O som envolvente e contraditório dos australianos da Sticky Fingers

Apesar de conquistar cada vez mais fãs e agendas pelo mundo, músicos da Sticky Fingers lutam constantemente com conflitos internos

Sticky Fingers / Foto: Divulgação

O rock australiano está em uma ótima safra. Bons exemplos disso são as bandas que saem do país e ganham popularidade por todo o mundo pela sua qualidade musical, como o som setentista, psicodélico e surf da Ocean Alley. O grupo ganha em ter um vocalista como Baden Donegal, que além de ter uma voz com textura vintage, os instrumentos esbanjam charme com as inserções de constantes apogiaturas. Também o trio DMA’s, que mais parece um british rock, talvez pela influência do vocalista Tommy O’Dell, que tem pai inglês. Tommy é um diferencial com sua voz feminina e melancólica, dando uma sonoridade agridoce ao grupo que é um dos que mais se destacam atualmente no cenário “aussie”, escrevendo músicas até para o recém lançado disco de Liam Gallagher.

Mas aqui pretendo tratar em especial da pouco ortodoxa, politicamente incorreta e irreverente Sticky Fingers. Formada há doze anos em Sidney, a banda começou como uma mistura de reggae e rock de garagem e hoje desenvolveu para um som que mistura rock, rap, psicodelia e até elementos do pop. Com uma apologética centrada em drogas, nas diversões entre amigos e em problemas mentais pessoais, algumas baladas românticas com um conteúdo mais dark também contrabalenceiam o ritmo acelerado da maioria das músicas.

A banda é formada por Paddy Cornwall (contrabaixo), o brasileiro Beaker Best (bateria) e Seamus Coyle (guitarra), que se conhecem desde crianças, pois estudaram nos mesmos colégios. Freddy Crabs (teclado) era contratado da banda, mas assim que começaram a fazer sucesso, Paddy deu um ultimato para que o músico se envolvesse de vez no projeto. O vocalista Dylan Frost foi praticamente um achado. Paddy, Beaker e Seamus andavam pelas ruas de Newtown quando avistaram o menino magricela kiwi (como chamam os neozelandezes) cantando e tocando na porta do Coopers Hotel por alguns trocados. Ainda adolescentes, este foi o início de uma amizade duradoura e um projeto musical bem sucedido.

Dylan Frost / Foto: Vies Magazine

Conforme se escuta os discos, é possível acompanhar a evolução musical e das letras. A voz de Dylan também teve consideráveis mudanças. Antes mais aguda e delineada, hoje mais grave e rasgada, uma consequência do amadurecimento, talvez com ajuda do cigarro e das bebidas. Rodeados de polêmicas, Sticky Fingers é a representação da rebeldia do rock que há muito se vê perdida nessa nova onda de conservadorismo e elitismo dentro do gênero musical.

Embora cada um de seus membros tenha personalidade carismática, a alma polêmica da banda se divide entre Paddy e Dylan, que ganham mais os holofotes com seus tropeços e acertos públicos. Em janeiro, o grupo realizou dois shows no Brasil, um em Belo Horizonte, no Festival Planeta Brasil, outro menor e mais intimista no Bar Opinião, em Porto Alegre. No grande evento mineiro, os dois integrantes foram os responsáveis pela interação com o público. Paddy, como sempre, simpático e demonstrando interesse ao esboçar algumas frases em português, como “Que foi?” e fazendo pose de mau. Por outro lado, Dylan – vestido apenas de sobretudo e galochas -, corria hiperativo pelo palco, fazia caretas para o público e falava com um sotaque de pirata bêbado, quem sabe um alterego.

A verdade é que Dylan é a persona mais intrigante e que provavelmente tem sido a causa desse gigantesco rebanho mundo afora. Em um vídeo antigo e caseiro da banda, em que respondiam perguntas de fãs, o vocalista confirma que seu pai era dono de um bordel. Em um comentário no Facebook, a mãe conta que é lésbica e que, por isso, Dylan apanhou e sofreu bullying na infância. São grandes as chances de alguns fatos iniciais da sua vida terem moldado a personalidade enigmática e criativa do músico.

Enigmática porque Dylan raramente fala em público. Fora dos palcos, é tímido. As poucas vezes em que decidiu abrir a boca as consequências foram, no mínimo, catastróficas para a banda. Em 2016, Sticky Fingers entrou em hiato depois do vocalista se meter em dois incidentes. Em julho, o cantor se meteu em confusão com a banda Dispossessed. Em dezembro, em uma briga de bar com a cantora Thelma Plum e seu namorado à época. Testemunhas chegaram a dizer que enquanto o casal tentava sair do local, Dylan corria atrás do carro vociferando ofensas.

Esse quase foi o fim para Sticky Fingers que teve sua imagem dilacerada na mídia. Acusada de várias coisas negativas, a banda cancelou a agenda e anunciou hiato indeterminado. Paddy se internou em uma clínica de reabilitação para interromper o uso excessivo de álcool e drogas. Dylan também tentou se recuperar das drogas, além de receber tratamento psiquiátrico, já que é clinicamente esquizofrênico, fato depois revelado pela banda.

Quando em 2018 os músicos anunciaram seu retorno, o vocalista foi forçado a pedir desculpas na famosa Triple J, rádio australiana. Dylan aparenta pânico. Em áudio disponível na internet, é perceptível a respiração ofegante, a voz trêmula. Ele evita falar. Quando finalmente toma fôlego, emite a frase “boys will be boys”, que não se pareceu nada com um pedido de desculpas. Resultado: foram banidos da rádio. Um tempo depois, Paddy publica um polêmico vídeo xingando a emissora.

Paddy Cornwall e Dylan Frost / Foto: Reprodução

É inegável que eles cometem muitos erros. Também é inegável que eles têm sofrido as consequências desses erros. O mais recente álbum lançado pelos caras, “Yours to keep”, é praticamente um diário de como foram os últimos anos para eles. Lançado em 2019, o disco conta com músicas que já foram abraçadas pelos mais assíduos ouvintes de Sticky Fingers, como “Junk”, com uma letra que diz: “Heaven knows no place for junk like me/ I’m flown away and gone to waste” ou “O céu não tem lugar para um lixo como eu/ Fui lançado fora, sou um desperdicio”; “Not done yet” também desabafa: “All my life, had a dream
I get lonely/It’s not like me to steer away/In the night, it’s alright/Days destroy me/But I don’t always mean what I say”. No verso, Dylan expõe o medo do isolamento que tem sofrido e a sua má gestão de palavras.

Em “Sleep Alone”, ele canta: “Why’d you run away for? / F*** it what they say /’Cause I don’t wanna break up/I made a mess, I changed”. Possivelmente uma mensagem aos companheiros de banda para que não desistam de Sticky Fingers. Em diversas letras podemos observar a crise com drogas, doenças mentais e problemas de convivência que tem consumido os cinco. Em julho do ano passado, uma ocorrência policial em New South Wales novamente relacionava a banda a brigas. Dylan e Paddy lutavam um contra o outro com faca do lado de fora de um bar. Alguns meses antes, em maio, os dois haviam saído aos murros no meio de um show, durante a turnê europeia. Com isso, o restante da agenda no continente foi suspenso e a turnê nos Estados Unidos cancelada.

Mesmo com toda barberagem, os autralianos continuam a fazer seu público crescer. Ou seja, se algo está translucidamente errado, também tem algo muito certo: sua música. Depois de tudo isso, imagino que o leitor esteja no mínimo curioso para ouvir as sonoridades que essa banda tem para oferecer.

 

 

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