Os diálogos com a Ibéria hebraica na poesia de Moacir Amâncio

Com trajetória singular na Literatura Brasileira, o autor paulista já publicou de obra romanesca de raízes populares à de refinada poesia, levando sempre o leitor a uma viagem através da língua

Paulista de Espírito Santo do Pinhal, Amâncio estreou na literatura com a novela “O saco plástico” (1974) e só se rendeu à poesia em 1992, quando lançou “Do objeto útil” | Foto: Reprodução

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos, Moacir Amâncio (1949) passa a ocupar o vazio deixado por Lêdo Ivo (1924-2012) e Ferreira Gullar (1930-2016), de geração anterior, que foram para o andar de cima sem o reconhecimento do Prêmio Nobel de Literatura, que seria o segundo da Língua Portuguesa, depois do atribuído a José Saramago (1922-2010), em 1998 — e pensar que, quando se trata da literatura de países do Hemisfério Norte, até compositor de música popular merece ganhar o tal prêmio.

De fato, depois de um jejum de nove anos, Amâncio cumpre, ao publicar o seu sétimo livro de poesia, o intitulado “Matula” (Annablume Literária, 2016), uma trajetória singular dentro da Literatura Brasileira, que vai de uma obra romanesca de raízes populares até uma poesia refinada, que repetindo, de certa forma, uma “deglutição antropofágica” à maneira de Oswald de Andrade (1890-1954), absorve a herança cultural judaica, especialmente dos cristãos-novos, e a tradição da cabala para devolver experiências poéticas que levam o leitor a uma viagem através da língua, na busca de um diálogo com a Ibéria hebraica de Sevilha e Córdoba. Essa herança fica explícita com a inclusão no livro de um poema do filósofo hebreu Ibn Gabirol (1201-1055), traduzido por Amâncio:

O inverno escreveu com tinta de chuva
E a pena de raios nas mãos das nuvens
A carta no jardim de azul e púrpura.
Jamais dessa maneira o poeta escreve.
Nesse tempo do zelo a terra ao céu
Qual estrelas bordou canteiros breves.

O livro é também resultado de um longo diálogo com o poeta português E. M. de Melo e Castro (1932), iniciado em Lisboa e continuado em São Paulo, mas ainda em progresso. Como se sabe, Melo e Castro é um dos pioneiros da poesia concreta visual em Portugal; autor de “Ideogramas” (1962), marco fundador da poesia experimental em terras lusas, que se radicalizou com o tempo, passando a utilizar o vídeo e o computador na produção literária, a chamada videopoesia. É o que se percebe nestes versos:

se o poeta ernesto melo e castro encomenda a
a quem visita a terra traga-lhe uma lembrança dos
seiscentos anos atrás pelo menos aonde nunca foi
sabedor não indiferente
no que converge
aquele montanhês entre o país das gerais e o país
de são paulo aprende da vizinha: nunca entra na
igreja mas se entrares dize tudo que vejo é pau e
pedra
do mundo: amanhã será dia bom
respeita todo aquele que tiver a barba crescida pois
está de luto (…)

Como observa o editor José Roberto Barreto Lins no texto de “orelha” do livro, é a partir deste caldo de cultura que Amâncio “monta uma espécie de constelação de textos que permitem uma simbiose entre passado e presente, como se o tempo fosse um conjunto aos olhos do poeta que expõe tal panorama caleidoscópico ao leitor, para que este de sua parte detecte os pontos que lhe permitam montar a sua própria rede de significados”.

Já o filósofo Rodrigo Petronio, no prefácio “Moacir Amâncio: poesia e paralaxe”, procura desvendar as influências que marcam a atual fase do autor, notadamente embalada por suas leituras de obras da literatura hebraica, até porque o poeta tem doutorado em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas pela Universidade de São Paulo (USP) e, atualmente, é professor doutor adjunto na mesma, com experiência na área de Literatura e Cultura Judaica e Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: poesia, poemas, cinema, judaísmo, literatura e artes plásticas.

Diante disso, não surpreende que, em seus versos, retome a arte e o pensamento do século 16, como observou Petronio, com perspicácia, ao desvendar também nos versos abaixo a influência da tradição neoplatônica e cabalista do filósofo, poeta, místico e teólogo Ra­món Llull (c.1232-c.1315), ou Raimundo Lulio em castelhano, nascido em Mal­lor­ca, e de Abraham Abu­lá­fia (1240-1291), talvez o mais re­volu­cio­nário mestre da ca­ba­la, nas­cido em Zaragoza:

prefiguração do sempre
num círculo
que abulafiano
que llulliano
rompe o círculo
se faz letra

Em outros versos, percebe-se a influência da circunvolução do mundo, a saga dos navegantes que, de ouvidos moucos para o que (pre)dizia o velho do Restelo, atiravam-se ao destino incerto para descobrir os confins não só nos mares como nas terras da América, África e de outros continentes. O texto abaixo, por exemplo, parece aludir à Inquisição, mas ao mesmo tempo tem a ver com a expansão colonial e qualquer processo totalitário. É o que se depreende destes versos:

a grande ratazana imaginou
a máquina do mundo um vasto cérebro
pronto a ser roído até o vazio oco
onde ela se alojasse em próprias fezes
e o mundo se fizesse por inteiro
à sua semelhança e justa imagem

Amâncio ocupa agora o vazio deixado por Lêdo Ivo (1924-2012) e Ferreira Gullar (1930-2016), que foram para o andar de cima sem o reconhecimento do Nobel | Fotos: Reprodução

Obras

Nascido na cidade de Espírito Santo do Pinhal, na região Sudeste do Estado de São Paulo, na divisa com Minas Gerais, mas estabelecido na cidade de São Paulo desde jovem, Amâncio estreou na literatura com a novela “O saco plástico” (Editora do Escritor, 1974), e, depois, surpreendeu a crítica com a prosa fragmentária e experimental de “Estação dos confundidos” (Símbolo, 1977), romance que trata da vida de Joaquim Chapeta Arruda, um deserdado perdido na desumana e impessoal “terra da garoa”.

Redator de texto conciso e preciso, Amâncio, que passou a maior parte de sua vida profissional nas redações dos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, publicou ainda o livro de contos “O riso do dragão” (Ática, 1981), em que parecia já disposto a extravasar as fronteiras do gênero, deixando de lado certo convencionalismo dos primeiros livros, embora o fragmentarismo e as quebras de frase já indicassem o caminho futuro.

Esse procedimento se acentuou em “Súcia de mafagafos” (TA Queiroz Editor, 1982), que reúne duas histórias bastante fragmentadas e com a linguagem da prosa já se misturando com a poesia, num tom meio juvenil. O autor não renega sua obra anterior, mas, aparentemente, prefere deixá-la esquecida, pois não consta dos dados bibliográficos que aparecem em seus livros mais recentes.

O que se conhece é que se rendeu à poesia a partir de 1992, quando lançou “Do objeto útil” (Iluminuras), disposto a oferecer uma nova proposta ao gênero, como se tivesse por meta escapar de certa linguagem exaurida pelo uso ao longo de todo um século de experimentação, repetição e diluições, para se assumir aqui o que o romancista Eustáquio Gomes (1952-2014) escreveu na apresentação de “Contar a romã” (Record, 2001).

Como numa constelação entre passado e presente, poeta apresenta um panorama caleidoscópico ao leitor | Foto: Divulgação

Em “Figuras na sala” (Iluminuras, 1996) faz uma homenagem à melhor tradição modernista brasileira, assumindo-se como herdeiro do impulso poético de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e João Cabral de Melo Neto (1920-1999), mas também paga um tributo ao poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898), que se valia de símbolos para expressar seus sentimentos através da sugestão, mais que da narração.

Em 1997, publica um livro de reportagens e artigos, “Os bons samaritanos e outros filhos de Israel” (Editora Musa), interrompendo a sequência de obras dedicadas à poesia. Mas logo volta com “O olho do canário” (Musa Editora, 1998), que, aliás, diferencia-se de seus livros anteriores de poesia na alternância e variedade dos ritmos, como observou Carlos Vogt na apresentação, e na linguagem elíptica que emprega.

Como gosta de jogar com a ideia de que as línguas latinas são, na verdade, um só idioma, defendendo o argumento de que determinadas emoções e ideias só caberiam adequadamente em italiano, outras em francês, em português, romeno, catalão ou espanhol, Amâncio publica “Colores siguientes” (Musa Editora, 1999) em que reuniu poemas escritos em castelhano. É o livro que marca o início de uma série de peregrinações poliglotas, que vão atingir o seu auge com “Abrolhos”, em que várias composições estão escritas em hebraico. Esses poemas em hebraico formam um conjunto, na verdade, um livro, que foi inteiramente publicado pela revista Etc., de Curitiba.

Antes, o poeta já havia experimentado no então parcialmente inédito “At” a construção em inglês de um universo paralelo ao português. Já em “Contar a romã”, presta homenagem ao idioma de Góngora (1561-1627), Quevedo (1580-1645) e Cervantes (1547-1616), especialmente em “Duelo de la nariz y la cara”, em que transita do espanhol para o português e igualmente da poesia para a prosa poética (e vice-versa) sem perder o sentido.

Trajetória

Em 2001, Amâncio doutorou-se em Língua Hebraica, Literatura e Cultura Judaicas pela USP com a tese “Dois palhaços e uma alcachofra: uma leitura do romance ‘A Ressurreição de Adam Stein’, de Yoram Kaniuk” (Editora Nankin, 2001), em que discute as diferentes formas de se ver o Holocausto em estudo sobre a expressão judaica contemporânea centrada no escritor israelense Yoram Kaniuk (1930-2013) e seu romance “Adam filho de cão” (Editora Globo, 2003, com tradução de Nancy Rozenchan).

Em “Ata” (Record, 2007), reuniu seis livros de poemas publicados até então e outros inéditos, além de ensaios como “Dois palhaços e uma alcachofra e Yona e o Andrógino — notas sobre poesia e cabala” (Nankin/Edusp, 2010) mais a antologia por ele organizada e traduzida de poemas do israelense Ronny Someck (1951) sob o título “Carta a Fernando Pessoa” (Annablume, 2015). Também traduziu “Badenheim 1939” (Amarilys, 2012), livro de Aharon Appelfeld (1932) e participou da tradução dos poemas da poeta israelense Tal Nitzán (1960) incluídos no livro “O Ponto da Ternura” (Lumme, 2013).

É autor ainda de “O Talmud”, tradução de trechos e estudos (Iluminuras, (1995), “Ato de presença: Hineni” (Associação Humanitas, 2005), organizador, coletânea de ensaios em homenagem à professora Rifka Berezin, “Kelipat Batsal” (Book Link, 2005), conjunto de poemas hebraicos que foi publicado também em “Ata”, e “Óbvio”, poemas (Tra­vessa dos Editores, 2004).

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela USP e autor de “Os vira-latas da madrugada”, dentre outras obras.

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