Edmar Monteiro Filho

O belo filme “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho, apresenta um retrato nostálgico da cidade de Recife, mostrando as mudanças ocorridas no espaço de sua casa, palco de suas primeiras realizações cinematográficas, bem como a deterioração da área central da cidade nas últimas décadas. Nesse sentido, o foco do filme se dirige ao desaparecimento das salas de cinema de rua, com registros da memória do cineasta e imagens de arquivo mostrando o auge desses espaços e sua posterior ruína.

Penso em Amparo, nas mudanças do traçado urbano e da ideia de diversão pública. Amparo resiste com as salas do Cine Estação, mas a migração dos cinemas para os shopping centers parece estratégia irreversível, pois a associação entre o lazer e o desejo de consumir é a marca do nosso tempo. E cabe registrar também a luta que as salas de cinema travam contra as telas domésticas, o streaming, a individualização acelerada.

Recentemente, assisti a três grandes filmes nas telonas — em shopping centers, diga-se. Por se tratar de três produções com mais de duas horas de duração e levando em conta que as sessões receberam público bem razoável, penso que ainda resistirá o prazer de mergulhar nessa experiência única de estar numa sala de cinema, ao lado de outros expectadores, todos envolvidos na mesma viagem sensorial. “Assassinos da Lua das Flores”, do grande Martin Scorcese, com Leonardo DiCaprio compondo um personagem ambíguo e fascinante com uma atuação poderosa; “Oppenheimer”, de Christopher Nolan, um show de direção e um desfile de interpretações magníficas, e “Napoleão”, de Ridley Scott, uma produção robusta, com a presença do extraordinário Joaquin Phoenix: três produções de estúdios dos EUA, todas baseadas em fatos e ou figuras reais, com enredos contando histórias.

Bernardo Élis e a capa de seu romance “O Tronco”, de 1956 | Fotos: Reprodução e Jornal Opção

Mas o formato não esgota, claro, as possibilidades da linguagem cinematográfica,  sua capacidade de propor experiências narrativas mais complexas ou a utilização das imagens de forma mais livre.

Há grandes histórias, narradas em forma de romance, que mais se assemelham a roteiros de cinema, tamanho o apelo visual que suscitam.

“O Tronco” (José Olympio, publicado em 1956), livro do escritor goiano Bernardo Élis (1915-1997) — mais uma preciosa indicação do querido mestre Aercio Consolin —, traz uma dessas histórias.

O jornalista e historiador Francisco de Assis Barbosa aponta, no texto da orelha da 10ª edição do romance, que “tudo parece escrito para o cinema, com impressionante precisão na marcação das cenas, sublinhando o autor os momentos de suspense, como nos bons filmes de John Ford”. E para facilitar o trabalho do roteirista, a edição traz ainda um mapa do local onde se desenrolam os fatos narrados no livro, a então chamada Vila do Duro, situada no Norte do Estado de Goiás, hoje município de Dianópolis, pertencente ao Tocantins.

A trama aborda as rixas entre os chefes políticos da região, que, apoiados por deputados e por exércitos de jagunços fortemente armados, disputam o poder e a influência sobre vastos territórios.

Cena do filme O Tronco, baseado no romance de Bernardo Élis | Foto: Divulgação

Na Vila do Duro, um poderoso coronel comete um homicídio. A punição ao culpado se revela difícil, tendo em vista que comanda a vida local à força das armas e das intimidações.

O juiz, seu desafeto, encaminha representação ao governo estadual, pedindo providências. A partir daí, agravam-se as tensões. A comissão que chega da capital do Estado para apurar os fatos, enfrenta resistências.

Um novo juiz é enviado, com apoio de tropas policiais, para tentar restabelecer a ordem, mas afloram os ódios antigos e um conflito armado de grandes proporções ameaça eclodir a qualquer momento.

A vila cercada pelos jagunços; a população apavorada, suas lealdades divididas; a polícia tomando reféns, no intuito de evitar o ataque iminente: esse o panorama que vai se configurando pela narrativa fortemente visual do autor. A violência e o interesse pessoal, a ganância e o orgulho: essa a linguagem que permeia as atitudes e relações; assim, impossível traçar com clareza as linhas que separam a lei do abuso, os heróis dos criminosos. Mesmo Vicente Lemes, esboço mais próximo de um protagonista da história, oscila entre deveres familiares e o senso de justiça.

Bernardo Élis já foi comparado a Guimarães Rosa (que chegou a elogiar o primeiro). Mas penso que a associação se dá somente quanto à temática dos conflitos entre jagunços nos sertões do Brasil Central. Guimarães Rosa superaria o goiano pela universalidade de seus enredos e pela linguagem incomparavelmente exuberante. Ainda assim, “O Tronco” é grande leitura, e é cinema. Conheço uma tentativa de transposição do livro para as telas, pelas mãos de João Batista de Andrade e estrelado por Ângelo Antônio, Letícia Sabatella, Chico Diaz, Rolando Boldrin e Antônio Fagundes. Vale conferir o resultado.

Edmar Monteiro Filho é escritor e crítico literário.