Obra de escritora goiana dá voz as mulheres silenciadas pelo patriarcado

Aos 85 anos, escritora e mestre em Teoria Literária Darcy França Denófrio reúne em lançamento mais de quatro décadas de poesias sobre a figura feminina-feminista ao logo do tempo

Por Larissa Lourenço, especial para o Jornal Opção

Mestre em Teoria Literária, poetisa, crítica, escritora acadêmica e apaixonada pelas palavras desde 1948, quando tinha apenas 12 anos: essa é Darcy França Denófrio. Após quatro décadas da criação dos poemas, a autora traz para as páginas do livro À sombra de Eva a vivência em uma sociedade patriarcal que, constantemente, impossibilita a voz e plena autonomia das mulheres.

Registro das memórias da autora, que ultrapassa o nível meramente individual, a antologia coloca as mulheres no centro do discurso poético. Desde a extrema repressão vivenciada no internato de freiras espanholas, quando pequena, até a cultura extremamente machista do interior do Brasil, onde vive até hoje.

À sombra de Eva é uma síntese do estado feminino: amoroso, erótico, social, intelectual. A cada verso da obra, a mulher se apresenta totalmente integrada ao meio cósmico que preconiza e experiência a unidade com o homem, com a terra e com o céu.

A poetisa, autora de mais de 20 livros publicados, compartilha reflexões sobre a figura feminina no presente e também acerca da reparação de seu passado. Mais que relatar o feminino-feminista, a antologia encaminha os leitores ao arquétipo da própria vida, numa espécie de paraíso redimido.

Eu sou
o que não sou:
peias e amarras
da civilização. 

Eu sou
‘eu’ censurado,
amordaçado,
por milhões de mãos […]”
(À sombra de Eva, p. 91)

Os versos desta antologia, desenvolvidos ao longo de quatro décadas por uma das mais importantes poetisas brasileiras contemporâneas, trazem uma figura feminina superior, totalmente integrada ao meio cósmico, uma sacerdotisa-feiticeira, como Morgana, que preconiza e vivencia a unidade com o homem, com a terra e com o céu. Mais que ao feminino, essa antologia nos encaminha ao arquétipo da própria vida, numa espécie de paraíso redimido.  Enquanto muito se explora da polarização de gêneros, a poetisa elege o caminho da comunhão entre masculino e feminino. Os poemas flagram a mulher obscurecida pela sombra de Eva e restitui-lhe o canto, o da palavra falada e o da palavra escrita, em um testemunho denso, envolvente, de uma difícil simplicidade. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.