O realismo mágico nos contos de Lourenço Cazarré

Após mais de três décadas, estão de volta os contos de “Enfeitiçados Todos Nós”, lançado em 1984 pela Melhoramentos. Comparado a Dickens e Dostoiévski no prólogo assinado por Geraldo Hasse, autor é um dos mais talentosos e originais contistas de sua geração

Lourenço Cazarré buscou na gente humilde de sua terra natal e de Bagé, cidade na fronteira com o Uruguai, onde passou parte da infância, a maioria de suas personagens | Foto: Divulgação

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Após uma espera de mais de três décadas, estão de volta os contos de “En­feitiçados Todos Nós (Florianó­polis, Editora Insular), livro do jornalista, contista e romancista Lourenço Cazarré (1953), lançado em 1984 pela Editora Melho­ramentos, de São Paulo, depois que seu autor havia conquistado pela segunda vez o Prêmio Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, o mais importante concurso literário daquela época. Mais: esta segunda edição traz outros três contos, publicados pela primeira vez em 1986 em jornais e revistas, que, encorpados aos seis da edição original, constituem uma bela mostra do trabalho de Cazarré, um dos mais talentosos e originais contistas de sua geração.

Como observa o experiente jornalista e escritor Geraldo Hasse no prólogo que escreveu para este livro, Cazarré não “inventa” personagens nem enredos – no máximo, glamouriza-os, ao humanizá-los, acrescente-se –, mas “apenas reprocessa histórias reais”. É o que se pode constatar no conto “O expedicionário”, em que o autor coloca a personagem a falar na linguagem coloquial dos gaúchos para contar a sua própria história de soldado brasileiro na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), agora transformado num homem próximo aos 60 anos de idade, precocemente envelhecido, abandonado por todos e pela chamada pátria:

“(…) Foi por essa gente que lutaste! Quando penso nisso, lágrimas vêm turvar ainda mais esses olhos que o bolor dos anos enfraqueceu. (….) Teus raiados olhos de enlouquecido – presos na inexistente bandeira jamais ultrajada – não podem mais ver os picos nevados dos montes italianos. Teus rachados pés de esmoleiro estão de novo sobre o húmus da terra que te engendrou, no ventre de uma índia quando um negro a penetrou com a ardência de um sol africano. Por que, guerreiro, te devolveram assim a tua terra, transformado num ídolo enfeitiçado, símbolo de todas as guerras e de todas as brutalidades. Marcha, soldado, cabeça de papel”.

Dickens e Dostoiévski
Nascido na cidade de Pelotas, no interior do Rio Grande do Sul, Cazarré, buscou na gente humilde de sua terra natal e de Bagé, cidade na fronteira com o Uruguai, onde passou parte da infância, a maioria de suas personagens. Dessa maneira, pintou um retrato daquelas cidades do tempo de sua juventude em contos que não perderam o viço, como se pode ver no conto que dá título ao livro:

“(…) A praça fica repleta de pessoas afogueadas que se entreolham com amarelados olhos vazios. Na fresca da noite, anunciada no ar abafado pelo cheiro de erva-mate, os velhos vão para as calçadas com suas garrafas térmicas e suas bocas chupadas e mostram à lua suas geométricas dentaduras enquanto seus peitos encatarrados tentam conseguir um pouco de ar. O suor se transforma em rios quando todos aqueles velhos insones pressentem que naquela noite não resistirão ao apelo das forças primitivas e que, por fim, se transformarão em lobisomens. Assim aconteceu com o meu e com o teu avô, enquanto nossas avós percorriam alucinadamente as contas negras dos rosários com seus dedos ossudos e bondosos e murmuravam orações piedosas para a salvação de nossas almas (…).

Por aqui se vê também que Geraldo Hasse, no prólogo, ao comparar Cazarré ao inglês Charles Dickens (1812-1870), ao russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e aos norte-americanos John Steinbeck (1902-1968), William Faulkner (1897-1962) e Truman Capote (1924-1984), não exagera, pois o autor brasileiro é igualmente um grande narrador das tragédias dos humilhados e ofendidos deste mundo.

E não só: seus contos de­notam uma marcante in­fluência dos autores do realismo mágico ou fantástico que tanto moveram os corações e mentes dos jovens escritores brasileiros das décadas de 1970 e 1980, especialmente os argentinos Julio Cortázar (1914-1984) e Jorge Luis Borges (1899-1986), o cubano Alejo Car­pentier (1904-1980), a chilena Isabel Al­lende, o mexicano Juan Rulfo (1917-1986), os u­ru­guaios Mario Benedetti (1920-2009) e Juan Carlos O­netti (1909-1994) e os brasileiros Murilo Rubião (1916-1991) e José J. Veiga (1915-1999). E o conceito de influência aqui, diga-se de passagem, segue o que afirmou o crítico Antonio Can­dido (1918-2017) em For­ma­ção da Literatura Brasileira (1981), que se distingue de coi­ncidência ou plágio, mas envolve “assimilação recíproca”.

Profícuo
Formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) em 1975, Cazarré, depois de um breve período como operador de telex, trabalhou um ano como repórter na sucursal de Pelotas dos jornais “Correio do Povo”, “Folha da Manhã” e “Folha da Tarde”, que pertenciam à empresa Caldas Junior, de Porto Alegre. Em junho de 1976, transferiu-se para Florianópolis, onde permaneceu por seis meses como repórter da sucursal local da Caldas Junior, antes de se transferir para a redação do jornal “O Estado”.

Como escritor passou a ser reconhecido depois que ganhou a 1ª Bienal Nestlé, em 1982, com o romance “O calidoscópio e a ampulheta”, em que conta as desventuras de um ditador livremente inspirado em Getúlio Vargas (1882-1954), influenciado talvez pelos romances do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), do peruano Mario Vargas Llosa, do guatemalteco Miguel Ángel Astúrias (1899-1974) e do espanhol (galego) Ramón Maria del Valle-Inclán (1866-1936).

Em 1977, transferiu-se para Brasília, onde passou a trabalhar como redator do “Jornal de Brasília”. Por essa época, já escrevia contos que publicava onde podia. Em 1979, começou a escrever “Agosto, Sexta-Feira, Treze”, seu primeiro romance, publicado em 1981. Depois de um retorno ao Rio Grande do Sul, estabelecendo-se na praia de Laranjal, na costa oeste da Lagoa dos Patos, onde viveu dos parcos recursos acumulados com os empregos e os prêmios literários conquistados, voltou a Brasília. Da época em que viveu com a mulher Luísa em Laranjal são os contos da primeira edição de “Enfeitiçados Todos Nós”.

Em 1983, na capital federal, passou a trabalhar em uma assessoria de imprensa na Câmara dos Deputados. Depois, tendo sido aprovado em concurso para professor de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, retornou para Pelotas, mantendo-se em trânsito entre o Rio Grande de Sul e Santa Catarina por alguns meses, até desistir da carreira e transferir-se definitivamente para Brasília. Em 1987, exerceu por alguns meses a função de chefe de editoração da Editora Universidade de Brasília, até que, em 1988, aprovado por concurso público, assumiu o cargo de redator no Senado Federal, onde trabalhou até se aposentar.

Autor profícuo, Cazarré publicou mais de 40 livros, desde romances e coletâneas de contos a novelas juvenis, entre os quais se destacam o romance “A longa migração do temível tubarão” (2008) e as novelas “Nadando Contra a Morte” (1998), “Estava Nascendo o Dia em que Conheceriam o Mar” (2011) e “Os filhos do Deserto Combatem na Solidão” (2016).

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo

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Adalberto de Queiroz

Muito bom saber desse relançamento e ter notícias do Cazarré, a quem conheci em Brasília, nos anos 80 do século passado.