O que será do goianês

Pesquisador define características da fala que permitem acompanhar as mudanças no sotaque de Goiás

“Caipira picando fumo” de Almeida Júnior, 1893

Ônti o temporal foi tanto que, na barra do dia, a água da nascenti do córrigu estava na altura da rodela do joelho.

Ontem o toró foi tanto que, no raiá du sol, a água da nascentezinha do corgo estava na altura da pacata do joelho.

Ontem a tempestade foi tanta que, na aurora, a água da nascente do riacho estava na altura das rótulas dos joelhos.

Segundo o “Alingo – O Atlas Linguístico de Goiás: léxico-fonético” (Barra Livros), essas três formas de dizer a mesma coisa podem ser ouvidas em Posse, Aragarças e Orizona, respectivamente. Sebastião Milani, Tânia Rezende, Aline da Cruz e Daniel da Silva são linguistas e professores da Universidade Federal de Goiás (UFG) e compilaram sotaques, vocábulos e fonética praticadas em todo o estado, criando um acervo que delineia a identidade da fala goiana. Além de possibilitar outras pesquisas, o Atlas também permite mapear e acompanhar mudanças linguísticas provocadas pelo tempo e pela migração das populações. 

O livro organizado pelo coordenador Sebastião Elias Milani é produto de pesquisa de quatro anos fomentada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg). Os pesquisadores visitaram 86 cidades aplicando mais de duzentas perguntas sobre a terra, o povo, a cultura local, a alimentação, a chuva e as plantas. Em cada cidade, foram entrevistados um homem e uma mulher representando cada uma das cinco faixas etárias e dos seis níveis de escolaridade selecionados, totalizando 36 entrevistados para cada uma das 50 cidades compiladas no produto final.

Entre os achados do trabalho, está a identificação do que chamamos de fala caipira, ou hipoglossia sertaneja, que se valoriza em Goiás. “Os goianos defendem com muito rigor a beleza e grandiosidade do caipira, o cara da roça que é sábio, forte, trabalhador. Por isso, apesar de ser uma população muito nova, podemos dizer que a característica geral do estado é a valorização da forma falada na zona rural”, afirma Sebastião Milani.

Em termos de fonética, o sotaque goiano se caracteriza principalmente pelo R retroflexo aproximante, o famoso R de “porteira”. A versão goiana é mais branda do que a que se ouve no interior de São Paulo – onde é tão forte que pode ocorrer até no início de sílabas – sendo detectada mais facilmente por nativos ou por ouvidos treinados. Também são características as sibilantes sempre linguoalveolares em todo o estado – ou seja, não se utiliza o S chiado pelo qual reconhecemos os cariocas. 

Por último, na fala dos goianos, todos os fonemas vocálicos podem atuar como alofones uns dos outros quando ocupam as casas átonas de um signo. Isso significa que, principalmente antes da sílaba tônica de uma palavra, é possível encontrar qualquer vogal. Por exemplo: em Cristalina a ave que come carniça pode ser chamada de “arobu”, em Montes Belos se escuta “orubu”, mas a forma mais comum no Estado é “urubu”; na maioria das cidades “cotovelo” é pronunciado “cutuvelu”, mas em Piranhas também fala-se “catuvelu”. O alçamento ou abaixamento das vogais médias pretônicas não é exclusividade do goianês, e nem mesmo da língua portuguesa, mas chama atenção a grande variedade de possibilidades neste sotaque específico.

Segundo Sebastião Milani, outra característica importante é a influência que Goiânia exerce no resto do estado. “Por conta da formação recente do estado, com explosão populacional após a década de 1930, o modo de falar é vinculado à Goiânia. Nenhuma outra cidade exerce intervenção linguística. Por isso, o Estado tem regularidade”, afirma o doutor em linguística. 

Quando perguntado se a padronização da fala nos moldes da capital não contradiz a valorização rural característica do goianês, Sebastião Milani afirma que não: “Goiânia é uma cidade rural. Entrevistamos pessoas em diversos bairros da cidade, e todas elas têm conhecimento da vida no campo, tanto quanto no interior. A intimidade com o campo migrou para a cidade quando ela foi fundada.”

Para a produção de Alingo, não foi entrevistado nenhum falante que não fosse nativo e filho de nativos de Goiás. O que os pesquisadores encontraram foi que nenhum entrevistado com menos de 46 anos realizou outra forma de R que não fosse o retroflexo. Mesmo em cidades fronteiriças com a Bahia e entre descendentes de nordestinos, os entrevistados jovens não usaram o D ápico dental e sem africação diante de i, tampouco o R gloto velarizado, típicos do sotaque nordestino. 

Segundo Sebastião Milani, isso prova que o sotaque vindo de Goiânia tem sido aprendido e reproduzido, principalmente entre os jovens. “Se ainda não temos regularidade de fala como em São Paulo ou Rio de Janeiro, que reconhecemos facilmente, passaremos a ter em 30 ou 40 anos, quando essa geração se tornar a mais velha viva. Aí então teremos uma marca goiana muito específica”, afirma o coordenador do projeto. 

Sebastião Milani conclui que as regiões de fronteiras rodoviárias, como em cidades em torno da GO-018 e da Via Salvador, fica muito evidente que a forma de falar do goiano está se tornando cada vez mais bem definida. Mesmo em contato com populações migrantes, a tendência é que a forma nativa de falar fique ainda mais clara. Desta forma, a obra se encerra prevendo que formas não praticadas em Goiânia serão cada vez menos faladas e poderão até desaparecer definitivamente do Estado.

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