O que os olhos não veem

A capacidade de alterar elementos visuais de forma imperceptível (por meio de recursos como o Photoshop) reforçou o ceticismo do público quanto à credibilidade das imagens jornalísticas. Fato que nos leva à seguinte indagação: acreditar naquilo vemos – devemos?

Foto: Reprodução

Em artigo publicado no caderno “Ilustríssima”, da “Folha de S. Paulo”, em abril deste ano, o reitor emérito do Centro Internacional de Fotografia (Nova York), Fred Ritchin, faz uma interessante reflexão sobre o papel da fotografia enquanto referência social na chamada “Era da Imagem”, em que somos exaustivamente bombardeados por imagens, principalmente na internet e nas redes sociais. Em suas considerações, o ex-editor da “New York Times Magazine” afirma que, a despeito da Fotografia sempre ter sido uma mídia interpretativa, a capacidade de alterar elementos visuais de forma imperceptível (por meio de recursos como o Photoshop) reforçou o ceticismo do público quanto à credibilidade das imagens jornalísticas.

Ainda em suas ponderações, esta condição altamente subjetiva da Fotografia atualmente explicaria o fato de, nos últimos tempos, pouquíssimas fotos despontarem como imagens emblemáticas, colocando em foco dramas sociais da atualidade; salvo raros exemplos, como o registro da morte do garotinho turco Alan Kurdi, cuja foto do corpo inerte na praia repercutiu mundialmente. O termo “fotos icônicas” deu lugar à expressão imagens virais, o que nem de perto lhe agrega o mesmo valor. A discussão trazida a lume por Ritchin não só é extremamente pertinente, como pode, e deve, ser extrapolada. Para além do interesse jornalístico, há o interesse histórico da Fotografia enquanto “documento”; assunto este que, muito antes de todo esse turbilhão digital, já causava polêmica entre os estudiosos. Acreditar naquilo que nossos olhos veem – devemos?

Um exemplo da celeuma em torno do uso da Fotografia enquanto “testemunha ocular” da História é o caso da emblemática imagem registrada por Robert Capa, um dos bastiões do Fotojornalismo, ao capturar com suas lentes aquele que seria o instante exato da execução de um miliciano republicano durante a Guerra Civil Espanhola. A fotografia foi veiculada em diversas revistas da época: Setembro de 1936 p.1106 na Revista francesa Vu/ Life – julho de 37 / Cerro Muriano – 1936 / Paris Soir julho de 37/ Regard 14-07-37. A imagem é objeto de análise no artigo “A fotografia como documento – Robert Capa e o miliciano abatido na Espanha: sugestões para um estudo histórico”, do historiador Ulpiano T. Bezerra de Meneses.

Na análise de Ulpiano, a leitura visual dos aspectos morfológicos que compõem a imagem (caráter instantâneo, enquadramento, foco, o panning capturando a instabilidade, a dramaticidade), corroborada por informações jornalísticas, contribuíram para que a imagem viesse a se tornar emblemática. Os atributos mencionados, segundo seu raciocínio, se adequam em características que são atribuídas ao chamado “olho da História” – neutro, competente, automático e imune às manipulações; o seu propósito de “efeito verdade”, proposto por Roland Barthes, lhe garante o caráter de testemunho, registro dos fatos.

O flagrante de Capa, no entanto, esteve longe de ser uma unanimidade quanto à sua veracidade. Entre as diversas interpretações levantadas sobre a imagem, estavam as hipóteses de fraude ou acidente. As especulações surgiram mais fortemente na década de 70, mais de 10 anos após a morte de Capa. No entanto, todas as circunstâncias que poderiam servir de brecha para uma possível manipulação foram rebatidas documentalmente e por testemunhos confiáveis. A possibilidade de acidente/escorregão persistiu até a confirmação por familiares e por contemporâneos ao fato registrado pela foto.

Fred Ritchin: ceticismo permeia a chamada “Era da Imagem” | Foto: Reprodução

Corroborado por esta constatação, e partindo do pressuposto de que as fotografias são dotadas de uma intenção e natureza como suporte visual programado para o registro de informações, cuja historicidade não oferece obstáculos à identificação e análise, Ulpiano considera essa mídia um legítimo documento histórico. Não é dizer que o estudioso oblitere a problemática relacionada à manipulação/falsificação de imagens; ele apenas relega a questão a um segundo plano. Para Ulpiano, a autenticidade ou não são atributos inerentes à imagem, mas sim do discurso dos homens sobre elas.

O Filósofo Vilém Flusser, em 1983: “fotografias não símbolos inequívocos” | Foto: Arquivo Vilém Flusser

Assim, de acordo com Ulpiano, uma possibilidade para que esta fonte visual em específico venha contribuir de forma relevante para o discurso histórico seria voltar as atenções para a circulação e notoriedade que a imagem adquiriu. Os objetos não devem se constituir como uma fonte de investigação em si, mas vetores para o estudo de aspectos relevantes na organização, no funcionamento e na transformação de uma sociedade. O questionamento que fica é: será que, no contexto atual, o historiador manteria estas convicções sobre o sustentáculo de credibilidade da Fotografia? Teria ele se deixado levar por uma ilusão que, com o avanço da tecnologia para produção e manipulação de imagens, tornou-se mais evidente e incorrido em um equívoco?

Em ensaios reunidos na coletânea “Filosofia da Caixa Preta”, Vilém Flusser formulou uma teoria filosófica que pudesse explicar a Fotografia e os atos relacionados a ela, para que o homem fosse o real comandante do ato fotográfico. Apesar de escritas em 1983, suas postulações são bem atuais. Imagens são superfícies que pretendem representar algo localizado no espaço e no tempo. São resultados da abstração de duas das quatro dimensões espaço-tempo, servindo-se assim da nossa capacidade de imaginação – de fazer e decifrar imagens. Não são, portanto, símbolos inequívocos; já ofereciam em sua essência um espaço interpretativo ao receptor. Imagens têm o propósito de representar o mundo. Porém, com as interferências externas permitidas pelos equipamentos de edição, interpõem-se de forma ainda mais contundente entre a realidade e o indivíduo que, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função das imagens. Tal inversão é idolatria. O homem se esquece do motivo pelos quais as imagens foram produzidas. Imaginação torna-se alucinação e o homem passa a ser incapaz de decifrar a imagem.

Portanto, retomando as reflexões de Ritchin, o título de seu artigo faz, de forma bastante oportuna, menção ao “paradoxo da Era da Imagem”, uma vez que o excesso de imagens produzidas se tornou inversamente proporcional à credibilidade que podemos atribuir às fotografias, inclusive as ditas ‘jornalísticas’ ou de ‘não-ficção’. A verdade é que, mais do que nunca, as fronteiras entre o que é ‘real’ e o que é ‘criação’, foram completamente diluídas, tornando o terreno ainda mais fértil para a propagação das famigeradas “Fake News”, fenômeno que ganhou bastante proporção com o advento das redes sociais. A boataria nada de braçada em meio à enxurrada de imagens e fotografias manipuladas. E, mais do que nunca, não podemos nos deixar convencer por aquilo que nossos olhos enxergam. Afinal, entre a nossa percepção e a imensidão do universo imagético, há muito mais – ou menos – do que pode apreender nossa vã compreensão.

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