Os favoritos na temporada de prêmios de 2019

76° Globo de Ouro serve como um termômetro para o Oscar; “Bohemian Rhapsody”, “Green Book – O Guia” e “Roma” despontam como favoritos. O que dizer sobre eles?

Na imagem, os principais premiados do Globo de Ouro: “Bohemian Rhapsody”, “Green Book – O Guia” e “Roma” | Fotos: Divulgação

João Paulo Lopes Tito
Especial para o Jornal Opção

Não é novidade que, entra ano, abre-se a temporada das grandes premiações do cinema mundial – principalmente as americanas. No domingo passado, 6, o 76° Globo de Ouro deu o pontapé inicial. Em seguida, virá o Critics Choice Movie Awards (13), o Producers Guild of America Awards – PGA (19), o Screen Actors Guide Awards – SAG (27), o Directors Guild of America Awards – DGA  e o Art Directors Guid Awards – ADG (ambos dia 2 de fevereiro), o American Society of Cinematographers Awards – ASC (9/2), o British Academy of Film and Television Arts Awards – Bafta, uma espécie de Oscar britânico (10/2), o Writers Guild of America Awards – WGA (17/2), o Film Independent Spirit Awards (23/2) e, por fim, o Oscar (24/2).

É uma verdadeira maratona, geralmente encabeçada pelos sindicatos dos artistas de cada função, até a premiação tida como mais importante e popular da indústria.

Apenas um adendo: obviamente que existem premiações e festivais tão ou mais importantes que o Oscar no mundo todo. Cada um com seu enfoque, seu nicho e seu tipo de abordagem. Além do Oscar e o Bafta, também estão dentre as maiores premiações do cinema, por exemplo, o Festival de Cinema de Cannes (com a Palma de Ouro), o Festival de Berlim (com seu Urso de Ouro), Festival de Toronto, o Festival de Veneza (com o Leão de Ouro), o Festival de Sundance, a Noite dos Césares (com a entrega do prêmio César), o Prêmio Goya… enfim, são inúmeros. Mas, sem dúvida nenhuma, o Oscar é a premiação mais popular e a que movimenta mais dinheiro.

O fato é que essa maratona de início de ano serve como um termômetro para o Oscar. O corredor vai se afunilando, de modo que quando for divulgada a lista de indicados, no dia 22 de janeiro, já teremos um panorama bastante claro sobre os favoritos à principal premiação.

Principais destaques
Na edição do Globo de Ouro desse ano, ressaem três importantes filmes: “Bohemian Rhapsody”, de Brian Singer e Dexter Fletcher, que ganhou prêmio de melhor filme e melhor ator na categoria drama; “Green Book – O Guia”, de Peter Farrelly, considerado o melhor filme na categoria comédia ou musical, e melhor ator coadjuvante em filme de comédia ou musical; e “Roma”, de Alfonso Cuarón, melhor filme em língua estrangeira (não-inglês). Superaram obras como “Nasce uma Estrela”, “Pantera Negra”, “Infiltrado na Klan”, “Vice” e “Assunto de Família”. Tudo indica que, após a longa maratona, os três se enfrentarão no Oscar. E o que dizer sobre eles?

Primeiramente, é preciso destacar que são três obras completamente diferentes entre si. Abordagem, direção, estilo de roteiro e popularidade – cada um com a sua. A opinião do público a respeito deles certamente varia bastante, mas nem sempre pode ser considerada como um bom referencial técnico ou como termômetro para premiações.

“Bohemian Rhapsody”, que traz uma cinebiografia do Queen, é disparado o filme mais popular dos três, porque se apega à fama de seus próprios personagens: os músicos de uma das maiores bandas de rock’n’roll de todos os tempos. Também pode ser considerado como o mais fraco dentre os três. É um filme que tem sido bastante elogiado pelo público, e já completa mais de dois meses em cartaz (no Brasil, estreou no dia 1º de novembro de 2018). Não há quem não saia da sala de projeção cantando as músicas e querendo mais detalhes da vida de Freddie Mercury e companhia. Aí talvez esteja o trunfo e o calcanhar de Aquiles da obra, porque o júri das premiações não vai analisar a banda de rock ou sua história, mas o valor artístico do filme. E o que dizer sobre ele, em questões técnicas?

No geral, é um filme que enfrentou problemas de direção em sua fase final, com a saída obscura de Brian Singer e sua substituição por Dexter Fletcher, mas que consegue manter a coesão nesse quesito. Não é uma direção que se destaca – apesar de trechos elogiáveis, como a sequência de gravação da música tema “Bohemian Rhapsody”, ou a reconstituição perfeccionista do show do festival Live Aid – mas é bastante competente. Os problemas principais estariam no roteiro, que peca cruelmente pela mutilação da realidade. Fatos importantes como a descoberta da AIDS por Mercury, ou a composição de certas músicas são deslocadas da cronologia da vida real ou simplificadas demais, o que interfere no funcionamento da parte técnica do roteiro.

O resultado é um filme que beira novela mexicana, pegando a doença de Mercury como mote para o fechamento da história, sem explorá-la de modo sádico, mas fazendo com que todo o universo da banda circunde esse fato. O concerto no Live Aid seria a redenção, o clímax do filme. Um típico melodrama (repare que, no concerto da vida real, Freddie ainda não havia sido diagnosticado, o que confirma a intenção da produção em apelar para emoções exacerbadas como saída fácil de roteiro).

A trilha sonora original também é bastante frágil, já que o filme prefere explorar a discografia oficial do Queen – o que não poderia ser diferente, mas que também o distancia de premiações como por composição original (aspecto que fortalece o concorrente “Nasce uma Estrela”, por exemplo).

O forte, sem dúvida, está na atuação de Rami Malek como Freddie Mercury. O filme é uma clara homenagem ao cantor, de modo que Malek tem um tempo de tela excepcional – e soube usá-lo muito bem. Não por acaso, faturou o Globo de Ouro de melhor atuação em filme de drama, agradecendo a conquista ao próprio Mercury. Seu páreo será duro no Oscar, já que enfrentará Bradley Cooper (por “Nasce uma Estrela”), Viggo Mortensen (por “Green Book – O Guia”) e Christian Bale (por “Vice”), talvez seu maior adversário.

Rami Malek e seu Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama pela interpretação do astro Freddie Mercury

A pergunta que fica, entretanto, cuja resposta é obviamente um “não” é: o filme sobreviveria sem o Queen? Ao sair da sala de projeção, a vontade do espectador, no geral, é rever cenas do filme ou correr atrás de material da banda? Tudo bem, algumas pessoas dirão que passaram a gostar da banda só por causa do filme. Mas ao cabo da experiência, o que fica na memória é o próprio Queen, não o filme.

Se pegarmos outras elogiadas cinebiografias como “Ray”, “Amadeus” ou “The Doors”, há uma sustentação técnica que garante o selo de “filme consistente”. Em “Bohemian Rhapsody”, entretanto, a popularidade e a genialidade dos músicos – e principalmente de Freddie Mercury – sustentam um filme nada mais que mediano. Rami Malek carrega a produção nas costas (que me desculpem May e Taylor, pessoalmente engajados no projeto).

De outro lado, temos “Green Book – O Guia”, filme de Peter Farrelly. Em seu histórico, o diretor se deu muito melhor na comédia do que no drama, e é o nome por trás de filmes como “Débi & Lóide”, “Quem vai ficar com Mary?”, “Eu, eu mesmo e Irene” e “O amor é cego”, por exemplo.

Em “Green Book”, Farrelly cria uma comédia dramática para contar uma história inspirada por fatos reais. Don Shirley (vivido por Mahershala Ali) é um pianista de jazz negro que, na década de 60, decide fazer uma turnê pelo Deep South americano, formado por Estados ainda com forte segregação racial. Para auxiliá-lo, contrata Tony Villalonga (Viggo Mortensen), um ítalo-americano meio bronco. O nome do filme faz referência a um livro-guia turístico voltado para afro-americanos em trânsito pelos Estados Unidos, e trazia dicas de hospedagem e restaurantes para facilitar a vida em tempos de racismo extremo. Quase um manual de sobrevivência disfarçado. Do embate entre Tony e Don na rotina diária surge o interesse do longa.

Há quem cite “Conduzindo Miss Daisy”, produzido em 1990 por Bruce Beresford, como principal referência. A questão aqui vai um pouco mais além, porque em Miss Daisy os papéis sociais estavam um pouco mais em conformidade com a crítica social. O motorista negro precisava enfrentar o preconceito e arrogância de sua patroa branca e racista. Aqui, o motorista é branco e precisa engolir o orgulho para servir o negro, patrão. Esse deslocamento de estereótipos dá um tempero adicional. Situação infelizmente incomum até para os dias de hoje.

Há uma sequência emblemática, quando o carro em que ambos estão sofre uma pane na estrada, próximo a uma lavoura onde alguns serviçais negros trabalham. Don, em um terno alinhado, fumando lenta e despreocupadamente um cigarro, aguarda enquanto Tony, suado, em roupas amassadas, termina o conserto e abre a porta para seu patrão entrar. Tente imaginar a cara dos trabalhadores, do outro lado da cerca.

O tom levemente cômico do filme é bem equilibrado pela direção, que também faz um bom trabalho com os atores principais. Há certo exagero na performance de Mortensen (que precisou ganhar mais de 20 quilos para o papel), visivelmente inspirado em Tony Soprano e companhia, mas não chega a incomodar. Mahershala entrega mais uma atuação primorosa, confirmando sua ascensão entre os grandes atores contemporâneos. Qualquer prêmio que vier será mais do que justo. A fotografia não chama a atenção (na verdade, o enquadramento chega a soar desleixado por algumas vezes), mas convence. Trilha da mesma forma.

No geral, “Green Book” é um filme redondo, que deixa pouca margem para críticas negativas, e que fisga o espectador aos poucos, a partir da construção da amizade entre Don e Tony (cujas atuações são o ponto alto da produção). Emociona ao mesmo tempo que faz pensar. Mas não tem os traços de um clássico, e provavelmente será aos poucos deixado de lado. Proporciona o típico entretenimento fugaz, que sem dúvida nenhuma agrada e deixa o espectador num estado de espírito confortável, mas que não carrega nas costas as marcas de uma grande direção ou de um roteiro de peso.

Don Shirley (vivido por Mahershala Ali) é um pianista de jazz negro que contrata Tony Villalonga (Viggo Mortensen), um ítalo-americano meio bronco | Foto: Divulgação

Por fim, “Roma”, de Alfonso Cuarón, que conta com o selo Netflix de qualidade. Aliás, esse é um dos cartões de visita do filme, que angariou certa polêmica desde o início, ao ser rejeitado pelo Festival de Cannes. O festival francês proibiu a competição de filmes que não houvessem sido exibidos em salas comerciais francesas – o que, na prática, afeta diretamente as plataformas de streaming. Em seu discurso de vencedor como melhor diretor, no Globo de Ouro, Cuarón inclusive alertou para o perigo desse tipo de limitação… mas isso é assunto para outra hora.

“Roma” é um filme belíssimo. E é um filme chato. Depende do espectador. Porque o que está em jogo na obra de Cuarón não é a busca pelo sucesso comercial, mas o exercício pleno e supremo de técnicas cinematográficas apuradíssimas. E com um pé na nostalgia.

A fita traz o dia-a-dia de uma família mexicana, nos idos da década de 70, na Cidade do México, com um enfoque especial em Cleo, uma das empregadas. O nome da obra vem do bairro onde essas pessoas moram. Curiosamente, traz também uma aproximação com o gênero do neorrealismo italiano, inaugurado por Roberto Rosselinni em 1944, com o filme “Roma, cidade aberta”.

A estética escolhida por Cuarón aqui lembra bastante esse movimento, que buscava a valorização da realidade, e a representação das características sociais e econômicas de determinada época e local (no Brasil, esse reflexo é sentido principalmente na filmografia de Nelson Pereira dos Santos e de todo o Cinema Novo, de modo geral). São filmes com extremo realismo, beirando o documentário, mas obviamente escorados nos alicerces da ficção. A escolha de Yalitza Aparicio, que não é atriz, para o papel principal reforça essa aproximação. A crítica social que permeia várias das cenas também guarda relação com o gênero.

Cuarón declarou recentemente que aproximadamente 90% do que vemos em seu filme vem diretamente de sua memória. É praticamente uma reconstituição da infância do diretor mexicano. E por esse motivo, pelo caráter pessoal e biográfico, é que ele quis assumir não só a direção, mas também o roteiro, a fotografia, a montagem e a produção do filme. É um verdadeiro “filme de autor”. E ainda assim, em sua fala quando recebeu o Globo de Ouro, disse que se sentia como um charlatão ao ser reconhecido por uma obra que contou, basicamente, com o registro de uma casa que já existia, com atores e atrizes que representaram a realidade de modo tão cru e natural. Quase um documentário. Modéstia do cara.

O que sobressai, entretanto, é a fotografia. Diz-se que a fotografia em preto e branco (e o filme é em preto e branco) é a mais fácil de se produzir, porque é naturalmente linda (Sebastião Salgado há de discordar – com razão e autoridade!). Mas o que Cuarón faz na tela é uma aula de cinema. De técnicas cinematográficas. Desde os elementos de mise-en-scène (que, grosso modo, é a disposição dos elementos em cena), a coreografia dos personagens e, principalmente, dos figurantes; os movimentos de câmera sutis, mas capazes de ampliar absurdamente os cenários; a iluminação que reforça sem rebuscar… o espectador mais ansioso pode assistir e achar chato, porque aquilo é a representação perfeita da realidade, com o seu tempo vagaroso, seus detalhes excessivos. Mas ter a consciência de que é uma representação artificial, construída e planejada para ser assim, traz uma ideia da grandiosidade do trabalho que foi feito.

Se levar em consideração unicamente aspectos técnicos (o que, sabemos, dificilmente acontece), os júris das premiações que virão dificilmente negarão reconhecimento a “Roma”.

Aspectos como a popularidade, envolvimento do espectador (aquele chamado “feel good movie”, em que quem assiste sai com aquele sentimento bom no coração) e reconstituição de época, entretanto, valorizam “Bohemian Rhapsody” e “Green Book – O Guia” – este último, ainda com a cartada da crítica à segregação racial na manga.

Estratégias
A premiação do Globo de Ouro é determinada a partir de votação feita por um júri composto pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (HFPA). Esse júri é formado por jornalistas e fotógrafos de 55 países. Já no Oscar, a escolha é feita a partir do voto de milhares de profissionais da própria indústria cinematográfica mundial. Assim, os critérios de indicação e de premiação de ambos os festivais não são os mesmos, mas frequentemente coincidem.

A diferença mais relevante é que no Globo de Ouro, os próprios responsáveis pelo filme podem inscrevê-lo em categorias específicas – escolha essa que, geralmente, é respeitada pela organização do evento. O filme concorrente pode, portanto, verificar se vai para a categoria drama, ou comédia/musical, conforme suas características e, não raro, sua conveniência. Essa liberdade foi diminuída parcialmente em 2015 quando, por pura conveniência, o filme “Perdido em Marte”, de Ridley Scott, foi inscrito no festival como “comédia”, em que pese o flagrante tom dramático da produção. A partir desse flagrante fiasco, o comitê responsável decidiu peneirar um pouco mais as escolhas, buscando-se maior atenção ao gênero predominante.

Fato é que, para esse ano, os filmes que destacamos optaram por estratégias bem peculiares para aumentar as chances de prêmio. “Bohemian Rhapsody” e “Nasce uma estrela”, por exemplo, preferiram se inscrever na categoria de filme de drama, apesar do tom musical das obras; já “Green Book – O guia” optou por ficar na categoria de filme de comédia ou musical, ainda que o tom dramático esteja bem mais presente. “Roma” foi para a categoria de filmes em língua estrangeira, mas poderia ter optado por concorrer na categoria dramática se quisesse. Exceto pelo filme de Bradley Cooper, a estratégia parece ter dado certo. Rami Malek, por exemplo, talvez tenha escapado de uma derrota se estivesse concorrendo na mesma categoria de Christian Bale.

No Oscar, entretanto, o panorama muda sensivelmente. Os filmes concorrentes até podem sinalizar a categoria em que pretendem concorrer, mas a Academia é quem dá a palavra final – que geralmente é rígida. O número de votantes do juri também é expressivamente maior (a título de comparação, no Globo de Ouro apenas duas jornalistas brasileiras votam. No Oscar, dentre os mais de 8,5 mil votantes, foram 25 os brasileiros incluídos só nos últimos três anos). As categorias também não são tão ramificadas, de modo que veremos embates importantes. As obras que destacamos muito provavelmente se enfrentarão na categoria principal, e as atuações também sofrerão comparações diretas.

Daqui até o dia 24 de fevereiro, muita água ainda vai rolar, com prêmios e votações. A certeza só virá quando abrirem o papelzinho. Principalmente se deixarem Warren Beatty e Faye Dunaway fora dessa! (vide Oscar 2017).

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João Paulo Lopes Tito é advogado, cinéfilo e comentarista de cinema da Rádio Sagres 730.

 

 

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