Jales Guedes Coelho Mendonça 

O historiador José Murilo de Carvalho (1939-2023), em seu livro “A Escola de Minas de Ouro Preto — O Peso da Glória” (Editora UFMG, 2002), analisa detidamente o referido estabelecimento de educação. No prefácio da edição, o historiador e professor Francisco Iglesias (1923-1999) assinala: “Duas instituições de ensino têm importância decisiva na vida de Minas Gerais: o Caraça e a Escola de Minas de Ouro Preto. […] Mais do que simples escolas, são unidades formadoras de determinada marca regional”.

Transplantando a passagem mineira para o vizinho contexto goiano, é lícito identificar significados assemelhados ao Caraça e à Escola de Minas no Liceu de Goiás e no Seminário Episcopal Santa Cruz, primeiros estabelecimentos de ensino secundário da província, instalados na antiga capital, respectivamente, em 1847 e 1872.

Segundo o professor Genesco Ferreira Bretas, na monumental obra “A História da Instrução Pública em Goiás” (Cegraf/UFG, 1991), o Liceu quase incorporou-se ao Seminário, diante do comando emanado de uma norma provincial de 1868. Tal fusão malogrou, ensina Bretas, sobretudo pelas finalidades díspares entre as duas casas do saber, porquanto a primeira ambicionava capacitar candidatos leigos para as academias (ensino superior) ao passo que a segunda buscava, em regra, formar sacerdotes, dentro dos princípios morais da Igreja Católica. 

Ronaldo Silva: um pesquisador competente | Foto: Arquivo pessoal

É verdade que o abrangente estudo do professor Genesco examinou, entre outros, tanto a trajetória do Liceu quanto a do Seminário. Contudo, resta alvissareira a publicação de uma investigação específica sobre o centro de formação do clero anhanguerino. Levada a efeito pelo padre Ronaldo Silva, profundo conhecedor da História da Instrução e da Igreja Católica em Goiás, tanto que possui mestrado em Ciências da Religião e doutorado em Educação pela PUC/GO, a tarefa merece ser comemorada.

 O livro intitulado “Seminário Santa Cruz — Berço da Cultura Goiana”, quinta obra do autor, divide-se didática e harmonicamente em sete capítulos. O inicial intenciona contextualizar a presença católica no território do que viria a ser a capitania de Goiás, enfocando a tentativa de catequização dos povos originários pelos missionários franciscanos e jesuítas, principalmente na confluência dos rios Tocantins e Araguaia, sem, contudo, acarretar a fundação de alguma escola na região.

Ato contínuo, o pesquisador Ronaldo Silva passa em revista pela criação em 1745 da prelazia de Sant’Ana de Goiás, transformada em 1826 em bispado por ordem do papa Leão XII, bem como pelas gestões eclesiásticas dos sete bispos de Goiás: 1) Dom Francisco Ferreira Azevedo; 2) Dom Domingos Quirino de Souza; 3) Dom Joaquim Gonçalves de Azeredo; 4) Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão; 5) Dom Eduardo Duarte Silva; 6) Dom Prudêncio Gomes da Silva e 7) Dom Emanuel Gomes de Oliveira.  

Seminário de Ouro Fino por Octo Marques

Homenagem ao deputado Felipe Santa Cruz

No segundo capítulo, certamente o mais denso, o autor debruça-se sobre o objeto de sua pesquisa e esquadrinha com segurança as nuances da criação do Seminário em 1860 pelo Imperador Dom Pedro II e sua instalação em 1872 por Dom Joaquim Gonçalves de Azevedo, sem prejuízo de detalhar o funcionamento intermitente do aludido estabelecimento educacional até meados da década de 1950.

Ao compulsar o produto final das investigações encetadas pelo pároco da arquidiocese de Goiânia, o leitor toma ciência da origem do nome dado ao Seminário, atinente a uma homenagem prestada ao deputado Felipe Antônio Cardoso Santa Cruz, entusiasta fervoroso do progresso intelectual de sua província.

Ademais, resta patente o realce do consulado de dom Eduardo Duarte Silva, quinto bispo de Goiás, por alguns motivos. Primeiro, pela edificação em Ouro Fino (distrito da Cidade de Goiás) de uma casa de férias para os seminaristas, o que inclusive teria consumido, de acordo com o Cônego Trindade, parte do patrimônio particular do citado sacerdote.

Segundo, em razão da transferência da Diocese para Uberaba/MG em 1896, motivada por uma série de conflitos políticos relacionados à difícil separação, nos albores da República, entre o Estado e a Igreja, além das rusgas entre os católicos e a oligarquia liderada por Leopoldo de Bulhões, majoritariamente vinculada à maçonaria e ao positivismo. A propósito, chegou a existir em Goiás uma legenda denominada de Partido Católico.

Terceiro, dom Eduardo Duarte, nos moldes de Dom Bosco, profetizou o município de Campinas/GO como lugar adequado para futuramente sediar a nova capital estadual.

Sobre o período do quinto bispo, seria um grave erro não registrar o testemunho de Victor Coelho de Almeida, em seu livro “Goiaz — Usos, Costumes, Riquezas Naturais” (RT, 1944, p. 57), a saber: “Do clero local D. Eduardo separou elementos de escol, tais como o cônego Inácio Xavier da Silva e os padres Pedro Ribeiro da Silva e Joaquim Confúcio de Amorim, naturais de Vila Boa, que cooperaram eficazmente no empenho alcançado, de elevar, quanto possível, o nível da cultura, disciplina e piedade do Seminário Episcopal de Santa Cruz, em Goiaz”.

Na sequência, o escritor salienta o nível intelectual atingido na instituição de ensino localizada no então recuado Oeste brasileiro: “Na verdade, tornou-se este, no gênero, um dos melhores estabelecimentos da América do Sul; e é lamentável que esse período de grandeza não tenha perdurado mais de cinco anos, porque cessou com a transferência da sede diocesana para Uberaba, em julho de 1896”. Arremata informando que o Seminário chegou a alcançar o número de 100 alunos à época.   

Extrai-se do segundo capítulo do “Seminário Santa Cruz — O Berço da Cultura Goiana” algumas coincidências marcantes entre Dom Eduardo Duarte Silva e Dom Emanuel Gomes de Oliveira, este o sétimo bispo de Goiás. A primeira e mais visível: Dom Emanuel transferiu o episcopado da Cidade de Goiás para Bonfim (hoje Silvânia) em 1926, repetindo o ato de Dom Eduardo exatos 30 anos depois. A segunda: envolveu-se ativamente na mudança da capital, ventilada, como visto, por Dom Eduardo, ao presidir a comissão incumbida de selecionar o local da nova sede administrativa. Como consequência de tal expediente político-administrativo, Dom Emanuel acabou incompatibilizando-se com o interventor federal, ao discordar da forma como se processou a preterição de Silvânia e a escolha de Campinas pela comissão.

Os capítulos três, quatro, cinco e seis abordam, respectivamente, as biografias e as gestões dos quatro arcebispos de Goiânia (dom Fernando Gomes dos Santos, dom Antônio Ribeiro de Oliveira, dom Washington Cruz e o atual dom João Justino de Medeiros Silva). Cumpre ressaltar, neste aspecto, a transferência do Seminário para Anápolis/GO em 1962 e, no ano seguinte, para Brodowski/SP. Por sua vez, em 1964, o centro de formação do clero goiano transferiu-se de vez para Goiânia, ante a construção de uma sede adequada para abrigar os seminaristas.

No entanto, mesmo em Goiânia, suas atividades foram novamente interrompidas em 1969, voltando apenas em 1976. Tais oscilações no funcionamento do estabelecimento acabaram resumidas poeticamente por Pedro Mendonça Fleury Curado, consoante transcrição do autor: “Morte e ressureição são uma constate nesta instituição”.

O sétimo e derradeiro capítulo elenca várias personalidades que estudaram no Seminário Santa Cruz ao longo de seus mais de 160 anos de existência. O extenso rol de vultos da história goiana e brasileira, a exemplo de Eugênio Jardim, João Teixeira Álvares, Joaquim Rufino Ramos Jubé, Leo Lynce e tantos outros, ajuda a comprovar a afirmação anterior de Victor Coelho de Almeida a respeito da dimensão do saber difundido no local: “No gênero, um dos melhores estabelecimentos da América do Sul”.     

Por fim, resta indene de dúvida que a obra “Seminário Santa Cruz — O Berço da Cultura Goiana”, da lavra do padre Ronaldo Silva, merece ser lida e analisada atentamente, tornando-se, doravante, fonte de consulta obrigatória para os interessados no tema.

Jales Guedes Coelho Mendonça é promotor de Justiça, doutor em História/UFG, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e autor do livro “A Invenção de Goiânia — O Outro Lado da Mudança” (UFG, 2018). É colaborador do Jornal Opção. O texto acima é o prefácio do livro, publicado com autorização do autor.