O “Livro das Mil e Uma Noites” e o fascínio da narrativa

De criação coletiva que remonta à cultura persa do século 9, antes de imergir no imaginário árabe e ser completada por copistas desde Bagdá e Cairo, obra engrandece com sua inclinação para o fantástico e com a ideia de que só a palavra salva a humanidade

Sherazade em pintura de Sophie Anderson (1823-1903). “Tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis” | Imagem: Reprodução

O “Livro das Mil e uma Noites”, clássico inconteste da literatura universal, praticamente fundou o realismo mágico. Mas fez muito mais que isso. Desde a versão magnífica da tetralogia traduzida direto do árabe por Mamede Mus­ta­fa Jarouche, cujo primeiro volume fo­ra lançado em 2005 e o último, em 2012, o leitor brasileiro pode constatar pegadas de outros clássicos, seja na forma, como “Os Irmãos Karamázov”, seja no conteúdo, como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e até “O Nome da Rosa”.

Além disso, o grau de intertextualidade, sobretudo com a cultura grega, é gigantesco. Outro paralelismo legítimo que se pode fazer é com o senso de humor nordestino, com personagens como Pedro Malasartes e João Grilo, em suas inúmeras artimanhas, que vieram de Portugal, mas que sem dúvida tiveram em seus atributos a seiva criativa das heranças árabe e helênica.

Como todo mundo sabe, mes­mo que seja de oitiva, o “Livro das Mil e uma Noites” tem como protagonista Sherazade, uma jovem corajosa, inteligente e libertária, que toda noite narra para o rei Shariyar, seu marido, histórias fascinantes com finais em suspenso para serem contados na noite seguinte e assim se livrar da morte.

A linha fina desse drama ocorre porque Shariyar descobrira que sua mulher anterior o traía com um escravo africano. Ao sair para observar se todas as mulheres se comportavam como a rainha, ele e seu irmão, que também havia sido traído, encontraram uma “bela jovem de membros gentis, um doce sorriso no rosto de lua cheia”, que os obrigou a transar com ela, senão acordaria o ifrit (gênio), seu amante, além de dizer a eles que “quando a mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la.”

Convencido de que toda mulher é pérfida, Shariyar decidiu que se casaria todo dia, matando sua mulher depois da consumação da primeira noite de núpcias. Ele assassinou várias, entre filhas de nobres, de chefes militares e de mercadores da cidade. Foi quando Sherazade, filha do vizir (primeiro-ministro) do rei, se ofereceu para ser a rainha, e criou essa artimanha de contar histórias inconclusas, confiando na sua capacidade de entreter.

E foram muitas histórias. Mas nada que ofuscasse o brilho de She­ra­zade. Ela “tinha lido livros de com­pilações, de sabedoria e de me­dicina; decorara poesias e consultara as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhece­dora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e entendido.”

Mesmo assim, Sherazade precisou de mil e uma noites para convencer o rei de que ele não conseguiria viver sem ela. O caráter redentor dessa história costurada com centenas de contos, poemas, fábulas e anedotas, é fecundo por mostrar que a narrativa salva a humanidade, por evidenciar que a palavra é a centelha dos deuses, capaz de transmitir a verdade.

“Conte-me sua história” é um imperativo recorrente no curso dessa narrativa. Contar história era um modo de se defender ou de se entregar à justiça, cuja verdade do relato era um salvo-conduto. Essa premissa é tão forte na essência do texto árabe que em certo momento alguém diz: “Nenhuma obra se realiza sem palavras”.

Soluções mágicas

Jarouche consultou quatro edições em árabe para traduzir a obra inteira. Elas se completam. Nelas, aparecem os manuscritos originais do ramo sírio (século 13), fonte usada para a tradução dos dois primeiros volumes, e do ramo egípcio (dividido em antigo e tardio, elaborado a partir do século 18). Uma curiosidade em torno da história das traduções do “Livro das Mil e uma Noi­tes” é que a primeira pessoa a traduzir diretamente do árabe alguns contos para a língua portuguesa do Brasil foi o imperador Dom Pedro II.

É bom lembrar que o “Livro das Mil e uma Noites” é uma obra coletiva, que remonta à cultura persa do século 9, antes de imergir no imaginário árabe e ser completada por copistas caprichosos desde Bagdá e Cairo. Esses copistas, para providenciar que houvesse de fato histórias que dessem para mil e uma noites, saíram à cata de contos e todo tipo de apetrechos textuais de outras publicações.

Eles rasparam livros como “Kalila e Dimna” e “Histórias Es­pan­tosas e Crônicas Maravilho­sas”, da própria literatura árabe, além de se inspirarem em vestígios de mitos gregos. O último volume do “Livro das Mil e uma Noites” está cheio de reverências aos grandes nomes da cultura helênica, não só da filosofia, como Sócrates e Aristóteles, mas também da medicina, como Hipócrates e Galeno, e da política, como Alexandre, o Grande, a quem os textos demonstram uma verdadeira adoração.

Um dos componentes mais fortes da narrativa é sua inclinação para o fantástico. Em muitas histórias, as soluções para os problemas narrados são mágicas. Entre os personagens enigmáticos do universo árabe está o pássaro roque, conhecido no Ocidente como fênix, que é capaz de renascer das cinzas.

O roque é uma ave gigantesca da mitologia árabe, que “carrega camelos e elefantes entre as unhas, e mora em revoadas na montanha de Qaf”. Esse pássaro é o verdadeiro dono do poder por trás do tapete mágico de Ala’uddin (Aladdin, para quem aprende com Hollywood), pois é o mestre do gênio da lâmpada. Ele aparece em vários outros relatos, como nos de Sindabad (Simbad, para os hollywoodianos).

No primeiro volume, há um conto que retrata bem o caráter fantástico dessas narrativas. Em uma das inúmeras histórias dentro de uma história dentro de outra história, um homem narra o que viu ocorrer, no palácio onde se hospedava, entre uma moça conhecedora de magia e um ifrit enganado por ela, que aparecera para cobrar satisfação. E a história se desenrola assim:

“Estávamos nessa situação quando vislumbramos o ifrit, já pousado no solo em forma de leão, tão grande quanto um boi, e nos enchemos de medo. A jovem lhe disse: ‘Fora daqui, seu cachorro!’ O gênio respondeu: ‘Você atraiçoou a mim e ao juramento. Não tínhamos combinado que um nunca desafiaria o outro, sua traidora?’ Ela lhe disse: ‘E por acaso eu juraria alguma coisa para você, seu maldito?’ O ifrit respondeu: ‘Então tome o que eu lhe trouxe!’, e, arreganhando as mandíbulas, correu em direção à jovem, mas ela rapidamente arrancou um fio de cabelo, balançou-o na mão, balbuciou algo entredentes, e o fio se transformou numa espada afiada com a qual ela golpeou o leão, cortando-o em duas partes. As duas partes saíram voando, mas restou a cabeça, que se transformou em escorpião. A jovem por sua vez adotou a forma de uma enorme serpente, e por algum tempo travou violenta luta com o escorpião, mas logo o escorpião se transformou em abutre e voou para fora do palácio; então a serpente virou águia e voou no encalço do abutre, desaparecendo por algum tempo. Mas logo o chão se fendeu, dele saindo um gato malhado que gritou, roncou e rosnou; atrás do gato saiu um lobo preto; lutaram no palácio por algum tempo, e então o lobo derrotou o gato; este gritou e se transformou numa larva, que rastejou e entrou numa romã jogada ao lado da fonte; a romã inchou até ficar do tamanho de uma melancia listrada, ao passo que o lobo se transformava num galo branco como a neve. A romã saiu voando e caiu no mármore da parte mais elevada do saguão, espatifou-se e seus grãos se espalharam todos; o galo avançou sobre eles e começou a comer os grãos, até que não restou senão um único grão escondido ao lado da fonte; o galo se pôs a cacarejar, gritar e bater as asas, fazendo-nos sinais com o bico que queriam dizer ‘ainda resta algum grão?’, e, como não entendêssemos o que dizia, ele deu um berro tão estrondoso que imaginamos que o palácio desabaria sobre nós. De repente o galo deu uma olhada e, vendo o grão ao lado da fonte, correu para ele a fim de engoli-lo.”

“E a aurora alcançou Sherazade (Šāhrāzād, como grafa a tradução de Jarouche), que parou de falar. Dinarzad (Dināzād) lhe disse: ‘Como é agradável e espantosa a sua história, maninha’, e ela respondeu: ‘Isso não é nada perto do que irei contar-lhes na próxima noite, se acaso eu viver e o rei me preservar.’”

Palavra e sexo

Dinarzad é a irmã de Sherazade cuja presença foi solicitada ao rei. A ideia era que Dinarzad ficasse embaixo da cama, enquanto os dois, rei e rainha, transassem. Quando terminassem, Dinarzad deveria sair de debaixo da cama e pedir uma história. E assim ocorreu até o fim. Foram mil e uma noites em que Dinarzad, ininterruptamente, presenciou de oitiva o deleite do sexo entre a irmã e o rei.

Com sua narrativa, em meio ao exercício do afeto e do sexo, Sherazade perpassa na alma do sultão uma espécie de reeducação sentimental, moral, sexual e política. Há uma humanidade descrita nessas narrativas que também é importante e que vai além do valor estético e da literariedade.

A narrativa não se faz em labirintos de técnica e forma como nos romances do século 20 do Ociden­te. Mas, que águas correm neste grande rio de sinestesia. Seu tecido verbal constrói uma série de imagens, cores, sabores e odores espetaculares dentro de um mundo mágico, de infinitas implicações. A geografia que circunscreve os contos é vasta, vai do Iraque, China, Índia, Arábia Saudita, Afeganistão, Turcomenistão, Irã (Pérsia), Argélia, Síria, Iêmen até o Egito.

O enfileiramento de provérbios geniais é uma das riquezas do livro. “O sabor da vida não sentem senão os loucos”, diz um deles. “Aquele que roga o perdão de seus superiores deve perdoar os pecados de seus inferiores”, diz outro. “Quem gasta sem calcular empobrece sem notar”, ensina ainda outro.

A poesia também é um elemento importante. Ela é o bálsamo no coração dos sujeitos dessas histórias, como diz um dos personagens: “Não tenho senão lágrimas copiosas e recitação de poesias”. Com a poesia, eles evocam a inspiração, expressam seus sentimentos. A poesia é uma força motriz na alma árabe desse tempo. Ela está presente na fala, nas citações (na memória). E em alguns contos, ela surge escrita em portas, tapetes, portais, jarras, cartas, bilhetes etc.

O pássaro roque é uma ave gigantesca da mitologia árabe, que “carrega camelos e elefantes entre as unhas, e mora em revoadas na montanha de Qaf” | Imagem: Reprodução

Intertextualidade

Os relatos são tão cheios de vida e tão organicamente bem costurados que não é raro o leitor terminar de lê-los e sentir necessidade de compartilhá-los. Sua polifonia facilita o despertar dessa vontade. A intertextualidade são seus poros mais refinados. No segundo volume, uma poesia recitada pelo ponto de vista de um morto, por exemplo, nos faz lembrar “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.

Em outra história, um sábio conselheiro do rei é traído por seus colegas e recebe a sentença de morte. Depois de implorar pela vida e não receber a misericórdia do monarca, ele diz ao rei que tem um livro que traz o segredo dos segredos. O rei fica interessado. O sábio diz que quando o rei o matar e cortar sua cabeça, ao folhear a sexta página do livro e ler as três primeiras linhas, a cabeça responderá qualquer pergunta que o rei lhe fizer.

O rei então seguiu o procedimento, e folheou as páginas do livro, que estavam meio grudadas. Por isso, ele teve de molhar as pontas dos dedos com saliva, repetidas vezes, até que se empapuçou de veneno e morreu. Essa premissa foi repetida em “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco, erudito demais para ter deixado passar tal solução e ter sacado por si mesmo.

As histórias de Sindabad e de Ala’uddin são as que mais oferecem elementos narrativos, com inúmeros argumentos. Sindabad é o marinheiro que se perde em viagens intermináveis pelo mar, e volta com muitas experiências vividas, entre elas a que ocorreu em uma ilha onde havia um “jovem ainda sem penugem nas faces, porém alto, bem alto”, que comandava um exército de macacos.

Edgar Rice Burroughs (1875-1950) pode não ter tido contato com o “Livro das Mil e uma Noites” e por conseguinte não ter se inspirado nesse trecho para criar Tarzan, em 1912, mas é pouco provável que não o tenha feito. Aliás, as aventuras de Sindabad podem ter inspirado Jonathan Swift para criar seu livro mais famoso, “As Viagens de Gulliver”.

Já em Ala’uddin há um tropo muito semelhante ao mito ocidental de Tristão e Isolda, arquétipo do amor romântico. Quando ainda era um garoto pobre e sem perspectivas, Ala’uddin se apaixonou pela filha do sultão, que estava noiva do filho do vizir. Ao descobrir a lâmpada com o gênio que lhe dava tudo, ele raptou a menina para fazê-la se afeiçoar a ele, quando então pediria ao sultão a mão da filha em casamento.

Durante algum tempo, vivendo num castelo luxuoso, Ala’uddin se contentava em ficar do lado da moça. Ele a raptara no dia casamento dela. Naquela primeira noite, ele “tirou as roupas, colocou a espada entre si e a jovem e dormiu ao seu lado no colchão, sem tentar nenhuma aleivosia”. Essa atitude foi a mesma que Tristão teve com Isolda, quando os dois fugiram, sem querer consumar o ato sexual sem o casamento na igreja. A diferença aí é o afeto desde o início que havia entre o casal europeu.

O conto “O Rei Bahriz, Seu Filho e o Destino”, no terceiro volume, se assemelha ao de Édipo, da mitologia grega, registrado nas peças de Sófocles. Neste caso, é mais provável que a influência seja dos gregos para os árabes. Nessa história, o rei consulta astrólogos para saber o futuro do filho que ia nascer (como se faz ao oráculo).

A previsão era de que após sete anos, um leão iria devorar o menino, mas se o menino escapasse dos leões, mais tarde mataria o pai. O que fez o rei? Exilou o filho no fundo de um poço com uma aia, onde não havia leões. Mas um leão perseguindo uma gazela subiu o morro, a aia tentou fugir, o leão agarrou o menino e o lançou para fora do poço e depois devorou a aia.

O menino foi levado por um cameleiro e criado por ele. Mais tarde, o rei encontra o filho e o reconhece por um sinal peculiar: “O polegar de seu pé direito está colado ao indicador.” E tudo acaba bem, diferentemente da tragédia grega.

Uma característica da cultura brasileira também pode ser encontrada no microcosmo das mil e uma noites, o humor picaresco de personagens como Pedro Malasartes e João Grilo. Na literatura de cordel, há histórias em que os dois se encontram, e um tenta passar o outro para trás. No “Livro das Mil e uma Noites”, também encontramos almas semelhantes.

Um rapaz de Merv e outro de Array, sem se conhecerem, foram à feira cada qual com um saco cheio de estrume de cabra para vender pelo preço de figos secos. Os dois se encontraram a certa altura do mercado e propuseram trocar as mercadorias sem olhar o que havia dentro prometendo ser o que havia de mais valioso. Quando descobriram o que havia dentro, ficaram furiosos, mas acabaram fazendo uma aliança de trapacearem juntos.

Tropos importantes

E assim o “Livro das Mil e uma Noites” segue por 1.670 páginas costurando histórias. Além da intertextualidade, há também outros campos de interpretação, como o papel da mulher, quase sempre vilipendiada ou tratada como objeto sexual.

A figura do negro e do judeu, aparecendo de modo pejorativo, e o jogo de poder são outros tropos importantes no bojo da narrativa. Imagine que todas as histórias foram narradas por Sherazade. Logo, ela tinha um conhecimento imenso das sutilezas e da realidade brutal que a cercavam, incluindo a violência contra a mulher.

Sua astúcia ao contar os relatos despertaram a inteligência do rei, que reconheceu que a traição poderia ocorrer com qualquer um, dependendo apenas de quem estivesse do seu lado. Arrependeu-se das mortes e de seu passado violento, e mandou fazer cópias em 30 volumes das histórias de Sherazade. l

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