Os nazistas e a resistência: o gueto de Varsóvia

Com seu um milhão de habitantes, antes da Segunda Guerra, cidade era a Paris da Europa Oriental. Judeus representavam mais de um terço da população

Soldados alemães prendem judeus durante a revolta do Gueto de Varsóvia. Foto: Domínio público

Carlos Russo Jr.*
Especial para o Jornal Opção

Foram as Cruzadas que, em nome de Deus, se predispuseram a matar todos os judeus da Europa. Os massacres se tornaram tão sangrentos que, bando após bando, os judeus se foram agrupando no recém-criado Reino da Polônia, onde foram bem recebidos, confundindo-se com o princípio da própria Polônia. Uma série de reis poloneses garantiram liberdade religiosa e proteção para os judeus vindos da Boêmia.

Como não havia uma classe média entre os aristocratas e os camponeses, os judeus trouxeram as artes, ferramentas de trabalho, comércio e profissões manuais.

A perseguição aos judeus iniciou-se quando a Igreja Católica cresceu em poderio e se consolidou como religião estatal. Os jesuítas aprovaram conflitos medievais contra os judeus. Logo estes receberam apoio dos comerciantes alemães emigrados e ambos impuseram um imposto judeu, expulsão de ofícios competitivos, comércio e profissões. Os pans feudais proibiram que judeus tivessem a posse das terras. Na Polônia deu-se a criação de um dos primeiros guetos judeus do mundo, trancafiados e emparedados.

Daí, entre os diversos grupos judeus, principiou uma longa experiência em autogestão. Falavam iídiche ao invés da língua local, criaram sua própria cultura e literatura.

Varsóvia com seu um milhão de habitantes, antes da Segunda Guerra, era a Paris da Europa Oriental. Os judeus, então, representavam mais de um terço da população, embora ocupassem apenas 3% da área total da cidade.

Em 1º de setembro de 1939, soldados nazistas atravessaram a fronteira e marcharam para a Polônia. Era o primeiro teste da blitzkrieg (ataque relâmpago) alemão.  Em 27 de setembro, Varsóvia se rendeu.

Soldados poloneses marcham para cativeiro, em 30 de setembro, após a capitulação. Foto: Domínio público

A ocupação nazista foi mais longa na Polônia do que em qualquer outro país, o que deu mais tempo para a implantação de políticas racistas e segregacionistas contra aqueles considerados “inferiores racialmente”, como ciganos, judeus, homossexuais e deficientes físicos e mentais. Quando tomaram a cidade, os nazistas ofereceram comida à população local não judia, encorajando que esses expusessem e delatassem judeus. Quanto mais a ocupação se consolidava, mais seu caráter antissemita se reforçava.

Quanto aos comunistas e socialistas dedicava-se a Gestapo, exterminando-os após tortura.

Jürgen Stroop, o Comandante SS responsável pela repressão ao gueto de Varsóvia, não desejava passar a vida num banco de sapateiro como seu pai. Como ele não era bom para coisa alguma, dificilmente seria um bom sapateiro da Baviera. Desocupado, vivendo de pequenos furtos e empreitadas, tinha duas mulheres e três filhos, sempre vítimas de sua violência doméstica.  No pós Primeira Guerra, a Alemanha enchera-se de revoltados e descontentes, que gastavam suas energias praguejando contra um mundo que eram incapazes  de compreender e de enfrentar. Durante os anos 1920, surgiram rumores que foram música para muitos de sua geração, pessoas obscuras e insignificantes, verdadeiros Ninguéns: suas falhas eram explicadas por uma forma através da qual eles queriam acreditar. Não eram responsáveis pelas suas dificuldades, mas vítimas de uma conspiração do mundo contra sua gente.

E à frente deste mundo que os tolhiam estavam os judeus com seus negócios, os intelectuais,  os comunistas, os socialistas e os democratas! Tornou-se Nazista. Um novo status, e o uniforme marrom. Tudo o que ele tinha que fazer era exercer a força bruta, o mesmo tipo que usava para amortecer suas ex-esposas e filhos. Com o pouco que possuía de personalidade e de compreensão da vida, viu que a única forma de sucesso era moldar sua sorte a do Nazismo. Instintivamente entendeu a única regra: obediência absoluta! Como a moralidade não constituía problema algum, tudo se resumia a disciplina e força. Ele queria ser alguém e Hitler deu-lhe esta chance!

Os nazistas acolheram fanfarrões, bêbados, drogados e desordeiros e os transformaram em heróis. Em troca, eles deram-lhes absoluta obediência, sem escrúpulos, remorsos ou conflitos de consciência, quer quando deveriam assassinar um inimigo do Partido, quer fosse o caso de destruir uma sinagoga.

E os nazistas fizeram o que Hitler prometera. A Alemanha, quer pela expropriação das propriedades judaicas, quer pela exploração sem tréguas do trabalho escravo pelos grandes industriais alemães, tornou-se poderosa e temida e, enquanto se os poderes econômicos e bélicos se expandiam, os leais Jürgen Stroops recebiam suas recompensas.

Jürgen Stroop aprendeu no processo, intuitivamente, muitas lições. Um dos mais importantes axiomas era que os intelectuais eram homens fracos. Esposavam ideias nobres sobre as quais ele pouco entendia, mas que sobre as quais, ao contrario dos nazistas, eles não estavam dispostos a morrer. Logo, eram supérfluos e covardes. Ele poderia governá-los aterrorizando-os, e eles poderiam realizar coisas para as quais ele era absolutamente incapaz.

Sobre os instrumentos de propaganda nazista, Stroop aprendeu que uma mentira repetida mil vezes, até mesmo para aqueles que sabiam que se tratava apenas de uma mentira, faria com que ela se transformava em verdade. E que a primorosa distorção dos fatos, era um excelente gerador das meias verdades. Que para a maioria das pessoas a verdade consiste apenas aquilo no que as pessoas querem crer, nada mais.

Quando participara das turbas da antiga milícia nazista, a SA, a tropa de choque que aterrorizava as ruas de Munich, aprendeu que a prática de cada ato de violência, sempre contava com a apatia dos homens livres. E isto lhe trazia a satisfação do cheiro do sangue vertido e também descobriu que ele o viciava.

Milhares de judeus foram mortos a tiros na revolta do gueto de Varsóvia(Reprodução/Internet)

Em Varsóvia ainda trazia na memória as palavras de seu Fuhrer: “O certo é de propriedade exclusiva do vencedor. O perdedor está sempre errado”.

O idioma alemão, abastardado pelos nazis com expressões cínicas como “alegria através do trabalho”, “supremacia da raça ariana”, “espaço vital”, “destino alemão”, “as verdades”, “destino do povo alemão”, “povos irmãos”, “desumano tratamento da etnia alemã”, se incorporou às falas de Jürgen Stroop para com seus subordinados.

E o povo polonês foi levado a compreender que “reserva” é a nova nomenclatura de gueto; que “despojo” legítimo de guerra eram os  bens roubados ou confiscados aos judeus e aos inimigos políticos; que “contaminado” era o nome da propriedade a ser confiscada; “medidas sanitárias”, significavam execuções em massa; que “abatido quando tentava escapar” era sinônimo de assassinato na prisão; “reinstalação”, era confisco de propriedades; “trabalho voluntário”, igual a trabalho escravo; “sub-humanos” designava os  judeus, os ciganos, presos políticos, homossexuais ( exceto os arianos); “mestiçagem” requeria  execução para evitar a mistura de sangue sub-humano com o ariano; que “bolchevique, especulador, belicista” era um cognome para judeus e que “dispensa de tratamento especial”, simbolizava o extermínio. Finalmente, tendo em vista o nível de privações a que os judeus eram submetidos no gueto, a população polonesa foi “convencida” que, a fim de viver em um gueto, um homem precisa contrariar a lei. Daí, todos os confinados eram criminosos, inclusive crianças, logo, passíveis de execução.

Aos judeus de Varsóvia foram agregados milhares de judeus provenientes de países ocupados na Europa Oriental pelos nazistas. O gueto de Varsóvia chegou, em seu auge a conter 380 mil pessoas.

O gueto, sendo separado do resto de Varsóvia por um muro. Foto: Wikimedia Commons

Sob o mais inacreditável terror nazista, a resistência do povo judaico fez-se presente de diferentes formas. Principiou pela organização de instituições de autoajuda e de caridade, como a CENTOS com as cantinas de sopa gratuita: a certa altura, dois terços da população dependiam destas cantinas.

Havia também um extenso sistema escolar clandestino organizado por vários movimentos juvenis, que cobria todos os níveis básicos e de ensino secundário e oferecia até cursos de nível universitário aos domingos, disfarçados frequentemente de cantinas.

Um orfanato, liderado pelo pediatra e autor Janusz Korczak, era chamado da República das Crianças. Este e outros orfanatos foram destruídos em 1942 e os seus ocupantes enviados para Treblinka, onde foram assassinados.

A vida cultural jamais deixou de existir. Incluía uma imprensa diária trilingue (iídiche, polaco e hebreu), atividade religiosa (incluindo uma igreja para convertidos ao cristianismo), aulas, concertos de música clássica, teatro e exposições de arte. Um dos mais notáveis esforços de preservação culturais foi liderado pelo historiador Emmanuel Ringelblum e o seu grupo, que coletou uma importantíssima  documentação para preservar a história social da vida no gueto. Estes documentos foram escondidos dos alemães em três locais separados, dois dos quais foram recuperados e fornecem-nos hoje a história da vida no gueto.

Entre julho e setembro de 1942, levas de deportações removeram mais de 300 mil judeus para o campo de concentração de Treblinka. Reduzido a 60 mil pessoas – em sua maioria homens e mulheres ainda saudáveis, decidiram organizar a resistência armada do gueto.

O primeiro conflito ocorreu em 18 de janeiro de 1943, quando vários batalhões da SS marcharam rumo ao gueto, mas foram emboscados, com baixa de doze SS.

“O certo é de propriedade exclusiva do vencedor. O perdedor está sempre errado” – Adolf Hitler

Os transportes para os Campos de Extermínio foram interrompidos por 4 dias e as duas organizações de resistência, a ZOB e ZZW tomaram o controle do gueto, montando vários postos de combate. Uma de suas primeiras ações foi eliminar a Milícia Judaica, assassinos judeus que operavam a mando dos alemães.

“A batalha na rua Niska nos encorajou. Pela primeira vez desde a ocupação vimos os alemães colados às paredes, engatinhando no chão, correndo para se cobrir, hesitando antes de dar um passo, com medo de ser atingido por uma bala judia. Os gritos dos feridos nos deram alegrias e aumentaram a nossa vontade de lutar,” escreveu numa carta Tuvia Boryskowski, uma resistente.

Durante os três meses seguintes, todos os habitantes do gueto prepararam-se para aquilo que eles sabiam ser a luta final. Foram cavados túneis por baixo das casas, a maioria ligada pelo sistema de esgotos e de abastecimento de água. Acima das casas, cada telhado era um ponto de sentinelas.

O apoio de sectores fora do gueto foi limitado a algumas ações polacas da Armia Krajowa (AK) e dos comunistas que sobreviviam do lado polonês.

A resistência sabia perfeitamente que não seria capaz nem de libertar o gueto, muito menos destruir o aparelho nazista local. Os resistentes possuíam o objetivo de uma morte digna. num misto de orgulho e esperança.

Jürgen Stroop, o SS-Gruppenführer das Waffen-SS nazistas e comandante responsável pela repressão ao Levante do Gueto de Varsóvia, em agosto de 1943

Ao conhecer o resultado do primeiro combate no gueto, um enlouquecido Heinrich Himmler ordenou ao general Jürgen Stroop que extinguisse o Gueto de Varsóvia até, no máximo, meados de fevereiro, pois era um mau exemplo para todos os povos sob as botas nazistas. Entretanto, a luta judaica se estenderia por três meses!

A batalha final começou na noite da páscoa judaica, domingo 19 de abril de 1943. Os guerrilheiros judeus dispararam e atiraram granadas contra patrulhas alemãs a partir de becos, esgotos, janelas. Os nazis responderam detonando as casas bloco por bloco e cercando e matando todos os judeus que conseguiam capturar. Ao mesmo tempo, toda a rede de esgotos era inundada por gases venenosos. Aviões varriam os telhados, pontos de tiro dos resistentes.

Em 8 de maio, os últimos rebeldes foram cercados. Muitos preferiram o suicídio.

Esta foi uma das mais lindas epopeias da luta do homem por liberdade e dignidade. Um exército improvisado, de algumas centenas de combatentes, sob o comando do ex-oficial do Exército Polonês, Mordechaj Anielewicz, sem armas minimamente adequadas ( 50 pistolas e uma metralhadora), fez frente à mais poderosa potência militar que o mundo já conhecera, resistindo com bravura inaudita durante três meses àquele que era considerado o mais fulminante exército do mundo.

Janusz Korczak foi preso, julgado por genocídio e condenado à morte em 1952.

Obs.: Em Sobibor, na polônia Ocidental, o Campo de Extermínio dirigido pelo SS Gustav Wagner, os 250 mil assassinados tiveram os corpos antes de  incinerados, fervidos para retirada de gordura para sabão e os ossos triturados para adubo. Gustav Wagner, como tantos genocidas conseguiu evadir-se da Alemanha derrotada e exilou-se no Brasil. Sabendo-se detectado pelo Mossad e conhecedor do destino de Eichmann, sequestrado na Argentina e condenado à morte em Israel, procurou o Estado Brasileiro para “entregar-se”, ou melhor, proteger-se, pois o pai do atual Ministro do Exterior, Ernesto Araújo, o Procurador da República da ditadura militar, em conluio com o STF, negou a extradição do mesmo para Israel, Polônia ou Alemanha.

A resistência do gueto de Varsóvia deixou-nos uma lição: que o nazismo e o fascismo necessitam de combate permanente. E que somente poderemos enfrenta-los e vencê-los criando uma nova ética arquetípica: a de que a vida humana deve ser tratada como sagrada.

*Carlos Russo Jr. é escritor e crítico literário.

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