O passeio da criatura pelo tempo

O fascínio exercido pelo ser criado em laboratório sobre o imaginário coletivo deu vida longa não só ao livro, mas também à sua autora, Mary Shelley

O inglês Sean Bean (dir.), famoso como Lord Stark de “Game of Thrones”, faz o perturbado detetive John Marlott em “As Crônicas de Frankenstein” | Foto: Reprodução

Na série “As Crônicas de Frankenstein”, criada pelos ingleses Benjamin Ross e Barry Langford em 2015 para o canal ITV Encore, e cuja primeira temporada está em cartaz na Netflix, ambientada em Londres em 1827, o detetive John Marlott se depara com o livro de Mary Shelley, “Frankenstein – Ou o Prometeu Moderno”, ao investigar a origem de um crime.

Marlott, interpretado por Sean Bean (Lord Stark, de “Game of Thrones”), não sabia do que se tratava. “Conhece isso?”, perguntou o investigador ao jornalista Boz. “Frankenstein? E quem não conhece?”, respondeu Boz. “Eu. Até ontem à noite”, disse Marlott. “O senhor não viu a peça, estrelada por Edmund Peake? Foi sucesso de bilheteria, até ser proibida por blasfêmia”, disse o jornalista.

A referência ao teatro na ambientação da série é uma clara mensagem de que a obra de Mary Shelley logo caiu nas graças do público, e quando o cinema surgiu no final daquele século, não demorou muito para absorver para sempre seu conteúdo de terror.

Em 1910, houve a primeira adaptação para o cinema feita por Thomas Edison, um curta-metragem que sobreviveu aos tempos e pode ser visto no Youtube. Em 1931, foi produzido o primeiro longa homônimo sobre o romance, dirigido por James Whale, imortalizando o ator inglês Boris Karloff no papel do monstro terrível.

Robert de Niro também já fez a criatura, na versão de Kenneth Branagh, que interpretou o criador, em 1994. Em 2014, “Frankenstein: Entre Anjos e Demônios”, dirigido por Stuart Beattie, apareceu com uma pegada gótica com Aaron Eckhart fazendo o monstro que tenta salvar a humanidade, puxando para o heroísmo latente do personagem na criação original.

Mais recentemente, em 2015, o filme “Victor Frankenstein”, com James Macvoy, focou no drama do criador, mas trouxe à tona o mesmo universo de terror de Mary Shelley.
Essas e tantas outras aparições mostram que o monstro de Mary nunca saiu de cena. Ele está em performances de dança e em espetáculos grandiosos como no “Royal Ballet”, de Londres, em comerciais de TV, nas aulas de bioética, em paródias, canções, videogames.

E de vez em quando aparecem versões que transmutam sua condição de monstro criado adulto e gi­gan­tesco, como no filme muito po­pular “O Jovem Frankenstein”, dirigido por Mel Brooks, e o trash “O Nosso Amigo Frankenstein”, de 1991.

A autora e seu monstro
Por ocasião de seu bicentenário, a criatura está em voga. Ela e sua autora. Agora mesmo, Mary Shelley ganhou uma cinebiografia, intitulada “A Storm in the Stars” (Uma tempestade nas estrelas, em tradução livre), produzida no final do ano passado, com lançamento previsto para 25 de maio nos EUA.

A trama de “A Storm in the Stars” foca a relação amorosa entre Mary e seu marido, o poeta Percy Bysshe Shelley. Mas é impossível falar da autora e não mencionar seu monstro, tanto quanto falar do monstro e não falar da autora. Por isso mesmo, a série inglesa “As Crônicas de Frankenstein” mistura as duas coisas e cria um ótimo produto.

A série tem uma trama primorosa. Em 1827, no desfecho de uma operação policial à beira de um rio, o investigador da polícia fluvial John Marlott se depara com o corpo de uma criança. O cadáver tem o pescoço costurado ao tronco, bem como cada um dos membros, e os antebraços às mãos.

Marlott começa a investigar o que houve, e entra cada vez mais num universo sombrio na periferia de Londres do começo do século 19, miserável e insalubre. Além de Mary Shelley, aparecem vários outros personagens reais da cena londrina da época, como William Blake, já velhinho e acamado, como autor do poema “The Little Girl Lost” (A Menina Perdida). O poeta morreria naquele ano mesmo.

O roteiro explora a questão do progresso da ciência e o combate ao charlatanismo. Londres como cenário é um retorno à terra natal da autora, que havia ambientado seu romance em várias terras estrangeiras como Suíça, Rússia, França, Alemanha e só um pedacinho em território inglês.

Surge então uma Londres em condições sanitárias precárias, com açougues a céu aberto, no meio da rua, com estoque de animais vivos junto com os que vão sendo abatidos e estripados ali mesmo. Crianças órfãs sobrevivem nas ruas por conta própria ou sendo exploradas por proxenetas e malandros de toda sorte, como num romance de Charles Dickens. A ITV já lançou a segunda parte da série, que em 2018 também foi exibida pelo canal A&E. (GGP)

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