O maravilhoso mundo da linguagem

“O Reino da Fala”, último livro de Tom Wolfe, é uma deliciosa investigação sobre a capacidade humana de falar e de criar pensamentos abstratos, que intriga evolucionistas e põe antidarwinistas na disputa sobre sua origem

Daniel Everett tomando banho de rio com seu amigo pirahã, no Amazonas, por volta de 2000: “não tinham, virtualmente concepção alguma de ‘futuro’ ou ‘passado’ e só sabiam contar até três”

Se Gay Talese escreveu “Frank Sinatra Está Res­fri­ado” sem trocar uma só palavra com A Voz, fazendo apenas o dever de ouvir as bocas certas, de averiguar os lugares com cuidado e checar detalhes, por que Tom Wolfe não poderia ser bem-sucedido escrevendo a história de 160 anos da procura pelo encaixe do fenômeno da fala na Teoria da Evolução, e expondo a rasteira que os evolucionistas supostamente levaram de um pesquisador “papa-moscas”?
Enfiado em seu terno branco, sentado em uma confortável poltrona, tomando um vinho caro, lendo muitos livros e eventualmente ouvindo um ou outro especialista, Wolfe escreveu seu último livro, publicado em vida, em 2016, “O Reino da Fala”, que no ano seguinte chegou ao mercado brasileiro pela editora Rocco (tradução de Paulo Reis, 192 páginas).

Nesse livro, o jornalista americano que faleceu na terça-feira, aos 88 anos, narra a história de como a fala não se encaixa na teoria darwinista, na visão dele e de alguns antropólogos e linguistas. Ele usa teses contrárias para mostrar como o fenômeno é complexo.

A maneira como Wolfe escolheu para narrar sua aventura pelo universo verbal é que é fascinante. Ele cobre todo o esforço dos evolucionistas, desde Darwin até Chomsky, para explicar a origem da capacidade humana da fala e do pensamento abstrato, enquanto pesquisadores contrários levantam questionamentos pertinentes.

Com seu estilo floreado e irônico, às vezes dando bordoadas, às vezes assoprando na vaidade dos inteligentes homens, Wolfe nos coloca dentro do maravilhoso mundo da linguagem. Sua prosa nos faz olhar ao redor para ver, ou pensar sobre, outros exemplos da maravilha que é o mundo carregado pela fala e pela escrita, sua bifurcação.

Espaço e no tempo

O estado da questão trabalhado por Wolfe é o seguinte: Charles Darwin publicou em 1859 “A Origem das Espécies”, dando início a um debate público sobre a evolução da vida na Terra, criando a mais duradora das teorias que até hoje reina com supremacia no mundo ocidental e adjacências.

Essa teoria diz que a vida animal e vegetal evoluiu de uma única célula por um processo de seleção natural que foi se partindo e dando origem a outras células mais complexas, competindo entre si, no espaço e no tempo, até que o planeta foi se povoando de bichos e plantas das mais variadas, ao longo de bilhões de anos.

Tudo é decorrente da evolução, inclusive o homem. Cada parte de qualquer animal ao longo dos milênios vai se adaptando, porque a natureza não desenvolve órgãos inúteis. E aí entra o quiproquó jamais solucionado pelos evolucionistas, segundo Wolfe. A fala não é um órgão. Além disso, a capacidade do pensamento abstrato e as nuanças que advêm dele podem ser presenciados na mais bruta besta que anda sobre dois pés.

Como explicar isso, se tudo advém da evolução, tudo decorre do passado, tudo está interligado ao processo de seleção natural, encadeado à origem das espécies? Como explicar que o homem “possuía um poder supremo (a linguagem) que nenhum animal já possuíra ou possuiria?”

Silêncio total na casa de Darwin. “Ele conseguia explicar o polegar opositor do homem, sua postura ereta e o crânio enorme, mas não era capaz de encontrar um só fiapo de evidência sólida que provasse que a fala humana evoluíra a partir de animais.”

Noé naturalista

O drama das explicações em meio à pressão sobre a teoria darwinista ia longe. Darwin era pressionado a toda hora para se explicar, e ele sabia que não podia falhar. “A fala tinha de ter alguma genealogia animal.”


Wolfe então aproveita para carregar seu texto de ironia e risinhos sobre o patriarca do evolucionismo. Para se explicar, diz Wolfe, Darwin “acelerou a imaginação ao máximo, e arrebanhou os animais juntos na sua cabeça, como um verdadeiro Noé naturalista, e foi inspecionando todos (…), até encontrar o que procurava (…) … linguagem, senso moral, pensamento abstrato, música, religião, autoconsciência … Tudo de que a mente humana era capaz, fosse o que fosse, Darwin encontrava uma origem primeva em algum animal”.

Em 1871, Darwin publicou “A Descendência do Homem”, onde explicou a origem da fala. “A linguagem, dizia Darwin, tivera origem nos cantos dos pássaros durante a temporada de acasalamento. O homem começara a imitar os pássaros, a capella. Pouco a pouco, ele havia começado a repetir certos sons dos cantos, com tanta frequência que seus sons passaram a representar certas coisas na natureza. Tornaram-se embriões de palavras, e o homem começou a criar uma ‘protolinguagem musical’.”

Obviamente, o que se narra aqui é o ponto de vista da ciência, é a aventura das explicações da evolução da vida sobre a terra pelo olhar dos cientistas, a cosmogonia científica. Em todo caso, para Wolfe e os detratores de Darwin, a explicação darwinista era um conto da carochinha. “Darwin continuava tão perplexo diante da origem da linguagem quanto o resto do mundo”, diz o jornalista.

O embate continuou. O século 20 chegou, e nada de alguém dar um passo adiante. Biólogos, antropólogos, linguistas, todo mundo falava uma coisa, e era logo rebatido por outra, e nada, absolutamente nada, pegava. Até que chegou Noam Chomsky e chutou a porta da cozinha.

“A linguagem não era algo que se aprendia. Você já nasce com um ‘órgão da linguagem’ embutido. O órgão começava a funcionar no momento em que você vinha ao mundo, tal como seu coração e seus rins, que já chegam bombeando, filtrando e excretando a mil por hora”, diz Wolfe, citando Chomsky.

Foi a partir daí que Chomsky desenvolveu a gramática universal (todas as línguas têm princípios estruturais comuns, que nos dão a capacidade de nos posicionar abstratamente no tempo e no espaço), em 1955, e a teoria da recursividade (encaixe de frases que se coordenam, podendo carregar infinitas ideias no pensamento), em 2002.

Os pirahãs

Em 2005, Chomsky “estava voando muito alto, na realidade, muito alto não descreve bem a altura, o homem estava… em… órbita”, diz Wolfe. E foi aí que entrou na história um misto de antropólogo e missionário americano chamado Daniel Everett. Ele publicou um artigo mostrando que a gramática universal era uma espécie de falácia, ao contactar os pirahãs, tribo indígena brasileira, que só sabiam falar no tempo presente. Ou seja, não usavam a recursão.

Eles “não tinham, virtualmente concepção alguma de ‘futuro’ ou ‘passado’” e só sabiam contar até três. Para Everett, a fala humana é um artefato, uma espécie de tecnologia inventada pelo próprio homem, e não parte de um processo de evolução natural. E os pirahãs são a prova de que a linguagem depende da cultura e do cultivo desse artefato.

É como se Everett tivesse desvendado o pulo do gato. E Wolfe o endossa com alegria. Em certa altura, Wolfe diz: “Outros missionários já haviam tentado converter os pirahãs, mas nunca tinham conseguido aprender a língua deles, graças às construções gramaticais estranhas, que incluíam marcantes oclusivas glotais e mudanças de tom, além de uma versão que consistia inteiramente de pios de pássaros e assobios…” Ôpa! Espera aí! Pios de pássaros? O que Darwin havia dito mesmo?

O interessante dessa história toda é que Everett acaba de lançar um livrão catatau sobre o assunto, intitulado “How Language Began: The Story of Humanity’s Greatest Invention” (Como nasceu a fala: a história da maior invenção da humanidade, em tradução livre), que estará nas livraras americanas a partir de setembro.

Certamente haverá desdobramentos dessa história, que apesar de todos os argumentos, só na cabeça de Wolfe e de antagonistas do evolucionismo Darwin falhou, assim como Chomsky, só porque uma tribo na Amazônia não sabe contar. E se eles forem uma espécie de elo perdido?

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