Onde Deus se assenta e se espalha, a poesia cria laços

Poemas de Angelus Silesius, traduzidos por Marco Lucchesi no livro “Moradas”, arriscam uma ponte entre o divino e o terreno, enaltecendo a mística cristã

“Não estamos diante de uma poesia fácil, mas de uma alta reflexão que margeia a ‘franja indizível do real’”, adverte na introdução o professor Faustino Teixeira

O livro “Moradas” (Mar­te­lo Casa Editorial, 2017, 88 páginas) é uma antologia de poemas do alemão Angelus Silesius (1624-1677) selecionados e traduzidos pelo escritor, poeta e pensador Marco Lucchesi. A publicação, que traz prefácio assinado pelo professor de Ciência da Religião Faustino Teixeira, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), tem o mérito de oferecer ao leitor uma gota da mística cristã.

“Não estamos diante de uma poesia fácil, mas de uma alta reflexão que margeia a ‘franja indizível do real’”, adverte Teixeira, em seu texto de introdução. De fato, trata-se de um livro fino, no sentido da espessura e do requinte, desses que o leitor leva alguns minutos para ler e muitos anos para compreender seu conteúdo, tamanhos são o grau de condensação de seus versos e a massa de cultura nas fendas de cada palavra.

Os poemas são composições de dois versos, ou dísticos, que buscam a integração do homem com Deus. O sujeito poético neste caso utiliza-se de vários artifícios para que o interlocutor, o leitor, compreenda aquilo que, no fundo, é inaudito, imaterial: a espiritualidade. O efêmero e a eternidade compõem os dois lados da amplidão, pulsando na expansão e na contração da busca pela inefabilidade de Deus.

“A rosa, cujo olhar terreno vislumbrou,/ Por toda a eternidade, em Deus, desabrochou.” Neste poema exemplar, a rosa, metáfora da alma, permanece sem avanço, talvez incrustada no chão, sem luz, prestes a fenecer como toda rosa fenece, mas eis que é plantada na fertilidade divina, e então floresce para sempre. O homem busca Deus, sempre, “o destino do homem é naufragar no Mar da Divindade”, diz Silesius, citado por Teixeira.

Os dísticos são todos assim, dicotômicos, o terreno buscando o espiritual, questionando, indagando, duvidando, mas vislumbrando a possiblidade do único encontro verdadeiro, a do homem com Deus.

Abrindo um mar

Alguns poemas jogam com a ironia e com o apego à materialidade da existência. “Tu te perguntas desde quando Deus existe./ Faz tanto tempo, nem ele sabe: desiste.” Ou então: “O mundo, o diabo e Deus querem meu coração,/ quanto deve ser nobre a sua condição!”
No primeiro caso, estabelece-se uma intimidade do sujeito poético com Deus que até parece vir de Moisés, o único que navegou pelas águas numa manjedoura e acabou criando um vínculo com o espírito de Deus a tal ponto que Moisés foi capaz de evocar Sua força para abrir um mar. No segundo caso, há uma sugestão de disputa, uma alma-noiva se sentindo especial, e talvez tendo de refletir sobre sua condição enquanto está na posição de escolher.

Em “Moradas”, título sugestivo de lugares almejados, o poeta explora algo para além do verbo, tendo de se expressar com o verbo, como se tivesse atravessado o véu espesso das palavras e atingido o lugar das coisas em si, o coração delas, que as palavras não alcançam, onde Deus paira, onde Deus se assenta e se espalha, as células inefáveis de Deus.

Essa impressão está na base da espiritualidade humana, seja cristã ou não. Está nos chineses, nos gregos e no cerne do pensamento hebraico, nas escrituras do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. É fácil discernir o lado de fora desse círculo, cercado de palavras. Difícil é estar lá dentro, privilégio de poucos.

Reino da poesia

Esse tecido feito de material diáfano, onde se encerra a divindade das coisas – o espaço da espiritualidade –, é o lugar do divino, mas é o reino da poesia também, o universo grandioso a partir do qual os poetas se exprimem, independentemente de serem místicos ou semeadores da estesia humanamente chã, e vã, da vida, a vida do homem na vertiginosa queda, a vida do homem no abismo, o homem que não soube ou não pôde – embora vasto e devastado pelo capacidade de sentir o mundo – entrar nessa morada para além das palavras, a morada de Deus, o plural dos mundos. “Pensas que um sol apenas há no firmamento;/ Eu digo haver milhares, sem comedimento.” E é também o reino da música.

É aí onde as coisas se entrelaçam, poesia e misticismo. Mas é aí também onde há a possibilidade do diálogo, a comunicação inter-religiosa, da qual fala Lucchesi, porque a experiência mística percorre o corpo social da humanidade, independentemente da fé, da confissão. Talvez por isso, haja no final um dístico dedicado aos ateus, os únicos alijados dessa história toda, segundo o poeta: “Ovelha sem pastor, um corpo que morreu,/ Uma fonte sem água: é a alma sem Deus.”

É claro que um ateu que aceita a provocação talvez se sinta ofendido pela metáfora do “corpo morto” e da “fonte sem água”. Mas outros apenas dirão que Silesius, nesse momento, teve as velas da compreensão sopradas, trêmulas ao vento da noite. Silesius era um homem pré-iluminista, viveu numa época em que acreditar em Deus era o único caminho possível para a vida. Era contemporâneo da mexicana Juana Inés de la Cruz, autora da poesia mística cristã mais conhecida no Brasil, certamente.

Neste sentido, ele jamais aceitaria dizer que há uma luz, imensa, que atravessa todas as almas, capaz de iluminar toda a existência, nascida no esquecimento, que mostra água mesmo nas fontes mais aparentemente secas, luz que atravessa o véu das palavras, que é a própria a linguagem (“o sol que revela o mundo”), e que não é privilégio das ovelhas com pastor, é prerrogativa do universo humano. Por outro lado, há certas almas, que mesmo acreditando estar sob a proteção divina, só sabe perseguir o outro.

No rumo do outro

Logo, o que vale é iluminar a convivência. Lucchesi, que, além de traduzir, também selecionou os poemas, sabe disso, tanto quanto sabe qual é a razão de ter escolhido para fechar o livro os versos que falam da alma sem Deus.

Polaridades à parte, o bom dos poemas de Silesius é entender que pela poesia mística, o eu vai no rumo do outro, mesmo ambos vivendo sob égides distintas da vida. Neste caso, a poesia é um ponto de encontro, uma guarita com portas abertas instalada na tangência desses caminhos.

Como o próprio Lucchesi disse, em visita a Goiânia para lançar o livro, “Silesius talvez se enquadre hoje numa perspectiva – que é a poesia mística – da literatura comparada, do diálogo inter-religioso, mas sobretudo na perspectiva do diálogo inter, qualquer que seja inter, o diálogo de alteridade.”

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ADALBERTO+DE+QUEIROZ

Bravo! à Gilberto. Bravíssimo a Marco Lucchesi pela bela tradução.
Para mim, este pequenino livro é o melhor lançamento de 2017 em Goiânia, quiçá, no Brasil!