O Sujeito sem Dedos nos Pés

DIRCE WALTRICK DO AMARANTE
Especial para o Jornal Opção

Há 130 anos morria Edward Lear (1812-1888), pintor, desenhista e escritor inglês, um dos pais, junto com Lewis Carroll, do nonsense vitoriano. O poema “O Sujeito sem Dedos nos Pés” foi publicado em 1877 no livro “Laughable Lyrics: a Fourth Book of Nonsense Poems, Songs, Botany, Music &c” (“Letras Engraçadas: Quarto Livro de Nonsense em Poemas, Canções, Botânica, Música Etc”, em tradução livre)

I
O Sujeito sem os dedos do pé
Já teve tantos quanto a gente;
Diziam: “Vai perder todos um dia”;
“Tô nem aí”, era assim que reagia.
Tia Jobisca preparou-lhe uma bebida
De alfazema e de cor-de-rosa tingida;
E dizia: “Todos cedo ou tarde saberão
Como isso é bom pro seu dedão”.

II
O Sujeito sem os dedos dos pés
Atravessou o Canal do Panamá;
Antes de partir enfaixou o nariz
Com um pedaço de flanela de cor gris.
Tia Jobisca dizia: “Se seu nariz aquecer,
Nada aos dedões há de ocorrer;
Ficarão protegidos, todos saberão,
Se mantiver seu nariz — salvo e são.”

III
O Sujeito nadou rápido e bem,
Até que surgiu uma embarcação
Fazendo-o tocar um sino,
Ouvido por todos com atenção.
Gritaram almirante e navegante,
Quando o viram bem distante:
“– Ele foi pescar, pro Gato Esgolfiado
de bigode rosado da Tia Jobisca!”

IV
Mas ao chegar noutra margem —
Na margem do Canal de Panamá,
Uma Toninha de cor esverdeada
Tirou a flanela a ele amarrada.
E quando ele olhou os pés rapidamente,
Ornados com dedões anteriormente,
Ficou completamente perturbado,
Pois os dedões tinham se mandado.
V
E ninguém nunca soube,
Desde esse dia tenebroso,
Quem roubou os dedos dele
De modo tão odioso.
Se lagosta ou peixe-espada,
Ou sereia desalmada,
Ninguém sabia; ninguém soube explicar
Como puderam seus dez dedões roubar.

VI
O Sujeito sem os dedos dos pés
Foi colocado num cesto à risca
E de volta o carregaram
Pro Parque da tia Jobisca,
Que lhe ofereceu farta refeição,
Com muitos ovos, arroz e feijão;
E disse, enfim: “O fato é que todo mundo sabe e diz,
Que um sujeito sem os dedos dos pés é mais feliz.

Dirce Waltrick do Amarante, além do poema acima, traduziu e organizou duas antologias de textos em prosa e verso de Edward Lear: “Viagem numa Peneira” e “Conversando com Varejeiras Azuis”, ambos publicados pela Editora Iluminuras. Prepara agora uma terceira antologia de textos do autor

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