O paraíso na perspectiva de Tatiana Salem Levy

Escritora investe em uma narrativa que alterna tempo e espaço para construir personagens que, distantes no tempo e juntas no espaço, precisam contar seus dramas

A escritora Tatiana Salem Levy | Foto: Pedro Loureiro/Divulgação

Andressa Barichello**
Especial para o Jornal Opção

Após um malfadado encontro fortuito com um homem, a escritora Ana deixa a capital carioca para se refugiar no sítio de Mercedes, uma diva do teatro. Mercedes oferece o quarto de sua filha, mas tanto essa mãe quanto essa filha não ficarão na casa. Quem está lá, atenta às necessidades de Ana, é Rosa, a empregada evangélica que cumpre seus deveres silenciosa; ela é mãe de Kelly e esposa de Sérgio.

Ana procura o sítio como refúgio, ao mesmo tempo em que a fuga da cidade tem como contraponto o desejo de se estabelecer temporariamente em um ambiente que a aproxime da história de suas ancestrais. Uma maldição foi lançada às mulheres de sua família, e Ana sente que precisa dar voz à mulher escravizada responsável por lançar tal sina.

Se num primeiro momento temos a impressão de que a obra enveredará para o romance histórico para tratar dos horrores da escravidão sob a perspectiva de uma mulher escravizada, logo se percebe que é do poder da palavra que a exploração da escritora Ana (e da escritora Tatiana Salem Levy) trata. As vozes da narradora e da personagem Ana confundem-se com frequência, e essa mistura salienta como qualidade o mergulho na confusão de vozes com as quais uma mulher esbarra quando se propõe ao gesto de refletir sobre suas ancestrais e contar-se.

A narradora e a personagem Ana evoluem amparadas, sempre, por outras vozes femininas, e ao mesmo tempo em que é preciso tomar partido dessas vozes será preciso desvencilhar-se delas. O jeito possível para a personagem Ana é, em meio a tantos ecos, construir uma história com sua própria pena (a pena, aqui, como marca da própria autoria e também dos próprios sofrimentos). O leitor, por sua vez, não se perde na trama em razão de tantas vozes – Tatiana Salem Levy cumpre o desafio de estabelecer paralelos, cronologias e coerências de modo muito próprio.

Título: Paraíso

Autora: Tatiana Salem Levy

Editora: Foz

Valor: R$ 37,90

Ainda que, como dito, não se constitua como romance histórico, “Paraíso” expõe o quanto a história individual de cada um se insere numa determinada narrativa histórica, tanto aquela do passado quanto a mais imediata, representada até mesmo por uma religião. A palavra contágio, assim, é palavra inescapável para entender o que da ordem de uma transmissão se busca rastrear e ao mesmo tempo evitar – no corpo e no tempo.

Enquanto escreve sobre as dores a que foram submetidos outros corpos femininos, a personagem Ana inclui na história o seu corpo, e quanto mais consegue incluí-lo – cabelos, nariz, seios – mais se aproxima de ver-se desenhada por inteiro, de posse de seu próprio desejo, ainda que nesse percurso um olhar masculino revele-se necessário. A descoberta do erotismo e do corpo próprio ultrapassa os primeiros anos da juventude, é coisa de mulher adulta, ainda que de alguma forma remeta às primeiras experiências, próprias, impróprias ou apropriadas.

Estupro, incesto, violência doméstica, assédio, comportamento de risco. Enquanto para todas as mulheres da história ter para si o olhar de um homem talvez surja como sinônimo de submeter-se a alguma violência, poderá Ana desejar um homem sem colocar em risco o próprio corpo, apossando-se dele?

Para a narradora, entre a história que se deseja escrever e a que precisa ser contada há uma lacuna. Mas será possível que mesmo quando se pensa contar uma outra história, conta-se talvez a mesma história, desdobrada em palavras inéditas?

Se for assim, o poder da palavra dita está em acreditarmos nela. A sina da qual se pretende fugir pode ser a da mulher cujas palavras foram silenciadas.

** Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” (Scortecci, 2014). É co-fundadora do projeto fotoverbe-se.com. Escreve resenhas e perfis

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