Os cem anos de “Tropas e Boiadas” e o banquete de palavras em sua homenagem

Série de conferências aprecia o único livro de Hugo de Carvalho Ramos publicado em vida, em 1917, com o objetivo de mostrar a importância atual do escritor goiano, morto em 1921, aos 26 anos

Livro que traz uma espécie de alma do sertão, um cerne perene, luminoso, premente no imaginário do povo goiano, ganha edição especial, publicado pela Editora UFG, em comemoração aos cem anos de sua primeira edição

No ano do centenário da primeira publicação de “Tropas e Boiadas”, Hugo de Carvalho Ra­mos ganhou um banquete de palavras oferecido pela Universidade Federal de Goiás.

O evento foi realizado pela Faculdade de Letras da instituição nos dias 4 e 5 de dezembro, com a participação de professores locais e convidados de fora como Luiz Dagobert de Aguirra Ron­cari, da Universidade de São Paulo (USP), Albertina Vicentini, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), e Luís Bueno, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Em dois dias intensos de conferências e debates, a obra de Hugo foi apreciada de vários ângulos. O objetivo era mostrar a importância atual do escritor goiano. Hugo morreu jovem, em 1921, aos 26 anos. Ele se suicidou. Em 1917, havia publicado seu primeiro e único livro em vida, “Tropas e Boiadas”, com nove contos, pela Revista dos Tribunais, no Rio de Janeiro.

Depois, seu irmão Victor de Carvalho Ramos publicaria um livro póstumo intitulado “Plangências”, com o arrazoado de coisas escritas pelo jovem escritor, incluindo cartas, ensaios, artigos e apontamentos para publicações futuras. Além disso, à segunda edição de “Tropas”, publicada por Monteiro Lobato, em São Paulo, em 1922, um ano após a morte de Hugo, foram acrescentados três novos contos.

“Tropas e Boiadas” sobreviveu à passagem do tempo pela sua qualidade estética. Foi escrito numa linguagem que permeia os ditos do sertão goiano e a erudição de um escritor-leitor consciente. Permanece vivo também pela capacidade de mostrar uma dada realidade cujas impressões podem ser vistas ainda hoje nas práticas políticas e sociais, com mudanças apenas de plataforma, mas pouco câmbio de conteúdo.

Livros se iluminam

Luiz Dagobert de Aguirra Roncari, da Universidade de São Paulo, com a mediadora Renata Rocha Ribeiro, em conferência sobre “Tropas e Boiadas”, evento realizado pela Faculdade de Letras da UFG

Em sua conferência, Roncari fez uma leitura comparada de “Tropas” com o livro “Minha Vida de Me­ni­na”, de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant (1880-1970), diário escrito pela autora ainda na adolescência, entre 1893 e 1895, no interior de Minas Gerais. Foi publicado pela primeira vez em 1942, sendo republicado constantemente, e adaptado para o cinema pela cineasta Helena Solberg, em 2003.

Segundo Roncari, um livro é antípoda do outro. É possível entender a obra de Hugo de Carvalho Ramos pelo reverso do conteúdo do livro de Helena. “É como um jogo de xadrez, preto e branco, um negando o outro, ao mesmo tempo que se iluminam”, diz o professor.

Ambos os livros são ambientados no mesmo período histórico da República Velha, mas se opondo pelos espaços. “Minha Vida de Menina” é uma “semente da cidade”, configurando o ambiente urbano de Diamantina. “Tropas e Boiadas” cria um quadro marcado pelo autoritarismo e pela violência do campo, nos arredores da cidade de Goiás, onde o autor nasceu.

O livro de Helena é sobre o mundo da cidadezinha do interior, “o mundo semirroceiro de Diamantina”, como diz Roncari, visto pelos olhos da inocência de uma adolescente, mas de uma visão sincera, mostrando uma sociedade que imprime uma intenção de ser civilizada.

O livro de Hugo traz um pano de fundo temático violento, em que o poder se instala na brutalidade e na negação da mobilidade social, em que a mulher é vista apenas por dois vieses: “ou é puta, ou é santa”, diz Roncari, sem a autonomia das mulheres revelada no livro de Helena. Sugere ainda a ausência do Estado e joga luz na violência do poder privado.

Atravessado todo o século 20, à luz do século 21, a comparação dos dois livros mostra o triunfo absoluto da violência no Brasil inteiro. A promessa de uma vida civilizada em Diamantina definhou pelo caminho. “O que sobreviveu mesmo foram a violência e o autoritarismo mostrado por Hugo de Carvalho Ramos. O lado que venceu se impôs sobre a sociedade, sendo assim até hoje”, comenta Roncari.

Hugo em Rosa

O professor também traça um paralelo entre “Tropas” e a obra de Guimarães Rosa, observando que há elementos no romance e nos contos do escritor mineiro que são reverberações da leitura de Hugo de Carvalho Ramos. “Tropas e Boiadas” e “Grande Sertão: Veredas” se passam no mesmo tempo, início da República Velha, que contêm os desmandos, os excessos dos grandes proprietários rurais.”

Roncari ilumina o cenário comparativo para mostrar a importância dos dois autores, e ao mesmo tempo sugere a razão pela qual Rosa supera Hugo, embora ele não fale nesses termos, talvez porque nem seja necessário. “A obra de Rosa mostra a ausência do Estado capaz de conter o poder privado exacerbado dos grandes proprietários rurais, daí o desmando geral, a saga da jagunçagem.”

Segundo o professor, Rosa mostra em sua literatura que o moderno não são a cidade e a tecnologia, mas a capacidade de se fazer justiça. Ou seja, é preciso fazer justiça. Se o Estado não faz, alguém precisa fazer. E assim o vazio do poder público é preenchido com o senso de justiça mostrado na figura de Joca Ramiro, personagem fulcral em “Grande Sertão: Veredas”, o chefe dos jagunços que tentavam impor uma certa ordem na complexidade do sertão.

O que parece contraditório faz muito sentido na lógica perversa de nossa construção social. Jagunços exigindo a ordem? Sim. Se não há Estado, tudo é permitido, inclusive homens armados à revelia para combater o crime de outros homens armados à revelia, que fazem mais mal à sociedade do que os primeiros.

Com a fala de Roncari, com sua análise pertinente e esclarecedora, podemos inclusive traçar um paralelo entre a realidade fictícia na obra de Rosa do final do século 19 e a realidade factual de nosso tempo, em que a Justiça é instrumento de poder.

Ao vermos membros da Su­pre­ma Corte brasileira se digladiando em público, ou o confronto geral da classe política, usando as ferramentas da polícia e da Justiça para tomar o poder, para se firmarem no poder, entendemos melhor a leitura certeira do professor da USP. Ou seja, a Justiça deve deixar de ser instrumento de poder para se tornar um instrumento para parar, ou podar quando necessário, e sempre é, o poder.

Outra via

Tudo isso pode ser tirado da obra de Guimarães Rosa. E muita coisa disso pode ser vista na obra de Hugo, “pois Rosa lia tudo, sem dúvida, e é impossível não reconhecer um aproveitamento de Rosa dos contos de Hugo de Carvalho Ramos”, diz o professor.

Mas há uma diferença cabal entre um e outro. “É que quando fala da violência, da autoridade exacerbada do coronel, Hugo deixa passar, embora não queira, como algo que é normal, ao mesmo tempo que impressiona, incomoda.” Ou seja, não há no bojo das tramas dos contos uma sugestão de saída, de outra via, de como poderia ser, só há o que é, o que já é demais.

Ao fim de tudo isso, é importante lembrar que Guimarães Rosa terminou de escrever seu primeiro livro, “Sagarana”, em 1938, aos 30 anos de idade, publicando-o em 1946. Foi publicar Grande Sertão: Veredas” quando já tinha 48 anos, em 1956. Hugo de Carvalho Ramos publicou seu único livro aos 22 anos.

Se Hugo tivesse vivido mais, teria elevado sua obra a um patamar inimaginável, talvez impedindo Rosa de seguir seu projeto. O mais provável, no entanto, é que teria feito Rosa voar mais alto ainda, premindo um esforço ainda mais genial, e talvez teria produzido uma obra tão mais tão que ultrapassaria os limites oceânicos da nossa prosa. Mas este já é o terreno das probabilidades, da liquidez do se.

Se lêssemos

A conclusão de Roncari é reflexiva. “A violência é intrínseca à vida brasileira porque temos uma justiça falida.” É como se a literatura, naquele momento, saísse do auditório do Cine UFG, com tão pouco público, e ganhasse o ar das ruas. Sua conferência nos leva a crer que, se estudássemos mais, se lêssemos mais, se déssemos mais importância à literatura como veículo da experiência sensível, abridora de olhos para a experiência real, social, política, talvez saíssemos ganhando alguma coisa de positivo.

A professora Albertina Vicentini, da PUC-GO, também fez uma ótima apresentação. Segundo ela, a história do Estado de Goiás e a história do País estão dentro de “Tropas e Boiadas”. Ela apresenta Hugo como um intelectual que soube pensar sua época, e um artista brilhante cujos textos têm o teor da prosa poética, principalmente em “Plangências”, que merece ser estudado na universidade.

Cinema

A UFG realizou um evento competente e esclarecedor não só da obra de Hugo de Carvalho Ramos, e do contexto em que ela foi criada, mas também da atualidade resistente dessa obra, de como ainda merece e deve ser lida pelas novas gerações.

As conferências exploraram diversos pontos de vista de análise do trabalho do autor. Sua vida foi lembrada como elemento, como agente captador e transformador dos fatos do cotidiano para a estética, como é o papel dos estudos literários, sempre enfatizando a obra.
Em um momento específico do evento, Hugo surgiu com sua vida vivida, sua carne sofrendo as imposições do mundo, no cinema de Lázaro Ribeiro. O jovem cineasta goiano, mostrou dois curtas-metragens sobre Hugo, um documentário, “Reminis­cências”, e um drama em tom ficcional, “Hugo”, em que explora a trajetória do autor, que vive a infância na cidade de Goiás, terra natal, e a breve juventude no Rio de Janeiro.

“Reminiscências” tenta impor um contraste entre o discurso oficial sobre o escritor e as informações subjacentes relativas a seu suicídio. A mãe era uma presença forte, porque assumiu o papel de chefe quando o pai de Hugo perdeu o juízo e foi internado num sanatório no Rio de Janeiro.

Vale lembrar que o pai de Hugo foi Manuel Lopes de Carvalho Ramos, baiano que chegou à cidade de Goiás para exercer o ofício de magistrado, autor de “Goyania”, poema épico sobre os índios goyá, que deram nome ao Estado. O título do livro de Manuel Lopes, mais tarde, como se vê, viria a ser emprestado para o nome da nova capital de Goiás.

A tentativa de fazer emergir as camadas íntimas, ou intimistas, da vida individual e familiar de Hugo foi mais bem-sucedida no drama ficcional, em que Ribeiro explora a tensão existencial do rapaz, inclusive o caráter ambíguo em torno de sua sexualidade, e o embate com a mãe, que se casaria logo após a morte do pai e passaria a rejeitar o afeto dos filhos.

Alma do sertão …

Os conferencistas deixaram claro o que significa “Tropas e Boiadas”. Hugo de Carvalho Ramos traz na sua obra uma espécie de alma do sertão, um cerne perene, luminoso, premente no imaginário do povo goiano.

Em muitos rincões, essas características ainda persistem na vida cotidiana, no ir e ir, no movimento dos corpos, no fenômeno das falas, nas crenças, no modo de praticar a violência e exercer o poder. Elas existem inclusive no modo de se obedecer ao poder, de subjugar-se aos maiorais da administração pública.

Talvez mais do que isso. Neste caso, o sertão invade a cidade e faz-se presente na capital de ontem e de hoje, e está quase tão vivo como nos dias testemunhados pelo menino Hugo, xará enviesado daquele outro que olhou com atenção para os miseráveis de sua própria terra.

… e do mundo

Se Albertina Vicentini aproxima Hugo dos franceses – lembrando que ele lia com fluência em francês e inglês, absorvendo os frescos clássicos da literatura francesa como Victor Hugo, herança do gosto do pai ou da mãe, por vermos um duplo do velho poeta e romancista se abrindo na escolha dos nomes dos filhos de Vila Boa –, Luiz Gonzaga Marchezan, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara, coloca o escritor goiano também na rota dos americanos,b via Edgar Allan Poe.

“Poe distanciou o conto dos meios tradicionais, como o conto popular, as fábulas, os contos folclóricos, as novelas. Hugo aproxima-se de Poe, neste sentido, narrando uma história dentro de uma unidade de efeito, circunscrita no espaço, substituindo em algumas situações o maravilhoso pelo macabro. O conto regionalista de Hugo está no conteúdo dramático das suas falas, como nas cartas à irmã, em que dizia que buscava variantes mínimas”, diz Marchezan.

História e memória

Leila Borges Dias Santos, professora de Literatura da UFG: “Há uma contribuição memorialística em ‘Tropas e Boiadas’. A memória procura salvar o passado”

A professora de Literatura da UFG, Leila Borges Dias Santos, fez uma palestra concisa e exemplar sobre Hugo. Segundo ela, com um olhar erudito mirando o inculto, o autor criava traços fonéticos e semânticos esquisitos para colocar o sertão no contexto social do país. Além disso, diz ela, puxando para um debate sobre história e memória, há uma contribuição memorialística em “Tropas e Boiadas”. “A memória procura salvar o passado”, arremata.

Todos os conferencistas, os citados aqui e os demais, cada um a seu modo, enriqueceram a memória de Hugo. O autor de “A Tradição Literária Brasileira”, Luís Bueno, da UFPR, foi o último palestrante, oferecendo um modo diferente de ler o regionalismo, à luz do conceito de disjunção estética e social.

Para Bueno, o que outros críticos dizem ser defeito de saída na obra regionalista, é característica de linguagem e forma. “Não é defeito, é uma tentativa de incluir a disjunção, que é aquilo que está fora do modelo da visão urbana”, diz.
Quando o autor regionalista é importante no cenário do think tank nacional, os críticos arranjam uma maneira de incluí-lo com subterfúgio, como a ideia de “super-realismo” em que Antonio Candido havia colocado Guimarães Rosa. Bueno então contextualiza o regionalismo e inclui Rosa ao lado de Hugo de Carvalho Ramos. O conteúdo da fala de Bueno daria uma nova história, diferente desta, que acaba aqui.

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ADALBERTO+DE+QUEIROZ

Muito bom relato de um evento que ficaria (sem o Opção Cultural) restrito à Academia.