michael Jordan jogando beisebol ou Usain Bolt jogando futebol — não é convincente. O Prêmio Camões não muda isso. A lista poderia se estender. Quanto a literatura pop, “As Crônicas de Gelo e Fogo” do George R. R. Martin, não me convenceram. “Harry Potter” é cheio de furos de roteiro que a autora tentou arrumar ao longo do caminho, e nem sempre conseguiu. Mesmo Stephen King, alçado à condição de gênio pela atual geração de nerds Nutella, é um autor mediano. H. P. Lovecraft fantástico. Construiu uma cosmogonia literária riquíssima e sútil.

“H. P. Lovecraft é fantástico. Construiu uma cosmogonia literária riquíssima e sútil” | Foto: Reprodução

Neste mês, o governo do Estado de Goiás suspendeu por tempo indeterminado os editais do Fundo de Arte e Cultura (FAC) de 2018, ou seja, interrompeu um processo em pleno funcionamento e que já estava com calendário atrasado, pegando de surpresa a classe artística e trabalhadores do setor de arte e cultura. Qual deve ser o impacto desta medida para a literatura goiana?
Estou bastante preocupado com essa situação de incerteza, pois afeta diretamente muitas atividades da UBE. Principalmente nosso carro-chefe, as Oficinas de Escrita Criativa, que já trouxeram para palestrar em Goiás nomes nacionais e internacionais como Luiz Rufatto e Ana Miranda; lendas da cultura nacional, como Chacal, Marilene Felinto e Reinaldo Moraes; consagrados escritores da nova geração, como Daniel Galera, Edson Aran, Sérgio Rodrigues, Claufe Rodrigues, Cintia Moscovich e Jacques Fux; além de importantes criadores do cenário local, como Heleno Godoy, Valdivino Braz, Larissa Mundim. Sem financiamento estatal, tais iniciativas ficam praticamente inviabilizadas. Mas acredito que a situação pode ser contornada. Não faz sentido o governador Ronaldo Caiado recriar a Secretaria de Cultura para deixar a cultura desabrigada. Seria mais fácil deixar como estava.

Ademir Luiz, romancista e contista: “O fato é que as leis de fomento nunca privilegiaram a literatura”| Divulgação

O Brasil vem se arrastando há um bom tempo em uma crise econômica e, sobretudo, política. Qual tem sido o impacto disso no setor da arte e da cultura? Mais especificamente, como a crise tem afetado a literatura?
A crise possui várias configurações. A crise política pode servir de combustível para criatividade literária. Tentei usar essa temática em meu romance “Fogo de Junho”, focando as manifestações de 2013. Por outro lado, a crise econômica possui desdobramentos que vão desde a canibalização do mercado de livros por gigantes da internet até o simples desinteresse dos leitores por autores brasileiros. Basta lembra que em décadas passadas autores como Jorge Amado, Erico Verissimo e Rubem Fonseca eram best-sellers. Depois tivemos o fenômeno Paulo Coelho, que deve ser analisado mais do ponto de vista sociológico do que literário. Hoje temos autores respeitados, como Milton Hatoum e Cristovão Tezza, mas que não são necessariamente conhecidos do grande público. A crise é do mercado? É uma crise estética? Tudo junto? O fato é que as leis de fomento nunca privilegiaram a literatura. Não há resposta simples.

“Desde 2013 os livros premiados com bolsa não são publicados”

Qual a sua percepção atual em relação à “cena literária” goiana ou, ao menos, goianiense? Que autores, obras ou eventos estão em evidência?
A UBE, com as oficinas de escrita criativa, tem realizado um trabalho interessante na formação de leitores e aprimoramento de autores. A Academia Goiana de Letras, sob a presidência da escritora Lêda Selma, tem promovido eventos inovadores, como a Academia na Rua, fomentando o diálogo entre a sociedade e os escritores. Mas também há problemas sérios. Desde 2013 os livros premiados com a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos não são publicados. Trata-se da láurea literário mais antiga do Brasil. A Prefeitura de Goiânia, responsável pela premiação por lei municipal, poderia transformar esse prêmio em um evento importante nacionalmente, cumprindo o plano de Pedro Ludovico de fazer da nova capital de Goiás uma cidade da cultura. Poderia haver ganhos inclusive políticos. Mas optam por ignorá-lo. Falta visão e, consequentemente, vontade política.

Qual a função da UBE para o fomento da cena literária goiana e quais são os projetos de sua gestão neste sentido, pensando desde a formação de leitores, o suporte aos escritores e também a relação com a academia e com o mercado editorial?
Nosso carro-chefe é a Oficina de Escrita Criativa, que deve ir para sua quinta edição. Planejamos um informativo literário em parceira com a Agência Brasil Central (ABC) e um programa de TV focando na literatura, que seria exibido na TBC-Cultura. Os dois projetos estão sendo encabeçados pelo escritor Cristiano Deveras, membro da diretoria da UBE-GO. A relação com o mercado é complexa, sobretudo em Goiás onde o mercado para os autores locais é quase marginal. Mas estamos fechando parcerias para exibição de livros de autores goianos em bancas e livrarias de Goiânia. Uma gota no oceano, é verdade, mas já é alguma coisa, considerando que o mar não está para peixe.

O Ademir Luiz escritor vai ficar na gaveta neste período?
Não se livram de mim facilmente. Está em fase de ilustração meu segundo romance gráfico, “Errante”, que estou fazendo em parceria com o artista Nilto Cardoso. Também escrevi um livro infantil que está sendo ilustrado por Tiago Duarte Rézio. Planejo um novo romance e minha estreia na dramaturgia. Fora isso sigo em minha cruzada pessoal para irritar gregos e troianos com meus artigos na imprensa e na internet, principalmente no Jornal Opção e na Revista Bula. É isso, até mais e obrigado pelos peixes.

*Adérito Schneider é jornalista e professor do curso de Cinema e Audiovisual do Instituto Federal de Goiás (IFG)-Campus Cidade de Goiás. É organizador e um dos autores do livro “Cidade Sombria” (2018).

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