O que Batman vs. Superman, Guerra Civil e X-Men têm em comum?

Com a temática central da crise dos principais pilares do homem — Estado, religião, ciência e filosofia — a esperança se ergue dúbia sem caminhos à vista

Dos quadrinhos para os cinemas, “Batman vs Superman” aborda questões atuais, como “em quem se apoiar?”

Dos quadrinhos para os cinemas, “Batman vs Superman” aborda questões atuais, como “em quem se apoiar?”

Anderson Fonseca
Especial Jornal Opção

Decidi, a partir do mês de abril, ir ao cinema assistir os filmes “Bat­man vs. Superman”, “Ca­pitão América – Guerra Civil”, e “X-Men – Apocalipse”. Perguntas motivaram a ida: “O que há nestes três filmes em comum? Qual discurso prega? Que situação política es­ses filmes representam?”. Alguém me diria que ando lendo teoria da conspiração, algo assim. Na verdade, nem isso leio. Minha curiosidade limita-se a uma questão filosófica e linguística: o discurso ideológico que une os três filmes.

No filme “Batman vs. Super­man”, o personagem principal é um alienígena cujos poderes não podem ser controlados por leis estatais nem universais; mas, por estar em território americano, é desafiado a segui-las. O outro personagem acredita na justiça; uma figura de um sistema falho, mas que necessita de um bode expiatório para torná-la, outra vez, crível. Na extremidade de ambos, um industrial realiza o jogo entre a figura do poder contra a figura da jus­tiça, e nessa trama, o embate fa­vorece a desestabilização do sistema.

Aparentemente, é um filme que aborda o conflito de signos que ambos os heróis encarnam. No entanto, a extrapolação alcança a relação simbiótica entre os símbolos (poder e justiça) e suas influências na vida humana. Quando o poder é maior que a justiça, esta se torna inútil como protetora dos direitos humanos. Mostrar que ela é eficaz e qual significado é verdadeiro caberá a um personagem controverso.

Quando os símbolos estão em conflito, a figura do industrial aparece como sendo a raiz do jogo e se torna o vilão, desviando a culpa, ou melhor, o perpétuo jogo de contrastes entre justiça e poder. O industrial beneficia-se da ausência de justiça e do excesso de poder para exercer sua real influência: encontrar vantagem na imperfeição do sistema. O lucro está na descrença dos signos que constituem o sistema de vida humana.

Assim, “Batman vs Superman” é um filme que aborda questões atuais que incomodam os seres humanos: Devemos ou não confiar no sistema? Devemos crer na justiça? Que símbolos fielmente nos representam? As perguntas pairam no ar e acabam sendo aprofundadas noutro filme: “Capitão América – Guerra Civil”.

Dessa vez, o roteiro se parece um pouco com o anterior, temos a figura histórica de uma nação e uma outra situada num ponto específico do tempo. A primeira representa a ideia de liberdade e fé de um povo, a segunda suas conquistas e influências políticas ao longo de quase 70 anos. A primeira se mostra fiel ao ideal que fundou uma nação, enquanto a outra crê na imagem coletiva (o povo) ser maior que a parte (o indivíduo). Para que a história aconteça, um conflito ideológico emerge.

O personagem Tony Stark é a figura do Estado que, para garantir seu poder e símbolo, escolhe dirimir o indivíduo. O Estado ergue suas colunatas em cima da ideia de coletividade, anulando o indivíduo, mas, nesse erguer, os direitos de um são transferidos para o todo e, nesse todo, a igualdade é o fim da diferença, da singularidade. Quem exerce o controle, quem decide o que é bom ou mau, quem garante a segurança é o Estado que, para alcançar este patamar, necessita ter total e absoluto poder. Um poder parcial apenas aprofunda a desconfiança no símbolo.

Já o personagem Steve Ro­gers, ao contrário do outro, não confia no símbolo do Estado, mas no do indivíduo. Sendo ele um homem que vivenciou os efeitos do totalitarismo nas primeira e segunda guerra mundiais, é claro que temerá as consequências de um novo totalitarismo. E é justamente esta perda de fé que o motiva a lutar pela individualidade em detrimento da coletividade.

A épica batalha do filme en­contra-se, portanto, ancorada na escolha do norte-americano de abrir mão de sua liberdade individual pela segurança oferecida pelo Estado que, para garanti-la, precisa ter acesso à privacidade do cidadão; ter total e absoluto conhecimento.

Guerra Civil

Reprodução

“Capitão América – Guerra Civil” é, portanto, um filme que aborda outra visão do sistema humano: o conflito entre interesses individuais contra o Estado (o coletivo). A ruptura alcança um grau inimaginável quando o herói é convertido em um inimigo (terrorista) do Estado, e justamente aí outra questão é levantada: o indivíduo que se opõe às ações do governo passa a ser tratado como terrorista quando desobedece a ordem, o símbolo, desacreditando a figura eleita publicamente. Quando este ponto é alcançado, o Estado decide coagir o outro para que aceite sua autoridade. Mas esse símbolo está abalado, desacreditado.

Assim, “Guerra Civil” levanta novas perguntas que se somam às do filme anterior: Devemos abrir mão de nossa individualidade pe­los interesses do Estado? Não es­taríamos aceitando um governo totalitário? Não seria o fim da liberdade? Devemos confiar num símbolo enfraquecido, surrupiado pelos jogos de apoderamento econômico das grandes indústrias? A resposta talvez esteja no último filme que assisti: “X-Men – Apocalipse”.

Novamente, duas ideias divergentes que provocam um conflito; mas, neste, o vilão planeja destruir os sistemas políticos, econômicos e militares sob os quais a humanidade se construiu. Os heróis desejam preservar esses sistemas que, apesar de falho, são os únicos em que o homem se apoia. O centro do filme, no en­tanto, é o personagem Erik Le­hnsherr que, descontente com o ho­mem e desacreditado no sistema, escolhe o lado do mutante A­pocalipse. Este, ao acordar, após milênios em sono, assiste a um planeta decrépito em que humanos e mutantes são “escravos” de sistemas políticos. Defen­den­do a “liberdade plena” de cada mutante, ambos propõem o fim dessa ordem para, em seu lugar, colocar outra. Do que se trata, portanto, o filme “X-men – Apo­calipse”? Da crise da representação, da pós-modernidade em Jean François-Lyotard e da necessidade de um sistema que, de fato, aceite a diferença.

Reprodução

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Primeiramente, Lyotard afirma que a pós-modernidade é marcada pelo fim de grandes narrativas como marxismo e positivismo, ideias que visavam o progresso das nações. Justamente; é a modernidade que permitiu desastres como Auschwitz e Hiroshima. A pós-modernidade é a morte das narrativas que alcançaram o clímax com o fim da União Soviética e o surgimento da globalização. A condição pós-moderna, segundo Lyotard, caracteriza-se pela queda de esquemas explicativos que não são mais garantias da verdade, estando desacreditados. A modernidade baseada no iluminismo, na crença de verdades fundamentais à luz da razão, encontra seu fim, gerando incerteza, insegurança. E, em 2001, no dia 11 de setembro, a certeza se desfaz quando o maior símbolo da segurança econômica do mundo é destruído. Uma onda seguiu-se pelos anos iniciais do século 21; uma crise na representação, em que nada, nenhum sistema político, econômico, ideológico é referencial para o homem. A falta de um símbolo que guie o homem é o tema do filme “X-Men – Apocalipse”.

Além disso, na ausência de uma verdade que dê ao homem segurança, a existência em um mundo líquido, repleto de incertezas, permite o surgimento do fundamentalismo, seja religioso ou político. O personagem Apocalipse, por exemplo, é um fundamentalista religioso que congrega em torno de si mutantes que acreditam numa transformação radical da sociedade pela aniquilação da realidade atual substituindo-a por outra. Erik, que está sem fé no homem e em Deus, adere a esse fundamentalismo. Sua escolha nos coloca diante de uma pergunta: Na ausência de uma verdade que nos conforte, de um sistema que nos represente, que outro sistema escolher? O fundamentalismo seria a resposta de muitos, pois o iluminismo que gerou a modernidade mostrou-se falho. Não há verdade. Não há utopias. O professor Charles Xavier é a encarnação do iluminista que crê na ciência e no homem, apesar de toda a realidade mostrar-se contrária.

Assim, “X-Men – Apocalipse”, “Capitão América – Guerra Civil” e “Batman vs Superman” são filmes cuja temática central é a crise que atinge os principais monumentos erguidos pelo homem e, agora, estremecem no século 21: o Estado, a religião, a política, a filosofia e a ciência. Na ausência de certezas, a esperança é erguer um novo monumento em que o homem se apoie ou destruir todos, de uma só vez. l

Anderson Fonseca é escritor e professor. Autor dos livros de contos “Sr. Bergier & Outras Histórias” (Rubra Cartoneira, 2013) e “O que Eu Disse ao General” (Oitava Rima, 2014).

Assista abaixo o trailer dos filmes “Batman vs Superman”; “Capitão América – Guerra Civil” e “X-Men – Apocalypse”.

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