“O objetivo de um espetáculo é tocar o público”

De Madri, diretor da Cía Daniel Abreu conversou com o Opção Cultural  sobre as apresentações que fará nos palcos goianos

Daniel Abreu e companhia apresentam os espetáculos “Cabeza” e “Animal” (foto) pela mostra Manga de Vento, na capital goiana e em Pirenópolis | Foto: Yassiek Abreu

Daniel Abreu e companhia apresentam os espetáculos “Cabeza” e “Animal” (foto) pela mostra Manga de Vento, na capital goiana| Foto: Yassiek Abreu

“Para el pensamiento animal, la naturaleza no existe, no es un refugio, no es un lugar. Por lo que no puede tener un nombre aquello que uno no reconoce como ajeno, que forma parte de lo que uno es”
— Daniel Abreu

Yago Rodrigues Alvim

As birutas da mostra Manga de Vento têm indicado diversas di­reções, pois são diversas as novas formas de se fazer e viver arte; dança. Já conhecida, a vontade do professor Kleber Damaso — que idealizou há mais de cinco anos o que seria uma programação estendida de obras que refletem a vida nos palcos — tem se espalhado feito bocejo: cada vez mais as cadeiras dos teatros são poucas para quem quer ver coisa com gosto de Manga.

Na edição de 2016, muitos por aqui já se apresentaram. Veio Marcos Moraes e sua “Anatomia do Ca­valo”; o “Desmonte” de Juliana Moraes; o “Ouriço” de Leo França; e o “Corpo Sobre Tela” de Marco Abranches. E mais há de vir até novembro.

Natural de Santa Cruz de Tenerife, nas Ilhas Canárias, Espanha, o bailarino e coreógrafo Daniel Abreu já deu vida a diversas obras. Com sua própria companhia, a madrilena que leva seu nome, “Cía Daniel Abreu”, ele tem apresentado trabalhos como se fossem retratos, imagens em ação, que estão entre a dança e o movimento. Vencedor da categoria de criação do Prêmio Nacional de Dança da Espanha de 2014 e muitos outros prêmios, Daniel tem um vasto repertório com apresentações por países da Europa, Ásia, américas Central e do Sul.

De volta a Goiânia pela Manga de Vento, onde apresenta os espetáculos “Ca­beza” (2012) e “Animal” (2011) e ministra o workshop “En el Aire”, Daniel concedeu ao Opção Cultural a entrevista que você, caro leitor, confere a seguir. Ele conta da companhia, dos espetáculos que ganham os palcos do Sesc Centro, nesta semana, e da expectativa de dançar na cidade. Vale lembrar que a entrevista foi realizada em espanhol e traduzida livremente para o português. Ei-la:

"Animal" | Foto: Divulgação

“Animal” | Foto: Divulgação

Quando teve início a Cía Daniel Abreu e com qual proposta?
Em 2003, deixei de trabalhar para outras companhias, como a Provisional Danza — um dos grupos que também integram a programação da mostra Manga de Vento em Goiânia. Havia feito alguns trabalhos solos e, pouco a pouco, fui criando novas obras que constituíram um pequeno repertório. Sem me dar conta, e sem ajudas institucionais, já tinha feito alguns espetáculos solo e com amigos. Tudo isso começou pela necessidade de continuar dançando.Assim, 2004 pareceu ser o ano de começar esta companhia, que fechou mais de 50 espetáculos, sendo alguns deles encomendas de outras companhias espanholas e de outros países europeus. Sempre trabalho a partir da honestidade do que se conta e faz e, curiosamente, gosto do que está envolto em um mundo onírico, que pretende mais sugerir que narrar histórias concretas.

Do que se trata o espetáculo “Cabeza”? E como foi o seu processo criativo?
“Cabeza” é um trabalho que surgiu depois de um processo pessoal muito difícil. Não pretendia narrar nada da minha vida, mas cada vez que ia ao estúdio ensaiá-lo surgia algo dali. Assim, o trabalho fala do caminho que uma pessoa faz quando recebe uma notícia nada agradável, que a impacta até que, de alguma forma, a molda. É como ver uma fresta que se abre na cabeça, e como vai se fechando pouco a pouco. E isso é contado de uma forma muito abstrata e onírica, indo desde o golpe mortal ao paraíso, passando por todas aquelas ações que nos ensinam algo. Para mim, como intérprete, é muito difícil, pois exige uma preparação física muito alta, sobretudo pela resistência e concentração. Dançá-lo é um prazer, mas quando termina não tenho vontade nem de falar. Entre os prazeres que o espetáculo tem me dado está a oportunidade que tive de dançar no “Théâtre de la Ville de Paris” (Teatro de Pa­ris), um dos mais importantes teatros de dança da Europa.

E “Animal”, do que fala o espetáculo? E como foi o processo criativo?
“Animal” é um trabalho com coprodução do “Mercat de les Flors” e do “Auditorio de Tenerife” [localizado em Barcelona, “Mercado das Flores” é um teatro municipal; e “Auditorio de Tenerife” fica em Tenerife], dentro do programa europeu Modul Dance [que dá suporte a artistas durante seu processo de criação]. Ele fala do instinto de sobrevivência de cada um diante às situações da vida. Não explicitamente, ele tem o objetivo de narrar as ideias de sobrevivência mais básicas, as mais humanas, como o amor romântico. A obra foi criada praticamente em dois processos: a primeira parte estreou na Holanda e, em seguida, após alguns meses, nos fechamos em um estúdio para dar forma a uma grande parte da obra que, para mim, estava inconclusa. É um trabalho muito sensível e, ao mesmo tempo, muito for­te. Suas imagens são muito diretas e nossa forma de dançá-lo envolve todo o corpo.

Qual a expectativa de se apresentarem em Goiânia?
Tivemos sorte de termos nos apresentado em vários países, que são diferentes, mas que nos deram uma preciosa recepção. Há dois anos, estivemos em Brasília com esses dois trabalhos e a resposta foi muito positiva. Para mim, é importante que algo das obras toque alguém do público — esse é o objetivo. De­pois de anos nos palcos, não posso esperar muito mais. (risos)

"Cabeza" | Foto: Divulgação

“Cabeza” | Foto: Divulgação

Serviço
“Cabeza” da Cía Daniel Abreu
Data: quinta-feira, 21 de julho
Horário: 20h
Local: Sesc Centro (Goiânia)

“Animal” da Cía Daniel Abreu
Data: sexta-feira, 22 de julho
Horário: 20h
Local: Teatro Sesi (Goiânia)

“En el Aire” com a Daniel Abreu
Data: sábado, 23 de julho
Horário: das 15h às 18h
Local: Centro Cultural UFG
Investimento: R$ 50
Incrições: [email protected]

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