O niilismo humanista na poesia de Aidenor Aires

O poeta não se entrega a lamentos ou lamúrias. Apenas constata a tristeza da efemeridade humana, a insensatez da cultura predatória     

Itaney F. Campos

Especial para o Jornal Opção

“Tudo para o sonho é pouco./Tudo para a vida é nada./ Viagem, rota, travessia/ de um oco a outro oco”. — Aidenor Aires

Há uma nota de perseverante melancolia na poesia de Aidenor Aires. Não daquela melancolia romântica, decorrente das dores d’alma, do amor incorrespondido ou da ausência da pessoa amada. A melancolia ali caracteriza-se como uma postura diante da vida, um modo de estar no mundo, a insatisfação profunda com as contingências do existir. É o prisma por meio do qual se contempla a vida, a existência humana, a tragédia do cotidiano. E o poeta não se entrega a lamentos ou lamúrias. Apenas constata a tristeza da efemeridade humana, a insensatez da cultura predatória, que cava sua própria sepultura, ao afrontar a natureza.

Aidenor Aires, poeta e prosador: “À poesia devo tudo que tenho, que não é nada material, mas o conforto de entender o milagre da consciência que quer decifrar o mundo, a irmandade dos seres humanos, as utopias da paz e da justiça” | Foto:Facebook

Nas entrelinhas, o poeta baiano é, digamos, um filósofo do pessimismo. Mas não tece um verso cerebrino, conceitual, ou reflexivo. Sua poesia é marcada por um forte lirismo, fruto de um estro poético que filtra sua emoção e seu inconformismo, de sorte a não se derramar em versos de revolta, socialmente engajados ou, o que é pior, em poemas panfletários ou permeados de tons de autoajuda. Pelo contrário, a delicadeza de sua lírica é a seiva de sua produção poética. Seu tom confessional remete aos grandes poetas latino-americanos que cultivaram as cores do desencanto, nada obstante os ecos humanistas de sua voz mais profunda.

A riqueza de sua produção literária revela um poeta maduro, senhor do seu ofício, hábil e erudito manipulador das palavras. É fácil inferir dos seus poemas o viés da erudição, a longa convivência com os clássicos da literatura, mercê de suas referências implícitas ou explícitas à cultura greco-romana, aos mitos bíblicos e às formas da poética moderna. O emprego de metáforas de rara beleza e ricas figuras de linguagem, em versos de ritmo fluídico, atestam o alto nível de sua criação literária. Do meu ponto de vista, Aidenor é um dos poetas de maior estatura da literatura goiana, ombreando-se ao experiente crítico e poeta Gilberto Mendonça Teles, cuja reputação extrapolou os limites do Estado central, por revelar extraordinário conhecimento e domínio da técnica literária. É uma poética de fino lavor, a de Aidenor, que consegue ser, ao mesmo tempo, poeta de límpida poesia e talentoso prosador, além de revelar-se um sensível crítico da poesia alheia. Seus textos em prosa são leves, ágeis, instigantes, rescendendo a poesia, que é o terreno em que transita com maior desenvoltura.

Em texto confessional, o poeta escreveu, em 2005, em sua “Seleta Poética”:

“À poesia devo minha forma de ver a vida, e compreendo que entre todas as atividades que venho exercendo em meu dia terreno, é ela que melhor me identifica e revela. É uma companheira que se acercou de mim nos dias escuros da minha infância, sustentou minha frágil vida, iluminou e continua a apontar os meus caminhos.”

E acrescentou: “Nesses anos (1970/2005), tenho mantido devoção permanente à poesia”. E concluiu: “Procurei levantar meu canto contra as injustiças, contra a opressão, em favor da vida, do amor, da natureza, da paz e da convivência”.

E professa sua fé de poeta: “À poesia devo tudo que tenho, que não é nada material, mas o conforto de entender o milagre da consciência que quer decifrar o mundo, a irmandade dos seres humanos, as utopias da paz e da justiça”. Seu conhecimento da literatura latino-americana e brasileira é admirável, valendo lembrar que, por seu conhecimento multifacetário, foi eleito para integrar o IHGG e posteriormente foi escolhido, duas vezes, para presidir aquele Instituto, realizando gestões profícuas e reconhecidas.

Aidenor emergiu para o mundo em 30 de maio, na cidade de Riachão das Neves, no final da década de 1940, no sertão da Bahia, mais precisamente na zona rural de Riachão das Neves, no município de Cotegipe. Veio, ainda cedo, para Goiânia, jovem capital que representava o fascínio das oportunidades para a população sertaneja. Fez os estudos regulares na palpitante cidade, graduando-se em Letras Vernáculas e Direito, pela Universidade Católica de Goias, hoje Pontifícia Universidade Católica. Atuou como professor em várias instituições de ensino, entregando-se à leitura dos clássicos e dos modernos e exercendo uma militância cultural constante, que o levaram a dirigir, como presidente, a União Brasileira de Escritores-Seção de Goiás, o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e a Academia Goianiense de Letras.

Aidenor Aires: sua poesia é marcada por um forte lirismo, fruto de um estro poético que filtra sua emoção e seu inconformismo | Foto: Facebook

Ocupou vários cargos de direção e assessoramento na administração estadual, sem prejuízo de uma intensa atividade literária, sobretudo na seara da produção poética. Entre as obras publicadas, merecem destaque “Reflexões do Conflito”, editado em 1974, em parceria com o poeta Gabriel Nascente, do ano de 1970; “Estação das Aves”, editado em 1974 e em 1973 fez publicar “Itinerário da Aflição”, sobre o qual o crítico Gilberto Mendonça Teles ressaltou tratar-se de “uma via sacra poética em que a paisagem goiana e a mitologia pessoal do poeta se fundem num sincretismo cultural, cuja mais alta alegoria é o sentido mestiço que atravessa a realidade etnológica de Goiás”.

Quando Aidenor gestou “Amaragrei”, a filóloga Nelly Alves de Almeida registrou tratar-se o autor de “um poeta de grande força lírica e extraordinário domínio sobre as palavras. (..) um dos mais inspirados e expressivos poetas da realidade”.

Para o escritor e crítico Miguel Jorge, “a poesia de Aidenor Aires se multiplica à medida que tem a comunicabilidade a seu lado, e na medida que existe a serviço da humanidade, como berro nas sombras, ou um berro nas sobras dos escombros, antes que seja realmente tarde”.

Um livro surpreendente do poeta goiano é aquele intitulado “A Árvore do Energúmeno”, composto de oito contos que o professor José Fernandes, da UFG, de saudosa memória, qualificou como narrativas de alto nível. Mercê de sua dedicação à literatura e às entidades culturais de Goiás, das quais tornou-se um dos mais ativos integrantes, não se esquivando de assumir sua liderança, Aidenor tornou-se uma figura emblemática no cenário cultural do Estado, logrando também interessante repercussão nos meios literários além Paranaíba. É unanimemente festejado como um dos nossos melhores poetas, transitando também com brilho na crônica e nos ensaios literários. Sua pena firme, elegante, com toques de erudição, não se escusa de divulgar os valores da literatura feita em Goiás.

É um escritor de certa forma prolífico, reunindo um acervo de mais de doze livros publicados, prevalecendo os de poesia.

A propósito, o caudaloso poeta Gabriel Nascente, com mais de 50 títulos publicados, tem sempre um refrão ao referir-se a Aidenor: É um «baita» poeta. Em 1973, Aidenor é contemplado com o prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, pelo livro “Itinerário da Aflição”, também de poesia. No ano seguinte, 1974, repete a façanha, com “Lavra do Insolúvel”, publicado, como o anterior, pela Editora Oriente, de Goiânia. Amadurecido no seu ofício poético, sobrevivendo como professor e articulista nos jornais da capital, o poeta baiano traz à luz, em 1977, o seu “Rio Interior”, arrebatando com ele o prêmio Fernando Chinaglia.

A esse tempo já se tornara um agente cultural reconhecido nos meios literários goianienses, vindo a presidir entidades culturais de âmbito estadual. Com “Amaragrei”, de 1978, o bardo alcança o 1º lugar no Concurso Nacional de Literatura de Goiás. O livro, de poesia, é publicado pela Editora Ipiranga, de Brasília. Um olhar retrospectivo para a seara poética de Aidenor já permite delinear, então, uma poesia perpassada de angústia, uma lira de acordes aflitivos, a repercutir o caráter dadivoso da existência e seu veio angustiante; a dissonância da vida a ser celebrada e a sua inseparável tonalidade desafinante. Essa nota lancinante já se depreende dos títulos, que remetem à aflição, ao amargo, ao insolúvel, ao desencanto. A fragilidade da vida emerge da metáfora de “O Dia Frágil”, uma seleta poética de 2005. Antes disso, Aidenor trouxera a público o seu “Canto do Regresso”, de 1979, “Aprendiz de Desencantos”, pela Unigraf, em 1982.

Em 2001, vai a prelo “A Árvore do Energúmeno”, livro de contos cujo título foi retirado de um dos textos da coletânea, finalista de concurso promovido pela revista “Status”, de circulação nacional. Os poemas de “O Dia Frágil” e “XV Elegias” vêm à luz em 2005 e 2007, respectivamente, intercalados por uma “Seleta Poética”. O livro “Via Viator (Caminho e Caminhante)”, de poemas, de 1986, já remete, pelo título, à via sacra, o caminho do calvário percorrido por Jesus, o Nazareno, sacrificado pelo governo romano de Jerusalém. É um trajeto de dor, tortura e sofrimento. Esse livro, um poema composto de quatorze estações, ressoa, em certos momentos, as litanias ou ladainhas cristãs, fiel ao modelo e títulos eleitos. Ninguém explicita melhor o seu espírito do que o próprio poeta: “O canto amoroso, o abraço à natureza e à atmosfera local, talvez, de forma inaugural, contempla o cerrado, os bichos, os rios como matéria de uma construção lírica que insira o local, temática e linguisticamente, no canto herdado e recriado do Ocidente cristão”. “Via Viator” foi premiado em segundo lugar na bienal Nestlé de Literatura Brasileira, na categoria poesia, e foi editado pela Melhoramentos (SP). A segunda edição, de 2009, integrou a coleção Prosa e Verso, da Prefeitura de Goiânia.

O termo niilista pode não ser, a rigor, o melhor adjetivo para qualificar uma das facetas dominantes da poética de Aidenor Aires, mas é certo que não se pode discorrer sobre seus poemas sem se debruçar sobre esse aspecto, de expressiva relevância em sua obra. Não se trata aqui do niilismo em sua concepção nietszchiniana, aproximando-se mais dos conceitos da concepção schopenhauerianos de inutilidade da vida, do sofrimento contínuo e do completo ateísmo. E é aí que a coisa pega, pois, embora nunca se refira a Deus ou às promessas do paraíso pós-mortem, há uma atmosfera quase mística na poesia aidenoriana. Nela, a redenção está na própria condição humana, marcada pelo inelutável sofrimento a que está condenada. A poesia, ínsita à tragédia de sua existência, redime o homem. A consciência de sua milagrosa e dramática sina o justifica. Embora o nada seja o seu porvir, a celebração da própria vida, dolorosa que seja, é a sua premiação, o seu êxtase e a sua glória. Não raras vezes flagra-se o poeta no exercício do estilo e ritmos que remetem aos provérbios, ao cântico dos cânticos, às ladainhas católicas. Só na forma ou atmosfera, porque a criatividade vigorosa e o acentuado lirismo garantem a originalidade e força de sua produção poética. Nessas condições, é uma poesia niilista mas não desprovida de fé ou totalmente despojada de esperança. E um dos aspectos da esperança é a possibilidade de o homem reverenciar a natureza, reconhecer-se parte dela, respeitar as tradições e crenças milenares e louvar os povos originários.

Com “Lição de Treva”, lançado em 2019, o poeta escreve versos premonitórios, parecendo antever a praga que vinha a galope, com o seu terrível cutelo. Com efeito, no ano seguinte (2020), se estenderiam sobre o mundo, e especialmente sobre o Brasil, as trevas emanadas de mais de meio milhão de mortes, para falar só no país, ocasionadas por um vírus letal, de provável origem oriental: o Covid-19. Essa publicação é repassada de tons funéreos, exalando o niilismo latente na obra do poeta. A nuvem escura que soçobraça o estro lírico externa-se, às vezes, em sua essência, em estrofes como esta:

“Tudo para o sonho é pouco./Tudo para a vida é nada./ Viagem, rota, travessia/ de um oco a outro oco”. Ou em versos de extraordinária pungência, como estes:  «Nesta noite treze, de treda lua, posso emprestar meu ombro/ para a recepção das lágrimas,/ que em mim há muitos mortos, e todos lamentosos. / Há em mim um cemitério galopante/ onde irmãos sem nome fatigam sem descanso/ em sísmica agonia./ Não posso nesta noite treda de desavisada madrugada, recolher-me ao território de meu lirismo ímpio./ Não posso acotovelar-me, ou ajoelhar-me nos pedregulhos da infância./ Não invoco a mão materna, nem o paterno cuidado evanescido./ Que é tanta a dor no mundo, e consentida.» (“Não procurem minhas lágrimas em Paris” p.63).

Para concluir, a lírica de Aidenor é impregnada de aflição, de amaro, de desencantos, do insolúvel conflito e fragilidade que permeiam os caminhos do homem. As trevas são o clímax da humana existência. Sem embargo disso, há estações de pássaros e vento e vias de regresso ao rio interior de cada um.

Itaney F. Campos, escritor e crítico, é colaborador do Jornal Opção.

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