Vingança do carro elétrico de uma mente brilhante

Salatiel Soares Correia

Especial para o Jornal Opção

Com a sexta parte, chega o fim o ensaio-resenha do livro “Elon Musk — Como o CEO Bilionário da Spacex e da Tesla Está Moldando Nosso Futuro” (Intrínseca, 400 páginas, tradução de Bruno Casotti). Como já apontado, aqueles que convivem ou conviveram com o homem mais rico do mundo são unânimes em afirmar que a liderança de Elon Musk induz o amor em uns e o ódio em outros.

Arrogante, grosseiro, maluco e obcecado pelo cumprimento de metas e objetivos. Assim o definiam aqueles que de perto conviveram com ele. Como se isso não bastasse, o sucesso de Elon Musk incomodou a toda poderosa indústria automobilística de Detroit.

Só compreendi, de fato, a razão da ciumeira de grande parte dos empreendedores do Vale do Silício contra uma das suas mais brilhantes mentes quando tomei conhecimento dos projetos altamente inovadores desenvolvidos pela fábrica de automóveis Tesla, como o Roadster e o model S.P. O sucesso desses dois carros elétricos acrescentou alguns bilhões de dólares à conta do homem mais rico do mundo. Tanto um quanto outro produto são resultados do trabalho de mentes altamente competentes e criativas e devidamente lideradas pelo “general” Elon Musk.

Livro conta a história de Elon Musk, o segundo homem mais rico do mundo | Foto: Jornal Opção

Quem por anos acompanhou a evolução de Elon Musk na condução de seus negócios, como o bilionário Peter Thiel, atesta a sua competência para atrair gente de muito talento para trabalhar em suas empresas.

Peter Thiel relata: “Ele tem mentes mais talentosas da indústria aeroespacial trabalhando para ele, e o mesmo se pode dizer da Tesla, para onde um engenheiro mecânico talentoso que gosta de construir carros vai porque provavelmente é a única empresa nos Estados Unidos em que é possível fazer coisas novas, interessantes. As duas companhias foram criadas com essa visão de motivar uma massa crítica de profissionais de talento a trabalhar em coisas inspiradoras”.

Descendo a montanha, encontraremos uma infinidade de gente muito talentosa que o olho clínico do empreendedor soube cooptar. Para muitos deles, Elon Musk se tornou uma referência de admiração e, até mesmo, devoção na terra do Tio Sam. Essa relação de respeito mútuo sempre existiu com gente notável. Isso ocorreu, por exemplo, com o talentoso projetista do modelo S.P., Franz Von Holzhausen, que tinha sala lado a lado com a de Elon Musk para facilitar a comunicação diária entre eles.

A doação completa a esse projeto fazia com que Elon Musk desconsiderasse os níveis hierárquicos formais entre patrão e empregado.

Conta o projetista que Elon Musk costumava levar os relatórios do projeto para ler em casa. “O nível de perfeccionismo dele era tamanho que chegou, obcecado por resultados, numa breve revisão do projeto em sua casa no fim de semana, a impor 80 modificações nele.” É exatamente aí que se evidencia a enorme capacidade de liderar do “estadista” Elon Musk. O presidente da SpaceX é uma somatória de inteligência, ousadia e uma enorme capacidade de cooptar talentos necessários para o desenvolvimento de produtos tão dependentes das técnicas e da imaginação.

Franz Von Holzhausen e o automóvel moderno e inovador da Tesla | Foto: Reprodução

Esse exemplo evidencia o lado terno do presidente da Tesla, mas existe, ainda, o lado malvado, que Elon reserva para os seus desafetos. Esta face que iremos agora avaliar.

Muito de suas ações contra seus desafetos têm suas explicações nos castigos aos quais o pai submetia o pequeno Elon Musk. A respeito desse assunto, relata o seu biógrafo que “sofrer sempre foi típico de Musk. As crianças na escola o torturavam. Seu pai fazia jogos mentais cruéis. Elon, depois, agrediu a si mesmo. Trabalhava horas num ritmo desumano, sempre forçando seus negócios até o limite”.

Muitos de nós trabalhamos incansavelmente para ele durante anos e fomos jogados fora como lixo sem hesitação. Talvez tenha sido calculado, como forma de manter o resto da força de trabalho a seus pés e assustado; talvez ele seja capaz de se desconectar humanamente num grau extraordinário. — Um ex-funcionário de Elon Musk

Esse código mental constituído na infância explica as inúmeras ações que o lado malvadeza reservava para seus inúmeros desafetos. Quem atesta essa face da personalidade do presidente da Tesla são funcionários que, por anos, trabalharam com ele. Todos foram unânimes em afirmar que conviviam, todos os dias, com o fantasma da demissão.

Vejamos alguns depoimentos. “Para mim, a pior característica é, de longe, a sua completa falta de lealdade ou conexão humana”, revela um ex-funcionário. Outro ex-servidor descreve a personalidade do ex-chefe com mais precisão: “Muitos de nós trabalhamos incansavelmente para ele durante anos e fomos jogados fora como lixo sem hesitação. Talvez tenha sido calculado, como forma de manter o resto da força de trabalho a seus pés e assustado; talvez ele seja capaz de se desconectar humanamente num grau extraordinário”.

Resumindo: essa maneira de agir de Elon Musk evidencia a forma dura e fria de tratar seus colaboradores, estes eram usados com o propósito específico, até se exaurirem e serem descartados.

A escola do capitalismo frio, que vê absolutamente os resultados, tem em Elon Musk um de seus seguidores mais extraordinários. O fantasma das torturas paternas ao menino Elon sempre se fizeram presentes na personalidade do maior empreendedor do mundo.

Rede de negócios implementada por um gênio

Satélites e carros elétricos exigem mão de obra qualificada capaz desse reinventar ante as constantes mudanças ambientais do meio externo sobre o qual as empresas não têm controle. Em um ambiente altamente estimulante, repleto de desafios, Elon teve muito sucesso ao conquistar os maiores talentos existentes no mercado. Sua formação holística foi fundamental para integrar um assunto que teve força suficiente para integrar cada uns de seus negócios no todo da organização. Para isso, não lhe faltavam carisma e visão de futuro. Faltava a esse ex-aluno de física e economia da Universidade da Pensilvania integrar um último produto por ele estudado nos tempos que vibrava com a descoberta daquele admirável mundo novo: a física. A descoberta dos princípios físicos foi fundamental para que Elon agregasse mais cientificidade a outra paixão que ele soube, com muita competência, transformar num rentável negócio: a energia solar. A partir daí, nasce uma nova empresa, a Solar Energia, pronta para atender às necessidades energéticas do país mais rico do mundo: os Estados Unidos da América. E, lógico, a Solar Energia faria de Elon Musk o homem mais rico do mundo.

Como último relato, creio ser oportuno avaliarmos porque os produtos oriundos do império Musk conseguiram aliar qualidade a custos reduzidos. Eis a resposta: integrando suas empresas e procurando livrar-se da dependência de fornecedores; foi pensando assim que as empresas do grupo se livravam de elementos externos, por conseguinte, produzindo produtos necessários ao projeto que se desenvolvia. Vejamos alguns exemplos. No momento que a produção de carros Tesla necessitava de baterias de lítio na sua montagem, o grupo montava uma fábrica dessas baterias com foco no atendimento da demanda interna.

Quem não se lembra dos primórdios da constituição da SpaceX, referidos no início destes escritos? Nessa época, os Estados Unidos perderam o bonde da corrida aeroespacial para algo que os russos produziam e alugavam para os norte-americanos: foguetes.

A decisão, tomada por Elon Musk, de romper com o país de Vladimir Putin foi decisiva para que o próprio governo norte-americano envidasse esforços no sentido de que a produção de foguetes, tão necessária para a indústria aeroespacial, voltasse a ser produzida em território nacional.  

Conclusão: um homem em uma missão

Ao concluir este mergulho de fôlego na vida do homem mais rico do planeta, creio ser oportuno enfatizar a honestidade tanto do biógrafo quanto do biografado. Este deve ser louvado por permitir àquele que desnudasse a vida dele com suas virtudes e defeitos. Isso só foi possível ante a permissão de Elon Musk.

No entender de seu biógrafo, Ashlee Vance, ele “é, sempre foi, um homem em uma missão, e de que o modo como procura cumpri-la é mais fantástico e intenso do que qualquer coisa que a maioria de nós chegará a experimentar”, mais adiante, o autor enfatiza que seu biografado “tem dificuldades de reconhecer as fortes emoções daqueles que estão a sua volta.”

Posto isso, creio que a maneira mais adequada para encerarmos este longo mergulho na vida do mais importante empreendedor do mundo é voltarmos logo ao início do livro, no ponto que esse consagrado empresário faz a seguinte indagação a seu candidato a biógrafo em um sofisticado restaurante de frutos do mar do Vale do Silício: “Você acha que sou maluco?”. Após ter concluído a leitura da consistente e honesta biografia do homem mais rico do mundo, creio ter a resposta. Eis o que penso: Elon Musk não é um maluco. A maluquice do maior empreendedor do mundo só será inteiramente entendida se conhecermos a relação dele com seu próprio pai, relação essa repleta de torturas psicológicas impostas ao filho. Este que sempre deveria cumprir, obstinadamente, seus deveres sem jamais desistir.

Tudo indica que o homem mais rico do mundo não enfrentou seus fantasmas no processo terapêutico. Por essa razão, o comportamento psicológico do entrevistado repete a turbulenta relação dele com o pai. O espírito de Franz Kafka, nesse sentido, faz-se presente na vida desse notável empreendedor. Esses fantasmas de uma infância e adolescência repletas de turbulências refletiram-se, inclusive, nos inúmeros relacionamentos de Elon com as mulheres. E, assim, o passado paterno, tal como os fantasmas de Shakespeare, acompanharam Musk por toda vida. Ninguém chega aonde Elon Musk está sendo bonzinho. Demitir, admitir e premiar faz parte de um jogo no qual o presidente da Espaço X é um verdadeiro mestre!

Para conquistar sua atual posição, o presidente da Tesla admitiu e demitiu atrelado ao desempenho funcional. Para atingir seu sucesso, ele frequentou as melhores universidades dos Estados Unidos em busca de talentos. Enfim, para chegar aonde chegou, Elon Musk transformou seu extraordinário conhecimento de física em produtos repletos de imaginação e inteligência.  

A cultura dos avós, de jamais desistir e sempre enfrentar situações adversas de peito aberto, acabou por prevalecer no seu modo de agir. Deus desproveu Elon do sentimento do medo. Sem medo e com muita determinação, ele tornou o impossível possível: quadrar os círculos. Nesse sentido, entre a euforia e a crise, Elon foi o grande condutor da Espaço X, da fábrica de automóveis elétricos Tesla e do uso cada vez mais intenso de energia solar. Faço minhas as palavras de duas das mais importantes publicações nos Estados Unidos e no Brasil sobre a vida profissional desse gênio, que soube transitar, com desenvoltura, entre dois mundos que se completam: o acadêmico e o do mercado: “Indiscutivelmente, ele é o empresário mais importante do mundo”, refere o The Washington Post. Para a Revista Época Negócios: “Musk acumula realizações espetaculares. Tanto na energia renovável como na exploração espacial, ele puxou a fila, acelerou processos, como uma espécie de Cristóvão Colombo dos negócios.”

Elon Musk é um homem cuja inteligência, viva e brilhante, foi capaz de enxergar um futuro no mercado aeroespacial e trabalhar arduamente para que esse futuro se tornasse realidade.

Não há ninguém, nem de longe, parecido com o notável empreendedor Elon Musk. Ele sempre navegou por mares nunca dantes navegados. Ao triunfar sobre esses mares, ele tinha diante de si extraordinárias demandas reprimidas e prontas para serem atendidas por suas inovadoras organizações. Certamente, aí está a razão para ele ser o que hoje é: um dos homens mais ricos deste imenso planeta Terra.

Salatiel Soares Correia é engenheiro, administrador de Empresas, mestre em Energia pela Unicamp, é autor de sete livros. Entre outros, “A Energia na Região do Agronegócio”. É colaborador do Jornal Opção.

Arnault supera Musk e se torna o homem mais rico do mundo

Elon Musk e Bernard Arnault: os dois homens ricos do mundo | Fotos: Reproduções

No momento que concluo esse mergulho sobre a vida de Elon Musk, o Bilionário Francês Bernard Arnault, proprietário das maiores industrias de luxo do mundo, ultrapassou a fortuna do dono da Espaço X.

Entretanto, como isso ocorreu devido a variações cambiais, é bem provável que, em breve, a ocupar a posição de homem mais rico do mundo. Frise-se que a capacidade de inovar de Elon Musk é impressionante. É possível que se terá novos saltos de qualidade.

Não custa lembrar que Elon Musk tem apenas 51 anos. Nem mesmo o espaço é um limite para seus negócios. Bernard Arnault tem quase 74 anos.

Recentemente, por sinal, Elon Musk adquiriu o Twitter. O que sairá daí, não se sabe. O que se sabe é que o empresário e criador tecnológico não é um conformista. Sendo assim, é possível que, em breve, levará o Twitter a um novo patamar.