O restaurante chamado Liberdade

Uma vez que a liberdade é uma escolha e as opções desconhecidas, a casa mercantiliza na verdade a opção de se desistir da liberdade

Gustavo Santana Miranda Brito

Já no hall do restaurante uma escultura, aparentemente barroca, exige atenção, trata-se de uma dupla mitológica. Em mármore branco, o velho Cronos, representado com asas, segura um grande volume, do qual tenta arrancar uma folha. Atrás dele, de pé, está Clio carregando os elementos que representam a história: o livro, o tinteiro e o estilo. Clio, com olhar compenetrado impede que o deus destrua o registro, enquanto com o pé, derruba uma cornucópia, que representa a inconstância e fragilidade da vida¹. Memória e esquecimento em uma contínua luta — é o que nos parece. Entramos.

Não se trata de um restaurante comum, imita uma catedral de sonho, mas o serviço é atencioso e rápido. Contudo, em se tratando de um restaurante chamado Liberdade, o problema é o cardápio. Uma vez assentados, somos surpreendidos por um imenso menu de entradas, não um volume mas uma série enciclopédica de possibilidades, logo atrás de nós encaminham-se atendentes com mais e mais edições do calhamaço, são tantos que já se forma uma fila de atendentes e uma pilha em crescendo de tomos e mais tomos de uma carta que se multiplica ad infinitum.

Difícil decidir. Mas estamos com fome.

Não obstante, a presença aparentemente inócua do Maitre descortina-se, estava lá o tempo todo aguardando a nossa disposição para o pedido. Não caberia a ele, é evidente, intervir na nossa escolha, seria incongruente com a proposta de um restaurante chamado Liberdade. Abre-se um dilema, temos a fome, real, tangível e absolutamente reversível ao lado da eternidade de todas as possibilidades somadas e catalogadas, porém submetidas à lenta apreciação da leitura, da reflexão e afinal a ordem.

Com um gesto ligeiro da mão, atraímos atenção do Maitre. Gentil e leve ele se aproxima da mesa, bastante treinado, explica-nos que a confusão é comum, e que todos que se decidem por experimentar as chances do Liberdade se espantam com tamanha variedade. Não se pode ter tudo, ele sorri adestradamente. Assim, antes de elaborarmos alguma atitude, ele nos oferece uma versão reduzida, um livreto ricamente ornamentado, que nos mesmeriza e entusiasma.

São os pedidos recorrentes, ele mantém a atitude oximoronicamente soberba e servil. Corremos os olhos pela versão simplificada do Liberdade, é atraente. Decidimo-nos, a refeição foi aprazível, estávamos satisfeitos ao pagar a conta. Sem embargo, havia no percurso pelo hall a um gosto de culpa infantil por havermos perdido todos por um. Talvez, um último pensamento me cruzou o cérebro, a câmara-fria para manterem-se acondicionados todos aqueles alimentos para tantas receitas fosse pequena demais, e o Maitre venderia sempre o mesmo prato. Uma vez que a liberdade é uma escolha e as opções desconhecidas, a casa mercantiliza na verdade a opção de se desistir da liberdade. Vence o Maitre. Saímos.

¹ RICOEUR, 2007

Gustavo Santana Miranda Brito é doutorando em Literatura na Universidade Federal de Goiás (UFG).

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João Brito

Brilhante texto.