“O Rei do Show” faz jus ao título pela música

Filme foi indicado ao Oscar apenas na categoria de Melhor Canção Original, com “This Is Me”, que se tornou sucesso retumbante nas rádios americanas

No filme, pelo avesso das intenções, ao juntar pessoas consideradas párias pela sociedade, para fazer shows e ganhar muito dinheiro, P. T. Barnum acabou criando uma consciência social

Os indicados ao Oscar foram divulgados na terça-feira, 23 de janeiro, e a festa será realizada no domingo 4 de março. “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro, recebeu 13 indicações, batendo o recorde do ano. Mas a participação de “O Rei do Show”, com apenas uma indicação (“This Is Me” como Melhor Canção Original), também é destaque.

O filme dirigido por Michael Gracey, e protagonizado por Hugh Jackman e Michelle Williams, mesmo chegando ao Oscar mui raquiticamente, tem muito a dizer sobre o momento em que vivemos.

Vencedora do Globo de Ouro, não dá para cravar se “This Is Me” levará o prêmio da Academia, mas é fácil dizer porque virou febre nas rádios americanas. É porque tem uma boa melodia e, além disso, capta um sentimento que subjaz à pele dura do dia a dia, meio cansada das guerras travadas no campo das preferências ideológicas, raciais e religiosas.

“O Rei do Show” é um musical que narra a história de um empresário de espetáculos, meio charlatão, P. T. Barnum (Hugh Jackman), personagem real que ganhava a vida ludibriando seu público, no século 19. Para ganhar dinheiro, ele abriu um circo com personagens do freak show em Nova York, como anões, gigantes, mulher barbada, além dos outros elementos circenses.

A sociedade nova-iorquina, que mais tarde conviveria com os freaks folks por muito tempo, em Coney Island, não queria aquele circo ali, em Manhattan, e o rejeitava. Os shows eram um sucesso, mas os profissionais eram xingados, execrados pelos reacionários. E aí é que a canção “This Is Me” entra em ação:

“Quando as palavras mais cortantes querem me abater
Vou mandar uma enchente que as afundará
Sou valente, estou magoado
Sou quem quis ser, este sou eu”
E todos cantam e dançam nas ruas de Nova York, todos agigantam-se numa atitude de afirmação contra o mundo hostil, contra os preconceitos, contra a vida dura.
Metáfora do corpo social

A linguagem do filme se justifica pela necessidade da fuga da realidade. O atual pesadelo político e social fez a sociedade americana voltar a sonhar. Nada melhor que regressar à velha forma dos musicais. Afinal, um musical é a metáfora do corpo social por excelência. Pois se uma pessoa se junta à outra, e as duas vão receber mais outra, até que todo mundo esteja cantando e dançando, repetindo os mesmos gestos, os mesmos sentimentos, no mesmo ritmo da canção, é porque já é um só corpo.

Um corpo precisa se aceitar para viver bem do jeito que é, precisa assimilar as imperfeições físicas, que todo corpo tende a ter, em maior ou menor grau. Talvez esta seja a grande sacada simbólica por traz do roteiro de “O Rei do Show”.

Em um mundo de intolerância às imperfeições do corpo, ou ao modo como o corpo individual se mostra (gordo, alto demais, baixo demais, feminino com barba, etc), o filme ousa sonhar, e o corpo social ousa colocar-se em postura de afirmação. No filme, pelo avesso das intenções, ao juntar pessoas consideradas párias pela sociedade, para fazer shows e ganhar dinheiro, P. T. Barnum acabou criando uma consciência social.

“O Rei do Show” é, portanto, sobre clivagem social, uma espécie de conto de fadas para adulto. O roteiro é leve e meio torto, mas a trilha sonora é boa. Destoando da ambientação histórica, as canções são pops modernos. Os americanos adoram “This Is Me” porque apela para a fuga da realidade no conturbado momento em que vivem.

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Débora

O melhor filme que já assisti.
Amo Hugh Jackman