O que eu faço com o meu tempo no tempo do mundo

27 agosto 2025 às 12h20

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O tempo é uma das realidades mais misteriosas e fundamentais da existência humana. Embora o vivamos e sintamos sua passagem, não o possuímos. Ele é a medida universal que rege a vida, mas também o fardo pessoal que carregamos em nossa alma. A questão levantada pelo Prof. Eguimar Chaveiro da UFG, “O que eu faço com o meu tempo no tempo do mundo”, transcende a filosofia e se torna uma indagação existencial, forçando-nos a confrontar como habitamos o instante individual dentro do fluxo impessoal e incontrolável do universo. Essa pergunta nos leva a explorar as profundezas da nossa própria liberdade, propósito e finitude.
Desde a antiguidade, pensadores tentam decifrar a natureza do tempo. Santo Agostinho, em sua obra Confissões (XI, 14), reconhece o paradoxo em uma de suas mais famosas passagens: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei”. Para ele, o tempo não é uma entidade externa, mas uma experiência interna, dividida em três dimensões psicológicas: o presente do passado (memória), o presente do presente (intuição) e o presente do futuro (expectativa).
A filosofia do século XX aprofundou essa reflexão. Martin Heidegger, em sua obra seminal Ser e Tempo, rompe com a visão tradicional do tempo como uma sucessão de momentos. Para ele, o tempo é a própria estrutura do Dasein (o ser-aí, ou ser humano). Heidegger afirma que o ser do homem é “ser lançado no tempo”, ou seja, não vivemos fora do tempo; nós somos, em nossa essência, temporais. A nossa existência é um projeto voltado para o futuro, moldado pelas possibilidades e pela finitude que a morte impõe.
O filósofo Henri Bergson introduziu a distinção crucial entre o tempo mensurável do relógio (tempo-espaço) e o tempo vivido (durée), que se alonga ou se contrai conforme a intensidade da experiência emocional e psicológica. Para Bergson, a durée é a verdadeira essência do tempo, uma corrente contínua e indivisível de consciência. Essa visão narrativa do tempo foi desenvolvida por Paul Ricoeur, que, em sua obra Tempo e Narrativa, argumenta que “o tempo se torna humano na medida em que é narrado”. É através da narrativa – seja a história de uma nação, a biografia de uma pessoa, ou a trama de um romance – que damos forma, sentido e propósito ao nosso próprio destino.
A experiência do tempo nos coloca diante de um dilema existencial: a liberdade de escolher quem seremos. O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard advertia que “a angústia é a vertigem da liberdade”. Em outras palavras, a possibilidade infinita de escolhas que o tempo nos oferece pode gerar uma sensação avassaladora de incerteza e responsabilidade. Essa ideia foi radicalizada por Jean-Paul Sartre, que, na linha do existencialismo, afirmou que “a existência precede a essência”. Isso significa que não nascemos com um propósito ou natureza pré-definida; somos o que fazemos de nós mesmos. O tempo, portanto, não é um mero cenário passivo, mas um campo de escolhas e ações constantes. A cada minuto, a cada instante, decidimos quem somos e construímos nossa própria essência.
A modernidade, com o avanço tecnológico, acelerou o ritmo da vida a patamares inéditos. Somos constantemente bombardeados por informações, tarefas e distrações. No entanto, essa velocidade não responde à pergunta essencial: o que fazemos do tempo? O filósofo e matemático Blaise Pascal, já no século XVII, alertava que “toda a infelicidade dos homens provém de uma única coisa: não saberem permanecer em repouso em um quarto”. Isso sugere que o verdadeiro desafio não é consumir o tempo, mas habitá-lo, cultivando a atenção plena e a presença.
A tradição espiritual e religiosa oferece uma visão complementar. Nelas, o tempo físico é visto não como um fim em si mesmo, mas como um período de preparação, aprendizado e evolução. O padre e teólogo Pierre Teilhard de Chardin sintetizou essa visão ao afirmar: “Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, mas seres espirituais vivendo uma experiência humana”. Ele defendia que a evolução do universo tem um propósito espiritual, e cada momento da vida contribui para essa jornada maior.
A visão espírita de Allan Kardec inverte a máxima sartriana: a essência precede a existência, e não o contrário. O espírito é eterno, e a vida física é apenas uma breve passagem para aprimoramento moral e intelectual. O que fazemos do tempo na Terra é, na verdade, o que fazemos de nós mesmos para a eternidade. A resposta para a pergunta “O que eu faço com o meu tempo?” talvez seja ao mesmo tempo simples e exigente: o tempo é um dom, uma oportunidade. Cada instante pode ser vivido como um degrau de evolução, um ato de criação e uma escolha consciente de quem queremos ser. Não apenas o tempo do mundo, mas o tempo da alma.
Referências bibliográficas
- Agostinho, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis: Editora Vozes, 2011.
- Bergson, Henri. Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. Tradução de Franklin de Mattos. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
- Heidegger, Martin. Ser e Tempo. Tradução de Márcia de Sá Cavalcante. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.
- Kierkegaard, Søren. O Conceito de Angústia. Tradução de Álvaro L. M. Valls. Petrópolis: Editora Vozes, 2010.
- Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 80ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1995.
- Pascal, Blaise. Pensamentos. Tradução de Pedro Neves. São Paulo: Penguin Companhia das Letras, 2015.
- Ricoeur, Paul. Tempo e Narrativa. Tradução de Constança Marcondes. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
- Sartre, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Tradução de Vergílio Ferreira. Lisboa: Presença, 1970.
- Teilhard de Chardin, Pierre. O Fenômeno Humano. Tradução de Helena G. de Macedo. São Paulo: Cultrix, 2015.