“O Deserto Dos Tártaros” (Nova Fronteira, 176 páginas, Nova Fronteira) é a obra-prima de Dino Buzzati (1906-1972). Publicado originalmente em 1940, o livro marcou a consagração do autor entre os grandes nomes da literatura italiana e foi eleito pela crítica especializada um dos melhores livros do século XX. O texto foi adaptado ao cinema e ao teatro também com grande aceitação.

A obra narra a história do jovem tenente Giovanni Drogo, que recebe com alegria uma missão no Forte Bastiani, a primeira etapa de uma carreira gloriosa. Embora não pretendesse ficar por muito tempo, o oficial de repente se dá conta de que os anos se passaram enquanto, quase sem perceber, ele e seus companheiros alimentavam a expectativa de uma invasão estrangeira que nunca acontece. A espera pelo inimigo transforma-se em razão de viver, na renúncia da juventude e na mistura de fantasia e realidade. “O tempo passou tão velozmente que nem deu tempo de envelhecer.”

Dino Buzatti: um dos mais importantes escritores italianos do século 20 | Foto: Reprodução

A leitura é leve e despretensiosa, mais para o estilo jornalístico do que erudito. Buzzati recusava ser qualificado como escritor. Fez toda a sua história como jornalista no “Corriere Della Serra”. O que se nota na linguagem simples, sem abusos de metáforas e figuras de linguagem. A sua redação é límpida e acessível. Poucas são as expressões poéticas no texto. Entretanto, principalmente nas primeiras cem páginas, o autor descreve com riqueza de detalhes não só os personagens como as situações que retrata. Neste trecho o enredo não causa emoção. Mas cria ambiente para um desenrolar que sensibiliza o leitor. 

É uma história como todas as histórias humanas: a busca do significado da vida. Giovanni é só mais uma das vítimas da impotência humana. Vive um sonho que a realidade não valida. Só os que viveram uma longa vida podem ter na mesma intensidade a sensibilidade para apreciar a frustração humana vivenciada por ele. Desde o reencontro com um amor da juventude, em que o tempo distante esfriou, até o calor da casa materna, tudo conspirava contra a realização do seu sonho. Como ele constata: “O tempo entretanto passa a correr, a sua batida silenciosa marca, cada vez mais apressada, o ritmo da vida; não é possível parar nem por um instante, nem para olhar para trás”.

Dino Buzzati: o italiano foi também jornalista | Foto: Reprodução

O autor trama um enredo com habilidade. Consegue envolver o leitor ao fazê-lo identificar-se com a vida do personagem. E aí está a sua arte, pois nos emociona. É um texto que mostra a pura realidade de que não “levamos a vida, mas que é ela que nos leva”. Nenhum projeto de Giovanni realizou-se. Poucos são os nossos projetos que se tornam realidade. À espera pelo inimigo transforma-se na angustiante espera por uma razão de viver, na renúncia da juventude e na mistura de fantasia e realidade.

A literatura é uma arte que entretém e ao mesmo tempo nos ilumina por intermédio da emoção. Somos receptivos aos apelos racionais, mas muito mais abertos às emoções. A emoção quebra as nossas barreiras. Ao sentir as decepções de um personagem bem “criado” pelo autor, nos identificamos e colocamo-nos ao seu lado. Ao final desta leitura, estabelecemos um laço entre nós e o Giovanni. Sentimos as suas dores e o seu lamento pela perda do significado da vida.