O “Paraíso” de Milton por Rubens Chinali Canarim

Engenheiro de formação e tradutor por vocação e paixão, o paulista que dedica seu tempo livre à poesia brinda seus leitores com uma nova e pujante versão de “Paraíso Perdido”, de John Milton, cânone da literatura inglesa

Gustave Doré, Representação de Satanás, a personagem central de “Paraíso Perdido” de John Milton c. 1866 | Imagem: Domínio Público

Rubens Chinali Canarim é um homem jovem que, na primeira daquelas decisões fulcrais com as quais irá se deparar ao longo da vida – a escolha da carreira -, optou por seguir o caminho dos cálculos e dos números. Paulista de Bauru, Rubens possui diploma de graduação, mestrado e doutorado em Engenharia Mecânica pela Faculdade de Engenharia de Bauru, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Temas herméticos para a maioria, como aspersão térmica e biomateriais, fazem parte do seu vocabulário e de seu dia a dia. Foi justamente quando dava continuidade aos seus estudos que foi fisgado desse universo cartesiano e arrebatado pela poética e cadência das palavras.

Rubens Chinali Canarim: engenheiro arrebatado pela poesia, dedica tempo livre a traduzir autores como Shelley e Blake | Foto: Divulgação/Acervo pessoal

“Trabalhei com traduções técnicas durante o percurso da minha pós-graduação. Como eu já tinha a literatura preenchendo todas as minhas horas vagas, foi apenas um passo para a trajetória de tradução de poesia”, recorda-se do hobby que começou há quatro anos e que agora toma corpo de atividade profissional. Milton surgiu para Rubens de suas leituras habituais, juntamente com outros poetas que admira e traduz, como Walt Whitman, Ezra Pound, Percy Shelley e William Blake. Agora, ele brinda seus leitores com sua versão de “Paraíso Perdido”, poema épico de John Milton, cânone da literatura inglesa e ocidental, equivalente a obras da envergadura de “Eneida”, “Ilíada”, “Lusíadas” e “Divina Comédia”. É tido como o maior poeta inglês, depois de Shakespeare.

Originalmente publicado em 1667 em dez cantos, “Paraíso Perdido” levou cerca de 12 anos para ficar pronto. Uma segunda edição foi publicada em 1674 em 12 cantos, com pequenas revisões do autor. O poema narra as penas dos anjos caídos após a rebelião no paraíso, o ardil de Satanás para fazer Adão e Eva comerem o fruto proibido da Árvore do Conhecimento, e a subsequente queda do homem. Mas o que mais se destaca no solilóquio de Milton é a força dramática na caracterização dos personagens; especialmente Satã, um dos mais dramáticos da literatura universal. Até então, a versão em português mais recente no mercado era a edição bilíngue publicada pela Editora 34 (São Paulo) em 2015, com tradução, posfácio e notas de Daniel Jonas.

O trabalho de Rubens está se desenrolando em partes e é disponibilizado pelo próprio em seu perfil no Facebook. A previsão de término é para 2020. A intenção é, neste ínterim, atrair a atenção de alguma editora e levar este conteúdo a um público mais amplo, por meio da publicação de um livro. “Apesar de dificilmente essa atividade ser remunerada, considero o ofício da maneira profissional. Nos últimos anos, muitas obras de poesia estrangeira têm chegado via tradução ao português nas livrarias e nos trabalhos acadêmicos. Acredito que isso sirva só para enriquecer a literatura brasileira, com as inúmeras formas de se fazer poesia de todos os lugares e de todas as épocas acessíveis aos nossos leitores”, avalia Rubens. Segundo ele afirma,  sua tradução é a primeira a ser feita em verso no Brasil, sendo que o Daniel Jonas da Editora 34) é português. As outras duas do século XX aqui feitas foram em prosa.

A questão da tradução é um assunto que sempre remete ao eterno conflito em torno da fidelidade do conteúdo transposto em outras línguas em relação à essência contida no idioma original. Rubens acredita que a afinidade com o texto original seja fundamental para que a tradução ocorra com a melhor correspondência possível, ainda que muitos sempre a considerem como uma “traição”. “É claro que ninguém consegue reproduzir o original, e nenhuma tradução o supera – e nem o pretende. Os tradutores conseguem atuar como filtros de imagens, mais ou menos coloridos, mais ou menos nítidos, com maiores ou menores brilho e contraste. Algumas dessas características – ou todas elas – acabam sendo ressaltadas em detrimento de outras, dependendo da experiência e da própria afinidade do tradutor.”

John Martin, Satanás Presidindo ao Conselho Infernal, c.1823-7 | Imagem: Domínio Público

Avaliação de quem leu

Adalberto de Queiroz – Jornalista e poeta

Ao compará-la com àquela que povoou minha juventude (Clássicos Jackson, vol. XIII), feita por António José Lima Leitão, fica muito distante. Sei que é conservadorismo meu ou atavismo de leitor antigo. Fica difícil, até mesmo a este leitor sessentão, compreender o anúncio do tema Miltoniano que se faz nos três primeiros versos: “Do homem primeiro canta, empírea Musa,/A rebeldia – e o fruto, que, vedado,/Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo…”. Onde aparecem aqueles pontos essenciais que C.S. Lewis destacou no seu histórico à edição de 1942, quando diz: “A queda do Homem, devida à desobediência de Adão e Eva no Jardim do Éden, residiu no pecado original do qual resultou o sofrimento da Humanidade (…) o interesse capital dessa narrativa, ressalta Lewis: ‘reside na maneira como John Milton desenvolve o tema'”. De qualquer forma, é louvável que se recrie a tradução para novos e jovens leitores. Prefiro continuar com a minha velha edição da W.M Jackson, Rio de Janeiro: 1952.

Pedro Mohallem – Tradutor e pesquisador de Letras pela USP

Nos 418 versos já publicados, a tradução de “Paraíso Perdido” por Rubens Chinali Canarim recupera a fluidez do épico de John Milton. Além de familiaridade com a língua de partida – já atestada em suas traduções primorosas do cânone, de Tennyson a Pound –, o tradutor tem também ouvido de poeta, o que lhe confere senso estético e estilístico apurados. O resultado é uma linguagem compassada no ritmo do decassílabo branco, solene, mas livre de arcaísmos, como se pode verificar na proposição inicial, na descrição pictórica do Inferno e nos amargos solilóquios de Satã, já disponíveis ao leitor. Trata-se certamente de uma contribuição valiosa para a obra de Milton em português. Evoé, Canarim!

John Milton, “Paraíso Perdido” – Livro 1, versos 1 a 270

Gustave Doré, The Heavenly Hosts, c. 1866 | Imagem: Domínio Público

“A Transgressão Adâmica, e o Fruto
Da Árvore Proibida, que provado
Trouxe a Morte no Mundo, e as nossas dores,
Perda do Éden, até que Homem maior
Nos restaure, e o Lugar feliz retome,
Canta, Musa Celeste, que no cimo
Do Orebe, ou do Sinai, lá inspiraste
O Pastor, que instruiu o Povo eleito,
De como no Princípio os Céus e a Terra
Do Caos se ergueram: Ou se o Monte Sião
Mais te agradar, e o Siloé que flui
Perto do Oráculo de Deus; Invoco
Teu auxílio ao meu Canto aventureiro,
Que não em média altura quer alçar-se
Por sobre o Monte Aônio, enquanto aspira
Ao que jamais tentou-se em Prosa ou Rima.
Tu, sobretudo, Espírito, que aos templos
Preferes puro e reto o coração,
Instrui-me, pois conheces; já no início
Eras presente, e abriste as fortes asas
Qual pomba, que chocando o vasto Abismo
O engravidou: O que há de treva em mim
Aclara, e o que é vil ergue e suporta;
Que eu, do alto desse Argumento imenso,
Possa afirmar a Providência Eterna,
E justifique Deus perante os homens.”

“Of Mans First Disobedience, and the Fruit
Of that Forbidden Tree, whose mortal tast
Brought Death into the World, and all our woe,
With loss of Eden, till one greater Man
Restore us, and regain the blissful Seat, 
Sing Heav’nly Muse, that on the secret top
Of Oreb, or of Sinai, didst inspire
That Shepherd, who first taught the chosen Seed,
In the Beginning how the Heav’ns and Earth
Rose out of Chaos: Or if Sion Hill 
Delight thee more, and Siloa’s Brook that flow’d
Fast by the Oracle of God; I thence
Invoke thy aid to my adventrous Song,
That with no middle flight intends to soar
Above th’ Aonian Mount, while it pursues 
Things unattempted yet in Prose or Rhime.
And chiefly Thou O Spirit, that dost prefer
Before all Temples th’ upright heart and pure,
Instruct me, for Thou know’st; Thou from the first
Wast present, and with mighty wings outspread
Dove-like satst brooding on the vast Abyss
And mad’st it pregnant: What in me is dark
Illumin, what is low raise and support;
That to the highth of this great Argument
I may assert Eternal Providence,
And justifie the wayes of God to men.”

“Conta, que o Céu nada te esconde à vista,
Nem o Fundo do Inferno, conta como
Nossos Pais, num Estado tão feliz,
Com tão grande favor dos Céus, caíram
Do Criador, transgredindo sua Vontade,
Sua restrição, Senhores desse Mundo?
Quem seduziu-lhes à revolta vil?
A Serpente infernal; que pela fraude
Feita de Inveja e Vingança, enganou
A Mãe da Humanidade, quando o Orgulho
Arrojou-lhe do Céu, com as suas Hostes
De Anjos Rebeldes, com os quais contava
Alçar-se em Glória acima de seus Pares
Crendo que igualaria com o Altíssimo
Se o opusesse; e ambicioso ergueu
Perante o Trono e a Monarquia de Deus
Guerra ímpia no Céu, Batalha altiva
Em vão esforço. Então o Poder Supremo
Em chamas o atirou do Céu Etéreo
Com ruína hedionda e combustão
À perdição sem fim, para sofrer
Em Grilhões de Adamante e arder no Fogo,
Quem desafiou o Onipotente em Armas.
Nove Espaços que medem Dia e Noite
Para os mortais, com sua horrenda equipe
Jaz conquistado, e rola em Golfo ígneo
Confundido e imortal: Mas sua sentença
Trouxe a ele mais ira: pois pensar
Que a alegria se foi e a dor não passa
O atormenta; e revolve os olhos vis,
Testemunhas do horror e da aflição,
Com orgulho obstinado e ódio firme:
Vê ao longe, qual Anjo, a Situação
Nefasta, uma devastação selvagem,
Um Calabouço horrível, circular
Qual Fornalha inflamada, cujas chamas
Não fazem luz, mas sim treva visível
Revelando visões de sofrimento,
Regiões de dor, sombras tristes, sem paz
Nem descanso, e nem mesmo a esperança
Que a todos vem; só a tortura sem fim
Incita, e o Dilúvio flamejante
Sempre ardendo um Enxofre inconsumido:
Tal lugar a Justiça Eterna fez
Aos rebeldes, dispondo sua prisão
Na treva extrema, e a parte que lhes cabe
Tão distante de Deus, da luz do Céu,
Quanto o Centro o é do Polo, triplamente.
Quão distinto o lugar de onde caíram!
Seus parceiros na queda, soterrados
Por Dilúvios, Tornados flamejantes,
Logo discerne, e junto a si revolto
Seu segundo em poder, segundo em crime,
Na Palestina mais tarde chamado
Belzebu. E a ele o Arqui-Inimigo ,
No Céu dito Satã, com verbo altivo
Rompe o silêncio horrendo e então começa.”

“Say first, for Heav’n hides nothing from thy view 
Nor the deep Tract of Hell, say first what cause
Mov’d our Grand Parents in that happy State, 
Favour’d of Heav’n so highly, to fall off 
From thir Creator, and transgress his Will 
For one restraint, Lords of the World besides? 
Who first seduc’d them to that foul revolt? 
Th’ infernal Serpent; he it was, whose guile 
Stird up with Envy and Revenge, deceiv’d 
The Mother of Mankind, what time his Pride 
Had cast him out from Heav’n, with all his Host 
Of Rebel Angels, by whose aid aspiring 
To set himself in Glory above his Peers, 
He trusted to have equal’d the most High, 
If he oppos’d; and with ambitious aim 
Against the Throne and Monarchy of God 
Rais’d impious War in Heav’n and Battel proud 
With vain attempt. Him the Almighty Power 
Hurld headlong flaming from th’ Ethereal Skie 
With hideous ruine and combustion down 
To bottomless perdition, there to dwell 
In Adamantine Chains and penal Fire, 
Who durst defie th’ Omnipotent to Arms. 
Nine times the Space that measures Day and Night 
To mortal men, he with his horrid crew 
Lay vanquisht, rowling in the fiery Gulfe 
Confounded though immortal: But his doom 
Reserv’d him to more wrath; for now the thought 
Both of lost happiness and lasting pain 
Torments him; round he throws his baleful eyes 
That witness’d huge affliction and dismay 
Mixt with obdurate pride and stedfast hate: 
At once as far as Angels kenn he views 
The dismal Situation waste and wilde, 
A Dungeon horrible, on all sides round 
As one great Furnace flam’d, yet from those flames 
No light, but rather darkness visible 
Serv’d onely to discover sights of woe, 
Regions of sorrow, doleful shades, where peace 
And rest can never dwell, hope never comes 
That comes to all; but torture without end 
Still urges, and a fiery Deluge, fed 
With ever-burning Sulphur unconsum’d: 
Such place Eternal Justice had prepar’d 
For those rebellious, here thir prison ordained 
In utter darkness, and thir portion set 
As far remov’d from God and light of Heav’n 
As from the Center thrice to th’ utmost Pole. 
O how unlike the place from whence they fell! 
There the companions of his fall, o’rewhelm’d 
With Floods and Whirlwinds of tempestuous fire, 
He soon discerns, and weltring by his side 
One next himself in power, and next in crime, 
Long after known in Palestine, and nam’d 
Beelzebub. To whom th’ Arch-Enemy, 
And thence in Heav’n call’d Satan, with bold words 
Breaking the horrid silence thus began.”

“Se és ele; Quão caído! quão mudado,
Quem nos Reinos da Luz resplandecia
Em brilho transcendente sobre tantas
Miríades brilhantes: Se em aliança,
Pensamentos, conselhos, igual ânsia
E risco na Empreitada Gloriosa
A mim te unistes, na miséria tens
Igual ruína: vês da Fossa agora
Quão alta a queda, e forte ele provou
Ser seu Trovão: quem saberia a força
Desses Braços terríveis? Nem por esses,
Pelo que inflige o Vencedor Potente
Em sua ira, eu me arrependo ou mudo,
Mesmo mudado em lustre; a mente firme,
O alto desdém, o mérito injuriado
Levaram-me à disputa com o supremo,
Arrastando comigo inumerável
Força de Espíritos armados, que ousam
Detestar seu reinado, em meu favor,
E opuseram poder à onipotência
Em Luta dúbia nos Campos do Céu,
Tremendo o trono. Perde-se a batalha?
O resto não; a Mente inconquistável,
O estudo da vingança, o ódio imortal,
E a bravura de nunca submeter-se
Ou ceder: E o que mais não se derrota?
A glória não me extorquirá o poder
Nem a raiva. Rogar, implorar graça,
Ajoelhar-me, endeusando seu poder,
Quem duvida do Império por terror
De seu Braço, isso sim é rebaixar-se,
Vergonha e ignomínia muito além
Da queda; por Destino, essa Divina
Força, essa Empírea forma jamais falha,
Por provar nesse evento em não piores
Armas, na previsão tão superados,
Na ânsia resoluta do sucesso
Vamos travar por força ou fraude Guerra
Ininterrupta ao grande Adversário,
Que Triunfa, e desfruta o seu reinado
Solitário na Tirania do Céu.”

“If thou beest he; But O how fall’n! how chang’d
From him, who in the happy Realms of Light 
Cloth’d with transcendent brightness didst out-shine
Myriads though bright: If he Whom mutual league,
United thoughts and counsels, equal hope
And hazard in the Glorious Enterprize,
Joynd with me once, now misery hath joynd 
In equal ruin: into what Pit thou seest
From what highth fall’n, so much the stronger prov’d
He with his Thunder: and till then who knew
The force of those dire Arms? yet not for those,
Nor what the Potent Victor in his rage 
Can else inflict, do I repent or change,
Though chang’d in outward lustre; that fixt mind
And high disdain, from sence of injur’d merit,
That with the mightiest rais’d me to contend,
And to the fierce contention brought along 
Innumerable force of Spirits arm’d
That durst dislike his reign, and me preferring,
His utmost power with adverse power oppos’d
In dubious Battel on the Plains of Heav’n,
And shook his throne. What though the field be lost?
All is not lost; the unconquerable Will,
And study of revenge, immortal hate,
And courage never to submit or yield:
And what is else not to be overcome?
That Glory never shall his wrath or might 
Extort from me. To bow and sue for grace
With suppliant knee, and deifie his power,
Who from the terrour of this Arm so late
Doubted his Empire, that were low indeed,
That were an ignominy and shame beneath
This downfall; since by Fate the strength of Gods
And this Empyreal substance cannot fail,
Since through experience of this great event
In Arms not worse, in foresight much advanc’t,
We may with more successful hope resolve 
To wage by force or guile eternal Warr
Irreconcileable, to our grand Foe,
Who now triumphs, and in th’ excess of joy
Sole reigning holds the Tyranny of Heav’n.”


“Falou-lhe o Anjo Apóstata, com dor,
Gabando-se, abalado em desespero:
Logo responde o seu Parceiro audaz.
Ó Príncipe, Chefe de tantos Tronos,
Levaste armados Serafins à Guerra,
A feitos tão terríveis, Destemidos,
Pondo em risco o perpétuo Rei do Céu;
Puseste à prova sua Supremacia,
Se a tem por força, Acaso ou por Destino,
Bem vejo e assim lastimo o evento atroz,
Que em triste derrocada e vil derrota
Nos fez perder o Céu, e a forte Hoste
Prostrou em tal horrível destruição,
Qual Deuses e Essências Celestiais
Sofrem: a mente e o espírito se mostram
Invencíveis, e já o vigor retorna,
Mesmo com a Glória extinta, a nossa graça
Aqui engolida em tal miséria eterna.
Mas se o Conquistador (que agora creio
Por força Onipotente, pois jamais
Força menor excederia a nossa)
Deixou o espírito e a força intactos
Para sofrer e suportar as dores,
Bastando à sua ira vingativa,
Ou servir-lhe melhor quais seus escravos
Por direito de Guerra, em seus negócios
No coração do Inferno obrar no Fogo,
Ou cumprir suas missões no escuro Abismo;
De que adianta, se nós ainda sentimos
A força indiminuta, ou o ser eterno
Suportando essa eterna punição?
Respondeu-lhe apressado o Arqui-Inimigo.”

“So spake th’ Apostate Angel, though in pain, 
Vaunting aloud, but rackt with deep despare: 
And him thus answer’d soon his bold Compeer.
O Prince, O Chief of many Throned Powers, 
That led th’ imbattelld Seraphim to Warr 
Under thy conduct, and in dreadful deeds 
Fearless, endanger’d Heav’ns perpetual King; 
And put to proof his high Supremacy, 
Whether upheld by strength, or Chance, or Fate, 
Too well I see and rue the dire event, 
That with sad overthrow and foul defeat 
Hath lost us Heav’n, and all this mighty Host 
In horrible destruction laid thus low, 
As far as Gods and Heav’nly Essences 
Can perish: for the mind and spirit remains 
Invincible, and vigour soon returns, 
Though all our Glory extinct and happy state 
Here swallow’d up in endless misery. 
But what if he our Conquerour, (whom I now 
Of force believe Almighty, since no less 
Then such could hav orepow’rd such force as ours) 
Have left us this our spirit and strength intire 
Strongly to suffer and support our pains, 
That we may so suffice his vengeful ire, 
Or do him mightier service as his thralls 
By right of Warr, what e’re his business be 
Here in the heart of Hell to work in Fire, 
Or do his Errands in the gloomy Deep; 
What can it then avail though yet we feel 
Strength undiminisht, or eternal being 
To undergo eternal punishment? 
Whereto with speedy word th’ Arch-fiend reply’d.”

“Caído Querubim, que vil ser fraco
No Agir ou no Sofrer: guarda a certeza,
Jamais o bem será nossa missão,
Mas sempre o mal nosso único deleite,
Contrários à vontade soberana
Que resistimos. Se essa Providência
Buscar de nosso mal gerar o bem,
Nosso trabalho é perverter tal fim,
E do bem achar meios para o mal;
Que ocorra com frequência, e então
O aflija, se eu não falho, e assim perturbe
Os alvos de seus íntimos conselhos.
Mas vê, o Vencedor irado chama
Seus Ministros de caça e de vingança
Para os Portões do Céu: a Tempestade
Sulfúrea desferida, dissipou
A onda ígnea que do Precipício
Do Céu nos derrubou, e seu alado
Trovão de Raios rubros e ira intensa
Talvez gastou suas setas, e cessou
Seus urros pela vasta Profundeza.
Que não nos passe a chance, se o desprezo
Ou a fúria satisfeita nos conceda.
Vês o Plaino selvagem e ermo ao longe?
A sede da desolação, sem luz,
Salvo as lívidas chamas que cintilam
Tão pálidas e horríveis? Afastados
Do espasmo destas ondas flamejantes,
Repousemos, se aqui há algum repouso,
E reunindo as aflitas Potestades,
Decidamos um meio de ferir
Nosso Inimigo, e reparar as perdas,
Superar tal Calamidade atroz,
Quais reforços ganhamos da Esperança,
Ou qual resolução do desespero.”

“Fall’n Cherube, to be weak is miserable
Doing or Suffering: but of this be sure,
To do ought good never will be our task,
But ever to do ill our sole delight,
As being the contrary to his high will
Whom we resist. If then his Providence
Out of our evil seek to bring forth good,
Our labour must be to pervert that end,
And out of good still to find means of evil;
Which oft times may succeed, so as perhaps
Shall grieve him, if I fail not, and disturb
His inmost counsels from thir destind aim.
But see the angry Victor hath recall’d
His Ministers of vengeance and pursuit
Back to the Gates of Heav’n: the Sulphurous Hail
Shot after us in storm, oreblown hath laid
The fiery Surge, that from the Precipice
Of Heav’n receiv’d us falling, and the Thunder,
Wing’d with red Lightning and impetuous rage,
Perhaps hath spent his shafts, and ceases now
To bellow through the vast and boundless Deep.
Let us not slip th’ occasion, whether scorn,
Or satiate fury yield it from our Foe.
Seest thou yon dreary Plain, forlorn and wilde,
The seat of desolation, voyd of light,
Save what the glimmering of these livid flames
Casts pale and dreadful? Thither let us tend
From off the tossing of these fiery waves,
There rest, if any rest can harbour there,
And reassembling our afflicted Powers,
Consult how we may henceforth most offend
Our Enemy, our own loss how repair,
How overcome this dire Calamity,
What reinforcement we may gain from Hope,
If not what resolution from despare.”

“Assim Satã ao seu Parceiro próximo,
A fronte erguida sobre a onda, e os Olhos
Com brilho faiscante, e as outras Partes
Prostradas no Dilúvio, longas, grandes,
Por milhas flutuando, em porte imenso
Como as Fábulas chamam os seus monstros,
Titãs, Gigantes, que guerrearam Jove,
Briareu ou Tifeu, cujo Covil
Era encontrado em Tarso, ou mesmo o Monstro
Dos mares Leviatã, por Deus criado
O maior dos que nadam no Oceano:
Se no sono de espumas da Noruega,
Seu Esquife entrevado, crê o Piloto
Ser uma ilha, os Navegantes contam,
Fixando a Âncora em suas escamas
Atraca a sotavento, enquanto a Noite
Veste o mar, e a manhã sonhada atrasa:
Assim se estende imenso o Arqui-Inimigo
Nas correntes do Lago ardente, sem
Erguer sua fronte, mas isso a vontade
E a permissão do Céu onipotente
Deixou à solta a seus sombrios desígnios,
Que com seus reiterados crimes possa
Amontoar sua pena, enquanto busca
O Mal alheio, e enraivecido veja
Como o seu mal serviu para trazer
O bem sem fim, a graça e a compaixão
Ao Homem seduzido, e a si causando
O triplo, confusão, ira e vingança.
De pronto, ergue do Lago sua robusta
Estatura; afastadas pelas mãos,
As chamas pontiagudas vão rolando
Em ondas, e deixando um Vale horrendo.
Expandindo suas asas alça voo
Ao alto, impondo sobre o Ar sombrio
Que sente o peso estranho, e à Terra seca
Pousa, como se a Terra ardesse sempre
Sólida, qual o Lago em fogo líquido;
Tal tom detinha, como quando a força
Do vento subterrâneo move um Monte
Rasgado do Peloro, ou o lado aberto
Do Etna troante, cujo combustível
E entranhas carburentes fazem Fogo,
Que a fúria Mineral sublima, alçando
O Vento, e deixa o fundo chamuscado
Em fumo e podridão: Assim repousa
A planta dos pés vis. Seguiu-o seu Par,
Gabando de escapar da enchente Estígia,
Quais Deuses, renovada a força própria,
Não por arbítrio do Poder.” 

“Thus Satan to his neerest Mate
With Head up-lift above the wave, and Eyes 

That sparkling blaz’d, his other Parts besides 
Prone on the Flood, extended long and large 
Lay floating many a rood, in bulk as huge 
As whom the Fables name of monstrous size, 
Titanian, or Earth-born, that warr’d on Jove, 
Briareos or Typhon, whom the Den 
By ancient Tarsus held, or that Sea-beast 
Leviathan, which God of all his works 
Created hugest that swim th’ Ocean stream: 
Him haply slumbring on the Norway foam 
The Pilot of some small night-founder’d Skiff, 
Deeming some Island, oft, as Sea-men tell, 
With fixed Anchor in his skaly rind 
Moors by his side under the Lee, while Night 
Invests the Sea, and wished Morn delayes: 
So stretcht out huge in length the Arch-fiend lay 
Chain’d on the burning Lake, nor ever thence 
Had ris’n or heav’d his head, but that the will 
And high permission of all-ruling Heaven 
Left him at large to his own dark designs, 
That with reiterated crimes he might 
Heap on himself damnation, while he sought 
Evil to others, and enrag’d might see 
How all his malice serv’d but to bring forth 
Infinite goodness, grace and mercy shewn 
On Man by him seduc’t, but on himself 
Treble confusion, wrath and vengeance pour’d.
Forthwith upright he rears from off the Pool 
His mighty Stature; on each hand the flames 
Drivn backward slope thir pointing spires, and rowld 
In billows, leave i’th’midst a horrid Vale. 
Then with expanded wings he stears his flight 
Aloft, incumbent on the dusky Air 
That felt unusual weight, till on dry Land 
He lights, as if it were Land that ever burn’d 
With solid, as the Lake with liquid fire; 
And such appear’d in hue, as when the force 
Of subterranean wind transports a Hill 
Torn from Pelorus, or the shatter’d side 
Of thundring Aetna, whose combustible 
And fewel’d entrals thence conceiving Fire, 
Sublim’d with Mineral fury, aid the Winds, 
And leave a singed bottom all involv’d 
With stench and smoak: Such resting found the sole 
Of unblest feet. Him followed his next Mate, 
Both glorying to have scap’t the Stygian flood 
As Gods, and by thir own recover’d strength, 
Not by the sufferance of supernal Power.”

“É esta a Região, o Solo, o Clima
Disse o Arcanjo perdido, este o lugar
Trocado pelo Céu, as trevas tristes
Pela luz celestial? Que seja, agora
O Soberano ordena e rege o justo:
É melhor apartar quem lhe igualou
A razão, quem na força pôs-se acima
Dos seus iguais. Adeus felizes Campos,
Deleite eterno: Salve horrores, salve
Mundo infernal, e tu profundo Inferno
Recebe o novo Dono: Quem jamais
Muda sua mente por Espaço ou Tempo.
A mente é o seu próprio lugar, e em si
Do Inferno faz um Céu, do Céu um Inferno.
Que importa onde, se eu sou sempre o mesmo,
E mais o quê, senão menor que aquele
Que o Trovão fez maior? Aqui seremos
Livres; o Onipotente não o construiu
Por inveja, e nem vai nos expulsar:
Reinaremos seguros, e a ambição
De reinar vale mais, mesmo no Inferno:
Reinar no Inferno, e não servir no Céu.
Por que deixamos nossos fiéis amigos,
Os sócios e parceiros dessa perda
Prostrados no Lago do esquecimento
Sem chamá-los a repartir conosco
Esta infeliz Mansão, ou outra vez
Unir as Armas, ver o que podemos
Reaver no Céu, ou perder mais no Inferno?”

“Is this the Region, this the Soil, the Clime,
Said then the lost Arch-Angel, this the seat
That we must change for Heav’n, this mournful gloom
For that celestial light? Be it so, since he
Who now is Sovran can dispose and bid
What shall be right: fardest from him is best
Whom reason hath equald, force hath made supream
Above his equals. Farewel happy Fields
Where Joy for ever dwells: Hail horrours, hail
Infernal world, and thou profoundest Hell
Receive thy new Possessor: One who brings
A mind not to be chang’d by Place or Time.
The mind is its own place, and in it self
Can make a Heav’n of Hell, a Hell of Heav’n.
What matter where, if I be still the same,
And what I should be, all but less then he
Whom Thunder hath made greater? Here at least
We shall be free; th’ Almighty hath not built
Here for his envy, will not drive us hence:
Here we may reign secure, and in my choyce
To reign is worth ambition though in Hell:
Better to reign in Hell, then serve in Heav’n.
But wherefore let we then our faithful friends,
Th’ associates and copartners of our loss
Lye thus astonisht on th’ oblivious Pool,
And call them not to share with us their part
In this unhappy Mansion, or once more
With rallied Arms to try what may be yet
Regaind in Heav’n, or what more lost in Hell?”

William Blake, A Tentação e Queda de Eva, 1808 | Imagem: Domínio Público

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