O melhor amigo do meu filho é um robô

Graças à interação social e habilidade de comunicação, robôs despertam a empatia dos humanos. Mas até que ponto esta relação transforma as emoções humanas?

Foto: Reprodução

Anderson Fonseca e Israel Furtado
Especial para o Jornal Opção

Aos três anos, Ana, minha filha, foi presenteada com um gato. Por semanas, animada, interagiu com ele, tratando-o — como ela mesma dizia — como amigo. Um dia, o gato desapareceu, e, apesar dos nossos esforços em achá-lo, não o encontramos. Ana passou os dias, triste, perguntando por seu amigo. Durante este tempo, pensei o quanto aquela relação a afetou.

Uma história semelhante foi escrita pelo autor de ficção científica Isaac Asi­mov, em 1940, esta intitulada “Robbie”. Um tanto mais cientificista ou futurista, quem sabe, Asimov conta sobre a amizade entre uma menina de oito anos, chamada Glória, e Robbie, um robô. Quando ele escreveu este conto, aos 19 anos, não imaginava que os problemas, ali abordados, se tornariam parte de uma preocupação a respeito do impacto psicológico e cognitivo da convivência de crianças com robôs domésticos.

O conto se inicia com Glória e Robbie brincando de esconde-esconde. Ela percorre a casa à procura do robô. Sem encontrá-lo, o acusa de trapaça (pois ele se escondia muito bem nos arbustos em torno do recinto) e ele, o amigo metálico, não esconde a tristeza pela acusação injusta. A menina, então, condoída, pede a ele que a leve para casa, afirmando que, se ele não a levar, não lhe contará histórias. Embora magoado, Robbie carrega Glória.

Para onde ela ia, ou o que fizesse na escola, quando chegava em casa, contava para o robô, que recebia com alegria as boas novas. De alguma forma, Glória ensinava a seu amigo metálico sobre a cultura humana, sua personalidade e saberes próprios, e ele absorvia. Apesar de não se comunicar verbalmente, os gestos transmitiam as emoções de Robbie. A menina o vê como uma pessoa, pois a emoção comunicada por ele, além de sua forma humanoide, o torna um ser vivo. Robbie era seu melhor e único amigo, o que incomodava a mãe, Gracie, que atribuía a falta de interação social da filha com outras crianças da mesma idade ao convívio com o robô.

Além disso, o fato de Glória o ver como “uma pessoa e não uma máquina”, preocupava muito a Gracie, a ponto de ela decidir livrar-se do robô. O marido, George, mesmo não concordando, aceita a decisão da esposa e substitui a máquina por um cachorro. A garotinha, depois de um dia feliz, volta para casa na esperança de rever o amigo e contar a ele como foi seu dia. Quando não o encontra, pergunta aos pais onde ele está. A resposta a entristece: Robbie havia fugido. A garotinha passa as semanas seguintes imersa em sua tristeza, chegando a perder dois quilos. A ausência de seu amigo a afetou profundamente.

A história de Glória e Robbie — ao menos em parte — não é diferente de muitas crianças, que têm, hoje, em suas casas, robôs. E, assim como Glória, a interação das crianças com estas máquinas transformará suas relações sociais, capacidades cognitivas e emoções.

Interação sócio-afetiva

Autor de ficção científica, Isaac Asimov escreveu, na década de 1940, uma história que já prenunciava a relação entre humanos e máquinas | Foto: Reprodução

Os comerciais dos robôs Buddy e Zenbo, que são produzidos e comercializados pela Asus, se inspiram no conto de Asimov. Vemos os robôs brincando de esconde-esconde pela manhã e, à noite, lendo histórias com as crianças. A imagem de uma família feliz, divertindo-se com o novo hóspede, cujas funções auxiliam a todos no desempenho de tarefas, é bastante receptiva. O sucesso da recepção da família ao novo hóspede atribui-se à empatia humana pelo que é vivo ou simula a vida. Este sentimento é despertado graças à forma humanoide e à expressão bimodal das emoções (através de rostos inspirados nos emoticons das redes sociais). Quando assistimos aos comerciais, é inevitável pensarmos nos efeitos psicológicos e cognitivos da interação de uma criança com um robô doméstico.

Em outubro de 2000, a Honda apresentou ao mundo o robô bípede Asimo, este criado para ser o companheiro de crianças e idosos. Apesar de caminhar a 9 km/h e realizar movimentos com as mãos, como abrir portas, ele não provoca muita simpatia, pois lhe falta um rosto que simule o humano e também não interage com as emoções.

Aí está o sucesso do robô Pepper — criado pela empresa francesa, Aldebaran Robotics, em parceria com a japonesa, Soft Bank — que reconhece as emoções humanas e age de acordo com elas. Pepper é um robô humanoide de 1,2m e 30kg, com braços e um rosto simpático sempre a sorrir. A narrativa se inicia com o robô recepcionando a dona com entusiasmo e ela, em retribuição, jogando o blazer sobre ele em sinal de raiva. Pepper abaixa a cabeça triste. A moça está chorando. O robô se aproxima e a surpreende imitando um susto. Ela ri. Entre o começo e aquele momento, Pepper refletiu o que fa­zer. Ela feliz, agradece com um forte abraço.

As narrativas seguintes contam a história em que Pepper é, ao mesmo tempo, agente e o espectador das emoções humanas. Para identificar as emoções e interagir de acordo, o robô tem tecnologia de reconhecimento de voz, além de caixas e sensores para leitura corporal. Os dados analisados em tempo real por um circuito de redes neurais levam-no a dar boas-vindas, rir, bater palmas, dançar, entre outras ações.

Já robôs como Buddy e Zenbo contam histórias para crianças, tiram fotos, realizam videoconferências, leem e-mails, dão lembretes e têm uma tela na cabeça que exibe uma cara com olhos e boca, o que torna possível comunicar as emoções e, assim, interagir.

A interação sócio-afetiva é a chave do sucesso dos robôs domésticos. Crianças autistas apresentam dificuldades para se comunicar com os amigos de classe, professores e até mesmo os pais, mas, quando expostas a robôs, interagem com elas facilmente. Por exemplo, a escola inglesa Topcliffe Primary, que tem 25% de alunos com autismo, recebeu os robôs Nao, da Aldebaran Robotics, para ensinar fonética e jogos de memória, às crianças autistas.

Apelidados de Max e Ben, eles desenvolvem nelas a interação social e a comunicação linguística. Baseados nessa experiência, as escolas públicas do Recife adotaram os robôs Nao para estimular a comunicação e o aprendizado de 276 alunos com autismo, de 3 a 15 anos. O resultado da interação de crianças autistas com os robôs humanoides é que, depois, passaram a também interagir com as outras crianças.

A Toyota criou o robô Kirobo Mini, de 10 cm de altura, para conversar com pessoas isoladas socialmente; este pequeno companheiro surge como uma alternativa à solidão cada vez maior no século 21.

Graças à interação social e habilidade de comunicação verbal, esses robôs despertam a empatia de humanos manifestando nestes um sentimento de afetuosidade. Mas até que ponto esta relação com a máquina transforma as emoções humanas? Como uma criança pode ser afetada?

Vinculo e ruptura

O que foi dito por Isaac Asimov décadas atrás vemos hoje, por exemplo, no algoritmo do Google, que aprende com o comportamento de cada usuário e se adequa a ele, de maneira individual | Foto: Reprodução

Imagine uma criança viver dos três aos 11 anos com um robô doméstico como Pepper, Buddy ou Zenbo, tratando-o como amigo, alguém que participa dos momentos importantes de sua própria vida, não apenas registrando-os, mas também atuando. Durante oito anos, ela conversou, brincou, compartilhou emoções, aprendeu e também ensinou ao robô. Ela jamais o viu como uma máquina, mas como uma pessoa. Desde pequena, essa criança interage com o robô, sabendo no íntimo que ele é diferente, mas o sentimento de empatia que despertou pela máquina, o torna vivo em sua consciência. Embora ele não seja humano, a história construída no seio da família, o fez especial. A criança educada pela máquina desenvolveu habilidades cognitivas e sociais. Quando completa 11 anos, seu robô “morre”. Sem dúvida, ela fica entristecida, assim como toda a família. A dor da morte do robô é forte demais para ela, pois o via como uma amigo com quem aprendeu e por quem foi educada.

A educação de uma criança com a participação de um robô pode gerar muitas transformações benéficas ao aprendizado. A interação com a máquina estimularia várias regiões do cérebro desenvolvendo novas conexões neurais. Se ela for educada com um robô doméstico poderá desenvolver a linguagem falada, cantada e escrita em um ambiente diversificado positivamente em sensações, cores, música e interações sociais, aprimorando, deste modo, suas capacidades cognitivas e memória. Este aprendizado também acontece se ela vê o robô como um professor paciente, estimulante, sábio, em quem possa confiar sua educação. E, sendo sempre desafiada pela máquina a criar soluções para problemas de lógica, o aprendizado é convertido em um interessante jogo.

Além disso, atividades físicas envolvendo brincadeiras, como a representada no conto de Asimov, contribuiriam para a saúde infantil, diminuindo o número de sedentários. Com o tempo, a criança despertaria pela má­qui­na uma afetuosidade, e este sentimento se­ria a porta para a construção de seu próprio conhecimento.

O que nos preocupa, apenas, é o grau de vínculo estabelecido e os efeitos de sua ruptura nas emoções infantis. A exposição precoce a esta tecnologia, em­bora contribua para o aprendizado, apresenta o risco de uma dependência emocional. A partir daí, podemos imaginar outra situação: que a responsabilidade pela educação da criança, seja avisá-la das tarefas, auxiliar nas resoluções dos problemas e contar histórias, se torne exclusiva do robô.
No artigo intitulado “Os novos professores”, publicado no livro “Visões de robô” (1994), Asimov afirma que cada criança teria “uma máquina pessoal de ensinar”, versátil e interativa. Esta máquina aprenderia com o usuário, modificando-se a cada resposta do estudante (hoje, este conceito chama-se aprendizagem profunda). Diferente de um professor humano, a cada pergunta, resposta e opinião dada pelo estudante, a máquina o conheceria suficiente para ajustar o conteúdo ao interesse do aprendiz, destacando os pontos que mais lhe chamam a atenção.

Asimov ainda diz que esta máquina pessoal para ensinar com sucesso deveria estar ligada a uma “biblioteca planetária”. As máquinas pessoais consultariam vídeos, livros, jornais, áudios, que existissem nessa biblioteca. O estudante veria o conteúdo na tela ou o imprimiria. O aprendizado, portanto, seria livre, e, por isso, os alunos poderiam especular e experimentar, como também inovar o conhecimento. E cada ideia nova seria transmitida à máquina, que aprenderia com o estudante ao mesmo tempo em que o ensinaria a partir de novas informações colhidas da biblioteca.

Anos depois, a visão de Asimov converteu-se no Google e em robôs pessoais. Robôs com aprendizagem profunda podem tanto ensinar como aprender com a criança, em uma aprendizagem interativa. Um exemplo de aprendizagem profunda é o site Netflix, onde o cliente escolhe uma quantidade de filmes dentro de uma categoria e a inteligência artificial da empresa, com base nos dados comportamentais do usuário, recomenda a ele outros filmes na mesma linha. O robô-professor com aprendizagem profunda moldaria o conteúdo do curso aos interesses do aluno, tornando o aprendizado estimulante. Isto afetaria a profissão de professor?

Na verdade, não. Os professores passam a ter um papel de orientação pedagógica, estabelecendo objetivos e ensinando conhecimentos que as máquinas não sabem transmitir, como o da pintura, escrita criativa, filosofia, entre outras das ciências humanas. Sem falar que o convívio social com outras crianças da mesma idade é primordial para o trabalho cooperativo, solidariedade e empatia.

Ainda que haja receio quanto à vivência de menores com robôs domésticos, eles não apresentam risco; ao contrário do que poderíamos imaginar, desenvolvem as emoções humanas. Se há risco, encontra-se apenas na dependência emocional e na mudança cultural da família, afetando para o bem ou para mal.

Quando Robbie desapareceu, Gracie acreditou que Glória esqueceria, mas sua importância era tamanha para a menina que a lembrança dessa amizade perdurou em sua memória por sete anos até, finalmente, o reencontrar. A história é fictícia, mas o que antes era ficção, hoje, é realidade. Por que, então, não imaginar suas consequências?

Anderson Fonseca é neuroeducador pela UNESA e escritor de ficção científica e fantástica; e Israel Furtado é engenheiro de software pela FJN.

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