Banda que “adoçou o rock” diz que o progresso da música goiana não para tão cedo

Após conquistar a casa e abrir os horizontes para além-Goiânia, Carne Doce promete para o cenário musical de 2015

Com um EP na boca do público, a goiana Carne Doce emplacou bons lugares nas listas de melhores discos de 2014 - o garotinho é capa do álbum | Foto: Divulgação

Com um EP na boca do público, a goiana Carne Doce emplacou bons lugares nas listas de melhores discos de 2014 – o garotinho é capa do álbum | Foto: Divulgação

Yago Rodrigues Alvim

Toca nas rádios, em alguns programas cuja produção local é valorizada. Toca em pubs, recantos consagrados – como o tal Martim, o Centro Cultural Cererê. Toca em festivais, em outros estados. Toca na cabeça de muita gente espalhada pelo sertão urbano. O rock se expandiu para além do Planalto Central. Hoje, bandas têm feito a cabeça de quem quer viver de música, em Goiânia: elas ecoam no pensamento, que dá prazer, dá progresso. Elas ecoam que música dá fruta elétrica.

Brincando num parque de diversões cheio de palavras as piruetas são muitas. Para tocar no radinho, critérios de qualidade são demandados. Mas a galera goiana que tem produzido música atualmente entende bem dos instrumentos, da criatividade, da identidade própria e do alicerce que impulsiona grupos musicais de garagem para EPs, primeiros discos, segundos, carreira afora.

E é isso que a goianiense Carne Doce tem feito, e com maestria –– diga-se de passagem. A agenda de 2014, a exemplo, impressiona os ouvidos e o tanque de gasolina de quem acompanha a banda, que vive perambulando pelos quatro cantos de Goiânia (e em outros Estados) para curtir o som elétrico. A figura se completa noutras peças, quando diferentes nomes e assuntos se apresentam, mostrando o que é preciso para ter espaço no cenário musical brasileiro.

A Carne Doce nasceu no leito de um casal, Salma Jô e Macloys Aquino, que estão juntos há quase seis anos. Ele tocava na Mersault e na Máquina de Escrever. Salma cantava na Galo Power. Num dia de 2012, se foram as bandas, mas não a vontade de compor. Debaixo do mesmo teto, foi fácil. Veio ali um arranho no violão, outro na garganta. Veio uma canção, refrão de poesia. Veio repertório, sonho de carreira, projeto de estrada. “E aqui estamos, projetando”, diz Mac.

Pergunto sobre as influências e como elas imergem no que é tocado nas apresentações/shows.

— Salma cresceu ouvindo Edith Piaf, Nina Simone, Elis Regina e outras grandes cantoras, por influência da mãe. Eu escutei muito rock na adolescência, mas gosto de dissonantes da música brasileira. O Aderson é um baixista versátil e tem uma pegada de rock mais antigo. O João Victor e o Ricardo, guitarrista e baterista da banda, são estudiosos, escutadores inveterados de música, gostam de brincar com ritmos e variações melódicas. Então, o que sai é uma “freetura” — brinca o artista com a palavra “free”, do inglês, cuja tradução é “livre” e com a palavra “feitura”. Uma livretura. E acrescenta que “não há hegemonia, não dá para dizer que há algo parecido com um artista ou uma escola específica”.

Quanto à qualidade do som goiano, o artista bate forte com as baquetas: “Sim, qualidade técnica é indiscutível”. E continua:

— Nos últimos anos, houve mais acesso a melhores equipamentos e a técnicas também. As bandas são indiscutivelmente mais profissionais, têm performances com pretensão de excelência. Quanto à qualidade artística e estética, essa é sempre discutível. Tem gente que acha que piorou, que o acesso aos bens e às técnicas foi inversamente proporcional à criatividade. Para mim, essa relação tecnologia versus criatividade é verdadeira, mas não é a única variável para definir a cena. Melhorou demais; temos letras mais profundas, poesias melhores, canções e arranjos mais bonitos. Mas eu sou obrigado a ser otimista. Afinal, estou no “rolê”. Preciso acreditar na qualidade do que faço, do que fazem nossos amigos e contemporâneos.

No interim, quem perambula pelas veias da cidade encontra aqui e acolá palavras e mais palavras em inglês – vale até o “flamboyant”, francês. Nas raízes dos festivais, então, “the thing” é mais presente. Mas, no dia a dia, o velho e atualizado português fica na língua do “ocê” e “cê”. Nos refrãos, a poesia se adocica no dicionário falado pelos brasileiros. E a língua é uma das peças que vai completando o quebra-cabeça.

— Cada um fala por si, mas sei que alguns colegas compõem em inglês porque querem fazer aquele som tal qual é na origem mesmo; querem soar como bandas americanas ou inglesas e o português pode não se encaixar nessa perspectiva. Para outros artistas, a letra é só um acessório para a harmonia instrumental e optar pela língua estrangeira é uma maneira de deixar o texto camuflado, fora de destaque. Já outros assumem que até gostariam, mas têm dificuldade de compor em português ou que se sentem muito comprometidos em elaborar e cantar uma mensagem literal, que será compreendida tão imediatamente — encaixa Mac, cuja formação foi nas salas de uma escola de Comunicação. Ele se formou em Jornalismo e quase em Arte Dramática, agregando poéticas. E o português tem dado novas ideias, não é Salma?

Gente que troca mas por mais
Que não faz idéia
Que põe acento em ideia
Gente genial demais

Gente que tirou acento de ideia
Que tira as nossas ideias
Se não tiverem acentos normais

                                   (Salma|Mac)

As estrofes acima abrem o primeiro álbum da banda, que comunica e instrumentaliza assuntos tão velozes quanto os de um clique. Além de “Ideia”, outras letras provocam o terreno atual. O abecedário do dicionário português vale mais para a Carne Doce.

— Como as letras são muito importantes no nosso projeto, o português também é. Acho possível fazermos músicas em outras línguas, mas nosso ponto de partida tinha que ser o português. Temos uma característica que alguns jornalistas chamaram de confessional e que não seria coerente com a escolha por uma língua estrangeira — diz.

Muitos acreditam que o inglês é a chave para outros países. Ainda assim, o português abre outras portas: “Quanto à repercussão além-fronteiras, há Portugal, mas parece haver interesse em outros países europeus também. Pela experiência de amigos de Goiânia, como o Boogarins, que fizeram uma grande turnê pela Europa e Estados Unidos este ano, cantar em português foi um elemento a mais, algo de exótico, de ‘novo’”.

A afeição está nos shows, no backstage. As bandas goianienses têm demonstrado, umas com as outras, cordialidade, admiração. Carne Doce mesmo tem lá suas adorações e elas marcam o caminho de quem vive de música por aqui.

— As relações são de status mesmo, como existem entre atores, artistas plásticos, executivos do mercado financeiro, políticos. São oportunidades de aprendizado, troca de experiências e de informações sobre o meio. O primeiro contato com a Shotgun, por exemplo, foi assistindo ao show, curtindo e, depois, trocando ideia no camarim, bolando shows juntos, que espero que continuem (viu, moçada!). Ficamos amigos dos Hellbenders, donos do estúdio onde gravamos, e passamos a admirá-los. Mas temos uma relação mais íntima com a Luziluzia e com o Boogarins.

A Luzi compartilha dois integrantes, o João e o Ric, com a Carne Doce. Os outros dois integrantes da Luzi, Rapha e Benke, são da Boogarins, com quem inclusive a banda tem uma canção composta em conjunto, esmiúça Mac. “Os admiramos como artistas e os temos como grandes referências na música, mas também na vida. Somos amigos, gostamos de cada um deles, das pessoas que são.”

Os goianos conhecem Goiânia?

— Tem mais gente no shopping e no show sertanejo que no pub que toca banda independente — diz ele. — E os pubs de rock também não se restringem às bandas independentes, senão fechariam. Não há público. Precisam fazer festas com DJs ou atrações cover. Realmente, tem banda demais, banda boa, de estilos variados, tem casas boas, estúdios, festivais entre os melhores do Brasil, que movimentam milhares de pessoas. Mas a cena independente não é um mercado consolidado como o sertanejo não, longe disso.

— E dá para viver de música na capital do pequi? — pergunto. A reposta tem lá seu desconcerto, sua incerteza, o que demonstra os ossos do mercado musical goiano:

— Como assim? Tocando apenas em Goiânia? Uai, rapaz, imagino o Fernando Perillo ou a Belkiss Spenciere respondendo a essa pergunta. Acho que sim. No nosso caso, não. A gente gosta muito daqui, de viver aqui, mas para viver de fazer essa música que a gente faz, provavelmente, teríamos de tocar mais fora que aqui.

 “Não seríamos o que somos em outro lugar”, diz guitarrista, Mac | Foto: Venâncio Cruz


“Não seríamos o que somos em outro lugar”, diz guitarrista, Mac | Foto: Venâncio Cruz

E, para tocar em palcos doutros lugares, precisou nascer aqui. Ele demonstra sua gratidão:

— Tivemos poucas experiências fora de Goiânia, mas fomos muito bem acolhidos no Rio ou em Florianópolis [onde já se apresentaram], por exemplo. Acho que morar em São Paulo facilita contatos e viagens; é mais fácil sair dali para qualquer parte do Brasil ou do mundo, que de Goiânia, por questão de infra e logística mesmo. Mas, para gente, foi fundamental estar em Goiânia, não teríamos nos conhecido, formado essa banda, não seríamos o que somos em outro lugar — e isso é fácil perceber. Afinal, a tão popular “Sertão Urbano” canta bem suas raízes.

Aqui no mato
Vai ocupando o concreto
Os bichos pastam
Onde há de haver mais prédios
Condomínios que prometem
O prazer do mato dentro da cidade
Mato dá prazer

Ver tombar no horizonte
Sem mais perigos o sol
Olha esse céu
Quando sonhamos ele assim
Empilhando olhares pro nosso jardim?
Mas quem é que não quer, enfim
Que venha o progresso?
O progresso é mato

No barbecue envenenado
Na carga o câncer, na carne cara
Já nem se sabe quanto se paga
E a quem se paga
Pra manter nosso destino de crescer
Quanto mais alto está o céu
Mais alto está você
Que vai pro mato pra espairecer
Pra esquecer esse ser tão urbano
                                           (Salma|Mac)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.