O verbo altissonante de Valdivino Braz

Pervertendo a palavra para reinventá-la, o escritor cria quase que um anti-romance, burlando as regras do fio artesanal das narrativas. Seu poder de recriar termos e revirá-los do avesso, dá-lhe dimensões de Guimarães Rosa

Valdivino Braz, um dos escritores goianos de maior destaque das últimas décadas

Sônia Elizabeth
Especial para o Jornal Opção

Mais uma vez, nesta minha missão de es­crever literatura e fa­lar sobre literatura (ain­da que de forma teimosa e atrevida), trago para os leitores algumas palavras, sem pretensões ensaísticas ou de cunho crítico, sobre o romance “O Gado de Deus”, de Valdivino Braz. Um livro que li perplexa, não aliciada pela perplexidade do absurdo, do arrepio, mas tocada pela ansiedade e o “despudor” de cada capítulo, pela rapidez de raciocínio e, principalmente, por perceber o hábil descompromisso do autor com a linearidade do processo estilístico, escrevendo boa literatura como se conversasse naturalmente, numa espontaneidade espantosa.

Valdivino, na introdução “Escla­recimento e advertência”, já nos diz: “Esta obra é um tratamento de choque, de arrepiar os cabelos e deixar os incautos com cara de ouriço. Exala enxofre, fumega chifre queimado. O riso se transforma em choro e ranger de dentes. Não há, em todo o mundo, um livro como este.” Então, que ninguém se surpreenda porque meiguice e alienação passam ao largo da temática.

Revelando-se em “seus vagalumes grafados sem hífen (Ainda o sertão)”, oferece uma retórica cômica e mordaz, propositalmente ferina mesmo, mas com um verbo enriquecido de imagens, o que faz o enredo tocante e vibrátil, buscando sempre o menino eu entranhado e perdido no passado, quando então as lembranças doem, perfuram e dilatam o interior de si. É sempre a miséria humana que urge, esbofeteia, desequilibra os passos do rebanho, e o autor, ciente disso, profere sua crítica aos sazonais gozos da vida e suas precariedades. Braz caminha no romance e narra o que vê, escuta, vivencia. O social irrompendo a cada momento, senão vejamos esse trecho do capítulo Trilha de ruminantes: “…já no fedor do chiqueiro os porcos se banqueteando com a lavagem de tudo que se lhes dava; e porco havia que, focinhando a lama, triturava até caco de vidro que encontrasse, por uma razão lá com os dentes dele…”.

Pervertendo a palavra para reinventá-la, cria quase que um anti-romance (considero isso obra de gênio), burlando regras do fio artesanal das narrativas. Seu poder de recriar termos e revirá-los do avesso, dá-lhe dimensões de Guimarães Rosa. Sem rodeios, lasca, lanha, morde… no escabroso céu que nos condena.

Conforme já salientei (e isso foi objeto de minha compreensão), Valdivino escreve como quem lança palavras sem compromisso com estilos ou resultados, querendo apenas explanar sua perplexidade e indignação diante do caos do mundo Pátria, conseguindo, com isso, fazer literatura genuína e do melhor quilate. Até a natureza, que conhece bem em cada detalhe, indigna-o e se torna sarcasmo e assombrosa percepção para ele, homogênea e inserida no todo. Vejamos a constatação que nos traz: “O mundo é dos espertos e dos poderosos, e nas mãos absconsas de Deus depõem-se as almas dos crédulos, o cego rebanho de tolos, tangido com a inadimplência das promessas provindas de bocas imundas, com o bafo do esôfago, e não com o hálito da pureza, nem com o sopro divino que anima o mísero barro……” (As boas-vindas da casa).

Braz não mede palavras, ridiculariza e mostra seu desânimo e falta de fé com as instituições e quejandos de Pátria (a dilacerada das gentes genuínas). Sua linguagem, a par disso tudo, revela eruditismo clássico e matuto, numa perfeita simbiose.

De Raul Seixas, Vandré e Walt Whitman, tudo serve ao pronunciado ser adverso que Valdivino constrói em cada texto, arrítmico, profundamente irmanado no humano, profanando o que é santo e decapitando a hipocrisia, pondo a nu podres sentimentos. Valdivino arranca máscaras. E mais não direi porque já disse muito e bem aquém do que deveria, talvez precária que sou para falar de uma obra de tão rica postura. Na capa, contracapa e orelha, aquarela de São Francisco de Assis, de Amau­ry Menezes, nosso grandioso pintor e mestre. Selo da Kelps e lembrando que a presente obra, sob o título de “As dores da terra antiga”, foi Menção Honrosa no Concurso Nacional de Romance do Paraná – 1993. Valdivino Braz é premiadíssimo em Goiás e a nível nacional. Loas, pois.

Sônia Elizabeth é poeta e vive em Goiânia

2 respostas para “O verbo altissonante de Valdivino Braz”

  1. Avatar José Donizete Fraga disse:

    Sem nenhum favor, Braz é o herdeiro de Gil Vicente nesta Terragoyá!

  2. Avatar Valdivino Braz disse:

    Ainda que tarde (em órbita com alguns contratempos), sou grato a todos: poeta Sônia Elizabeth, Jornal Opção e escritor José Fraga.
    A todos o meu fraterno abraço.

    Valdivino Braz

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