O rap e a polarização política no Brasil

Confundir precipitadamente a resistência cultural da periferia com um campo que poucas vezes atende ou atenta para suas demandas seria não só um erro analítico, mas também político considerável

Marlon Black Style, policial miliar e rapper evangélico | Foto: Divulgação

Thiago Cazarim
Especial para o Jornal Opção

Na terça-feira, 06 de junho, o jornal “Folha de São Paulo” publicou a reportagem intitulada “Inspirado em Chico, rapper louva Bolsonaro e projeta vertente ‘reaça’”, assinada por Amanda Nogueira. O tema da reportagem é sobre a geração de rappers brasileiros alinhados a posicionamentos políticos abertamente conservadores, incluindo, mas não se limitando, à defesa de personalidades da nossa extrema-direita. Considero, mesmo com seu título espetaculoso, um importante e raro registro jornalístico sobre um setor social que tem crescido bastante (ou ao menos se assumido publicamente) nos últimos tempos. Isso porque aquilo que a “Folha” trouxe a seus leitores foi muito mais que a publicidade almejada por um rapper branco e autodeclarado reacionário: ela faz um pequeno diagnóstico da dinâmica existente entre política e arte num momento em que a primeira tem destaque absoluto na arena pública e midiática.

Como era de se esperar, a polarização política de imediato trouxe para seu campo a análise da cultura do rap. Um dos entrevistados pela Folha, assim como diversos leitores, pontuaram um elemento central neste debate. O ascenso conservador, aliado a outros problemas político-culturais – apropriação cultural, racismo, falta de perspectiva emancipatória para os cidadãos da periferia –, teriam pavimentado a deglutição do rap pela direita, ou seja, sua transposição ou subtração do campo da esquerda.

Penso que as relações entre política e cultura podem produzir, e de fato produzem, uma o registro da outra, constantemente. Faz sentido afirmar que determinadas obras ou artistas se encontram em campos políticos definidos, que determinadas pautas culturais tendem a ter mais ou menos acolhimento conforme sistemas ideológicos de esquerda, centro ou direita. Isso tudo é parte inegável dos jogos entre estas dimensões essenciais da vida social. No entanto, a afirmação de que o rap foi encampado pela direita por falta de projetos e ações políticas da esquerda pode simplificar demasiadamente as coisas. Em particular, confundir precipitadamente a resistência cultural da periferia com um campo que poucas vezes atende ou atenta para suas de­mandas seria não só um erro analítico, mas também político considerável.

Seria preciso relembrar, por exemplo, que a mundialização da cultura hip-hop deu-se a partir do cinema e da indústria fonográfica. O primeiro rap norte-americano amplamente conhecido, “Rapper’s Delight”, do grupo Suggarhill Gang, valendo-se de uma cultura negra emergente dos guetos de Nova Iorque, certamente introduziu um paradoxo do qual até hoje muitos rappers não conseguem se libertar. A mudança do espaço físico e orgânico das block parties do South Bronx para o espaço midiático e translocal da cultura de massa representou tanto a possibilidade de disseminar globalmente uma cultura das margens, quanto significou o perigo da cooptação pelas corporações capitalistas.

Estas contradições, ex­postas com propriedade por Tricia Rose em “Bla­ck noise: rap music and black culture in contemporary America”, aliam-se a muitas outras. Uma delas, que sem dúvida causaria horror ao conservadorismo de direita e de esquerda do Brasil, é relativa ao gangsta rap, ou “rap bandidão”, no qual rappers encarnam personalidades violentas, fazem um elogio da vida no crime e pregam a ostentação de bens e mulheres como forma de autoafirmação perante suas comunidades, seus pares homens e, sobretudo, as forças repressoras do Estado. Mesmo que não se trate de defender os temas que este subgênero do rap coloque em cena, nem tampouco de ignorar que a indústria fonográfica se valeu enormemente dos rappers gansgtas para lucrar e diminuir a visibilidade daqueles que pregavam uma cultura da paz ou do enfrentamento às injustiças raciais, parece que não foi a dualidade entre esquerda e direita a responsável por produzir tais contradições, mas sim valores próprios do registro da cultura ou que, não sendo de sua posse exclusiva, também não se deixam determinar pela chave político-ideológica tão facilmente.

Ao que me parece, há uma tendência de a esquerda se apropriar do termo resistência como correlato, sinônimo e propriedade seus. Uma das possibilidades de desfazer criticamente esse nó seria pensar os limites dessa apropriação, apontando que o diapasão esquerda/direita é menos operatório que outras categorias, como tradição/inovação, nacionalismo/regionalismo, identidade/diferença. Mas se não quisermos isolar totalmente arte e política, o que, aliás, seria tremendamente ingênuo, poderíamos compreender como artistas e intelectuais negros formularam seus posicionamentos artísticos e políticos concretamente. Paul Gilroy, no clássico “O Atlântico Negro”, traz indicações a respeito disso na medida em que personalidades fundamentais negras para a abolição da escravidão e do colonialismo no continente africano dialogaram seriamente com os valores basilares das democracias liberais e das ideologias nacionalistas euroamericanas (ainda que num processo crítico e de revisão estratégica destes). Ora, nem o nacionalismo nem o liberalismo político se enquadram automaticamente no molde direita/esquerda, o que indicaria uma longa tradição das culturas negras de reinterpretação dos valores ocidentais, inclusive disputando-os com a direita e a esquerda.

Estou convencido de que não podemos confundir os valores políticos e o sentido artístico dos diferentes subgêneros e artistas voltados ao rap. Inútil relembrar que a defesa de um apologista da ditadura é diametralmente oposta à luta contra o autoritarismo do Estado e das corporações capitalistas. Concretamente, o problema reside em definir a esquerda como rótulo lógico de uma cultura que muitas vezes nem é contemplada pela própria esquerda: como demonizar rappers conservadores do meio gospel relatados pela “Folha” quando eles ocupam efetivamente não só o papel do Estado, mas dos ditos progressistas?

Tanto os rappers evangélicos quanto aqueles da vertente crítica, de alguma forma, parecem situados em algum ponto entre a direita e a esquerda enquanto categorias políticas marcadas, disputando constantemente com os dois campos os valores que lhes são pertinentes. Isto sequer implica dizer que estes rappers não estejam bem posicionados politicamente ou negar as diferenças entre ideologias de direita e esquerda. Trata-se somente de pensar se é lícito que a esquerda reclame como sua a resistência que não lhe pertence.

Thiago Cazarim é professor do Instituto Federal de Goiás, Bacharel em Música e doutorando em Performances Culturais.

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