O par de botinas vendido pelo turco Salim a Zé Custódio
19 setembro 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Naqueles tempos em que nas vendas de secos e molhados em cidade pequena se vendia de tudo — de querosene a rapadura, de fumo de rolo a botina —, o turco Salim mantinha seu comércio na rua principal de uma pequena cidade do interior de Goiás.
Turco, diga-se logo, era como o povo chamava qualquer árabe que aparecesse por aquelas bandas. Salim era libanês, mas já tinha desistido de explicar a diferença.
Numa tarde de calor de rachar mamona, entrou na venda o Zé Custódio, sujeito conhecido por pechinchar até em velório. Por isso mesmo ganhara o apelido de Zé Custoso.
— Boa tarde, seu Salim.
— Boa tarde, Zé Custódio! Que você querer hoje?
— Tô precisano duma botina.
Salim abriu um sorriso.
— Botina? Tenho um maravilha! Couro legítimo! Muito bonita! Muito forte! Você vai morrer com ela no pé!
Zé Custódio logo desconfiou.
— Uai, num quero morrê agora não. Quero uma que dure bastante.
— É isso! Dura muito! Botina muito excelente. Olha aqui.
Salim colocou sobre o balcão um par de botinas marrons, lustrosas como tonsura em cabeça de padre.
Zé Custódio pegou uma, apertou, virou, bateu com o dedo na sola.
— Quanto?
— Para você, amigo antigo, preço especial. Cem mil-réis.
Zé Custódio arregalou os olhos.
Salim bateu a mão no balcão. — Não tem fiado! Zé Custódio, porém, não desistiu. — Façamo um negócio. — Que negócio? — Eu levo a botina hoje. No fim do mês eu pago. — Qual mês? — Qualquer um. — Não! — Então no fim do ano
— Cem mil-réis? Tá achano que eu sou dono de fazenda?
— Não, não. Você é amigo. Preço de amigo.
— E se eu fosse inimigo?
Salim pensou um instante.
— Duzentos mil-réis.
— Então vamo continuá amigo.
Salim riu.
— Você gosta de brincar, Zé Custódio. Quanto você quer pagar?
— Cinquenta.
— Cinquenta? Não dá! Só o couro custa isso!
— Então vende o couro e me dá a botina de presente.
Salim coçou a cabeça.
— Você é muito sabido.
— Num é sabido, não. É que eu sou pobre.
Salim pegou a botina novamente.
— Olha qualidade! Costura forte. Sola boa. Essa botina não entra água.
Zé Custódio olhou desconfiado.
— E se eu entrá nela?
— Entra também! Muito espaço!
— Tô vendo que o senhor tá vendendo até espaço agora.
— Você experimentar. Calça.
Zé Custódio tirou o sapato velho, colocou a botina e deu três passos pela venda.
— Apertou?
— Apertô nada.
— Então tá boa!
— Tá boa demais. Tô sentindo até vontade de comprá.
— Então compra!
— Só que tem um problema.
E o dinheiro? Zé arregalou os olhos, como se tivesse acabado de ouvir uma grande ofensa. — Uai, seu Salim! O senhor quer desfazer o negócio agora? — Desfazer? Eu quer receber! — Mas o senhor disse que era preço final
Qual?
— Eu num tenho dinheiro.
Salim ficou sério.
— Ah, Zé Custódio… como eu pode fazer negócio assim?
— Mas tenho uma proposta.
— Qual?
— O senhor me vende fiado.
— Fiado? Não!
— Por quê?
— Porque você nunca paga!
— Isso é mentira.
— Quando você pagou última vez?
Zé Custódio pensou.
— Não lembro.
— Eu lembra! Foi na época que ainda tinha imperador!
— Pois então tá vendo? Já faz tempo demais. O senhor tá precisano atualizá a contabilidade.
Salim bateu a mão no balcão.
— Não tem fiado!
Zé Custódio, porém, não desistiu.
— Façamo um negócio.
— Que negócio?
— Eu levo a botina hoje. No fim do mês eu pago.
— Qual mês?
— Qualquer um.
— Não!
— Então no fim do ano.
— Não!
— No próximo ano.
— Também não!
— Então o senhor me diz quando é que quer recebê.
Salim olhou para ele.
— Nunca!
Zé Custódio sorriu.
— Pronto! Agora chegamo num acordo.
Salim quase caiu sentado.
— Você é pior que advogado!
— Advogado cobra consulta. Eu só tô conversano.
O comerciante respirou fundo e resolveu mudar de estratégia.
— Zé Custódio, eu vai fazer preço bom. Setenta mil-réis. Último preço.
— Sessenta.
— Não!
— Sessenta e cinco.
— Não!
— Sessenta e oito.
— Não!
— Sessenta e nove?
Salim hesitou.
— Está bem. Sessenta e nove.
Zé Custódio sorriu, satisfeito.
— Fechado.
Salim embrulhou as botinas.
— Agora paga.
Zé Custódio ficou parado.
— Pagar o quê?
— As botinas! Sessenta e nove mil-réis!
— Mas nós num combinamo sessenta e nove?
— Sim!
— Então tá combinado.
— E o dinheiro?
Zé Custódio arregalou os olhos, como se tivesse acabado de ouvir uma grande ofensa.
— Uai, seu Salim! O senhor quer desfazer o negócio agora?
— Desfazer? Eu quer receber!
— Mas o senhor disse que era preço final.
— E é!
— Então pronto. O preço final é sessenta e nove.
— Eu sei! Sessenta e nove mil-réis!
— Isso mesmo.
— Então me dê o dinheiro!
— Eu?!
— Uai! O senhor é que tá vendendo a botina. Eu tô só comprando.
Salim bateu a mão na testa.
— Zé Custódio! Você tem que pagar!
— Ahhh… agora eu entendi!
— Finalmente!
Zé Custódio meteu a mão no bolso, remexeu, remexeu e tirou um lenço, dois botões, um pedaço de fumo e uma moeda de tostão.
— Só tenho isso.
Salim ficou vermelho.
— Você não tem dinheiro?
— Dinheiro, não.
— Então por que veio comprar botina?
Zé Custódio calçou novamente o par, deu dois passos e abriu um sorriso.
— Porque eu tava precisano mesmo.
— E como você vai pagar?
O matuto apontou para os pés.
— O senhor falou que a botina era boa e que durava muito.
— Sim!
— Então o senhor pode esperá. Quando eu tivé dinheiro, eu pago.
— Quando?
Zé Custódio abriu a porta da venda.
— Quando a botina acabar.
— E quando vai acabar?
O matuto olhou para as botinas novas, deu uma risadinha e respondeu:
— Pelo jeito que o senhor falou bem dela, acho que vai durar bastante.
E saiu andando.
Salim correu até a porta:
— Zé Custódio, volta aqui! Você não pagou!
O matuto, já no meio da rua, virou-se e gritou:
— Uai, seu Salim! O senhor num disse que era negócio bom? Agora aguenta!
Salim ficou parado na porta, olhando o freguês desaparecer.
Depois voltou para dentro, pegou o livro-caixa e escreveu:
“Zé Custódio— 69 mil-réis — venda fiada.”
Pensou um pouco, riscou e escreveu embaixo:
“Mercadoria perdida.”
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.


