O noir “viajandão” de Pynchon

Sob a influência de Robert Altman, Paul Thomas Anderson adapta para as telas o livro “Vício Inerente”, do escritor norte-americano

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Cezar Santos

Paul Thomas Anderson está escalado no pequeno time de autores hollyudianos que preservam concepção autoral na confecção de seus filmes. Tem no currículo trabalhos interessantíssimos como “Boogie Nights” (1997), “Mag­nó­lia” (1999) e “Sangue Negro” (2007) — “Magnólia”, no meu en­tendimento, talvez seja o me­lhor filme de Hollywood da última década do século 20.

Para seu mais recente trabalho, Anderson buscou inspiração em “Vício inerente”, livro do norte-americano Thomas Pynchon (pu­blicado em 2009, editado no Bra­sil pela Companhia das Letras no ano seguinte, em tradução de Caetano Galindo). Pynchon, se alguém não sabe, é um escritor que não se deixa fotografar nem dá entrevistas; há quem diga que ele não existe, que é um pseudônimo. É um Salinger ainda mais re­cluso, ou tal qual os brasileiros Ru­­bem Fonseca e Dalton Trevisan.

Verter o texto pyncheriano para as telas é uma tarefa que muitos cineastas talvez considerassem impraticável. As palavras iniciais do livro, em discurso na terceira pessoa do narrador, são as palavras iniciais do filme, em off na voz da personagem que detona a ação:

“Ela veio pelo beco e pela escada dos fundos como sempre tinha feito. Havia mais de um ano que Doc não botava os olhos nela. Que ninguém botava. Naquela época era só sandália, a parte de baixo de um biquíni estampado de flores, camiseta desbotada da Country Joe & the Fish. Esta noite ela estava toda de uniforme das planícies, cabelo bem mais curto do que ele lembrava, exatamente com a aparência que jurou que jamais teria.

“É você, Shasta?”

“Ele acha que está pirando.”

“Acho que é só essa sua nova embalagem.”

Certo, loira bonita, voz em off, cenário soturno… claro, é um filme noir que você começou a ver. Talvez você se lembre de Da­shiel Hammet e terá razão. O cli­ma é dos noir derivados da literatura de Hammet e Raymond Chan­dler, claramente homenageados por Pynchon em “Vício Ine­rente”. O cenário é a Califórnia no início dos anos 1970, aliás, pa­no de fundo de outros dois romances de Pyn­­chon: “Vi­ne­­land” e “O lei­lão do lote 49”.

A diferença, como consta da apresentação do livro, é que, “en­quanto es­tes livros registravam o auge do Flower Power, Pyn­chon agora explora o outro movimento da curva, a hora que o impulso começa a ceder, e que as forças contrárias àquela revolução cultural sui generis mostram a que vieram.”
P.T. Anderson faz uma soberba reconstituição de época, tanto de ambientes quanto de figurinos. Podemos ver o quanto eram horríveis as roupas e os cortes de cabelo dos anos 70. Em compensação, é magnífica a música. Em sua versão fílmica, o diretor desconsiderou, pelo menos de forma mais explícita, a profusão de citações à cultura popular que há no livro.

A história começa com Shasta (Katherine Waterston), uma gata!, pedindo socorro a Doc Sportello (Joaquin Phoenix), seu ex-namorado, um detetive particular que vive em eterna viagem movida a erva, a tal ponto que nunca se sabe quando ele está sóbrio ou delirando. Shasta diz que há uma conspiração para matar seu amante, um barão do ramo imobiliário (Eric Roberts). Segundo ela, estão nessa trama a própria esposa do figurão e o amante.

Depois de pedir ajuda, Shasta some. Doc, claro, ainda é apaixonada pela ex. Ele começa a investigação mais no intuito de encontrá-la. Se a trama inicial é uma possível tramoia imobiliária, mais e mais subtramas vão sendo agregadas ao enredo. A história é contada de forma linear, mas a confusão se dá pela profusão de personagens e delírios viajandões de Sportello, traduzidos visualmente em cenas absurdas, oníricas.

Aparecem figuras as mais estranhas, com nomes esquisitos, típicos da fauna humana de Thomas Pynchon. A cada sequência, Doc fuma unzinho. Seu olhar carrega o eterno ar de quem está ali, mas não está, entendeu? Tremendo ator, esse Phoenix, que dá um ar catatônico ao seu personagem, misto de fragilidade e de incredulidade mesmo diante das mais adversas situações.
A propósito, a expressão vício inerente não tem a ver diretamente com o hábito tabagista de Doc. Refere-se a apólice de seguro marítimo sobre todo risco que você não pode evitar: que ovos quebrem, que chocolate derreta, que vidros quebrem… rsss….

Joaquim Phoenix e Reese Whiterspoon: o estranho casal formado por um hippie sujo e uma moça limpa | Foto: Warner Bros/Divulgação

Joaquim Phoenix e Reese Whiterspoon: o estranho casal formado por um hippie sujo e uma moça limpa | Foto: Warner Bros/Divulgação

Doc é perseguido pelo FBI e também por um policial esquisitão, o tenente Bigfoot (Josh Brolin, impagável!), que sonha em colocá-lo atrás das grades. O policial é truculento no trabalho, mas totalmente submisso à patroa em casa. É claramente um homossexual enrustido, infeliz por não conseguir arrebentar a porta do armário, sempre mordendo/chupando uma banana caramelizada — mais fálico, impossível — em explícitas imitações de competentes felações.

No fundo, Bigfoot e Doc são almas gêmeas em lados opostos e meio sem querer trabalham juntos. Acabam chegando a uma corporação obscura chamada Caninos de Ouro. Trata-se de um sindicato de fachada de dentistas, criado para sonegar impostos, mas também envolvido em tráfico de drogas e à “reeducação” de esquerdistas.

Na verdade, o enredo de “Vício Inerente” não importa muito. É mais um filme de atmosfera, lúdico, tipo quebra-cabeça em que não se sabe qual é a figura a ser finalizada. Você vai acompanhando aquilo mais na base de saber aonde vai dar, se é que vai dar em algum lugar.

Personagens vão ficando pelo caminho, subtramas vão sendo abandonadas. Há gangues de nazistas motorizados; uma velha artista decadente que funciona como google humano (a tia de Sportello); prostitutas boazinhas viciadas em fazer sexo oral entre elas na frente do cliente como amostra grátis…

Não, não estou passando spoilers, porque o filme é tão mixórdico que não há prejuízo com possíveis spoilers. O registro é de comédia — drama cômico —, embora as piadas às vezes não funcionem muito bem. É também um exercício de homenagem e citação de P.T. Anderson ao seu mestre confesso Robert Altman. Como bem lembrou o crítico Pablo Vilaça (site Cinema em Cena), numa sequência há a recriação de “A Última Ceia” com músicos dividindo pizzas movidos pela mais óbvia das laricas (tem algo quase idêntico em M*A*S*H*).

Joaquin Phoenix em cena como o detetive Doc Sportello: movido a maconha e às voltas com organizações criminosas | Foto:  Warner Bros/Divulgação

Joaquin Phoenix em cena como o detetive Doc Sportello: movido a maconha e às voltas com organizações criminosas | Foto: Warner Bros/Divulgação

O elenco é, como diriam alguns, da pesada, com nomes do primeiro time fazendo papéis pequenos. Além dos protagonistas Phoenix e Brolin, desfilam na tela Reese Whiterspoon, Jena Malone, Owen Wilson, Benicio Del Toro e a cantora Joanna Newson (se você ouvir a voz dessa moça você pira!), entre outros.

Não é à toa que alguns ligam esse trabalho de Anderson a produções como “O Grande Lebowsky” (1998), dos irmãos Cohen, pelo tratamento nonsense, e, claro, aos neonoirs dos anos 70, como “O Perigoso Adeus” (1973), de Altman, e “Um Lance no Escuro” (1975), de Arthur Penn.
“Vício Inerente” não levou nada no Oscar deste ano, embora estivesse indicado à categoria de roteiro adaptado. Não é o melhor de P.T. Anderson, mas vale a pena vê-lo, quem sabe em preparo a uma leitura de Thomas Pynchon. Mas as duas horas e meia são excessivas. Com 90 minutos a parada estaria muito bem resolvida.

A fita esteve em cartaz em Goiânia por uma semana, no Lumiére Bou­gainville. Fiquei surpreso, não porque ficou apenas uma semana, mas que tenha vindo a Goiânia.

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