Steve Davis: o funcionário ideal para o presidente da SpaceX

Salatiel Soares Correia

Especial para o Jornal Opção

A história que conto a seguir exemplifica o que é um funcionário ideal para o presidente da Espaço X. Vejamos a trajetória de alguém tido, por Elon Musk, como o trabalhador ideal. A base do texto é o livro “Elon Musk — Como o CEO Bilionário da Spacex e da Tesla Está Moldando Nosso Futuro” (Intrínseca, 400 páginas, tradução de Bruno Casotti).

Para isso, recorro à trajetória do diretor de projetos avançados Steve Davis, profissional que teve uma carreira meteórica dentro da companhia.

Há alguns anos, Elon quis contratar um funcionário para exercer uma determinada função especializada. Para isso, ele ligou para um professor assistente do Departamento de Aeronáutica da Universidade de Stanford, o doutor Michael Colonno. No pedido em questão, Musk solicitava-lhe alguém com o seguinte perfil: que fosse um aluno brilhante, cursando mestrado ou doutorado e que não tivesse família. O professor indicou o aluno do mestrado Steve Davis.

Elon Musk posa na frente da Dragon | Foto: Mario Anzuoni/Reuters

Relata-nos o autor que “Musk telefonou para Davis numa quarta-feira e ofereceu-lhe um emprego na sexta-feira seguinte. Ele aceitou. Davis foi o vigésimo segundo contratado da Espaço X e tornou-se a décima segunda pessoa mais importante ainda na empresa. Fez 35 anos em 2014.

O que fez Steve Davis para ascender ao cargo de diretor numa empresa onde a competição por um lugar ao Sol é tão intensa? Vejamos a trajetória funcional dele na empresa.

Na condição de funcionário da Espaço X, Davis foi enviado para trabalhar na desértica base de lançamento de foguetes da Espacial X, na ilha de Kwaj. O ex-aluno de mestrado de Stamford achou ótima a experiência. A respeito desse assunto, ele fez o seguinte relato: “Toda noite, você podia escolher entre dormir junto ao foguete, numa barraca onde lagartixas se arrastavam em cima de você, ou fazer uma viagem de uma hora de barco, que deixaria qualquer um enjoado, para votar à ilha principal”. Mais adiante, Davis concluiu: “Toda noite, era preciso escolher o sofrimento do qual menos lembrasse. Vivíamos sempre com calor e exaustos”. Quando perguntado sobre o que tinha achado dessa experiência, Davis, entusiasticamente, falou: “Foi incrível”.

Razões do sucesso de Elon Musk: visão de futuro, cobrança obstinada de objetivos e, o que mais importa, meritocracia. Só esta traz o perfil do trabalhador do conhecimento desejado pelo bilionário da Espaço X

Assim, Davis passou no primeiro teste da Espacial X. Em nenhum momento reclamou de algo. Ao contrário, mostrou satisfação com o desafio que lhe fora imposto pelo seu superior. Estava pronto a ser testado nos principais projetos em desenvolvimento na empresa. Dito e feito. Concluída essa etapa, Davis trabalhou nos vários projetos da empresa envolvendo a construção de satélites.

Elon Musk achou em Steve Davis o especialista certo para operar a SpaceX | Foto: Reprodução

Primeiramente, Davis trabalhou no projeto de um veículo de lançamento descartável de satélites chamado Falcon 1, ulteriormente, no de um foguete de dois estágios projetado e construído pela em empresa de Elon — o Falcon 9 — e, por fim, no mais recente projeto em desenvolvimento na empresa: uma nave espacial com capacidade de transportar até sete passageiros. A Dragon, este é o nome dessa nave, foi concluída no tempo considerado o mais rápido da história da indústria aeronáutica, quatro anos. Além disso, o custo total do projeto, de 300 milhões de dólares, foi absolutamente irrisório quando comparado ao custo de outras empresas, “que estaria [os 300 milhões de dólares] na ordem de dez a trinta vezes menos do que os projetos de cápsula realizados por outras empresas”. O segredo para tamanha redução de custos se deve ao fato de a Espacial X construir tudo internamente, sem ter amarras com fornecedores. Voltemos à história de Davis.

Davis passou por todas essas fases dos vários projetos da empresa trabalhando com entusiasmo em jornadas que chegavam a 15, 20 horas. Ele estava pronto, enfim, para um último desafio proposto por Elon: a Espacial X necessitava de um acionador que desencadeasse a ação da junta universal usada para direcionar o estágio superior do Falcon I. Esse era um desafio porque Davis nunca tinha construído uma peça mecânica.

Por essa razão, ele foi em busca de fornecedores e, após inúmeras consultas ao mercado, Davis encontrou a peça com o custo de 120 mil dólares. Ao informar a Elon o valor, este deu uma risada e disse: “Essa peça não é mais complexa do que um abridor de porta de garagem. Seu orçamento é de 5 mil dólares. Faça funcionar.”

Que desafio: ele jamais tinha construído um dispositivo mecânico, agora, teria de fazê-lo a um custo infinitamente menor do que o de um fornecedor.

Davis, contudo, era um homem movido a desafios. Pôs-se, então, a trabalhar em jornadas que sempre ultrapassavam 15 horas diárias, desse modo, conseguindo concluir a peça no prazo de nove meses e ao custo de 3 mil e 900 dólares.

Emocionado com esse desafio vencido, Davis passou um longo e-mail para Elon. Este, sem emitir nenhum comentário, deu simplesmente um OK. Elon sabia que tinha encontrado o homem certo para o importante cargo que tinha sido instituído dentro da empresa. E foi assim que Davis conquistou o cargo onde hoje está: o de diretor de Projetos Avançados da Espacial X. Ele tinha uma excelente formação acadêmica e soube, com muita habilidade, aplicar essa formação construindo coisas práticas que fizeram a Espacial X ter o sucesso que hoje tem: construir produtos de qualidade a preços bem mais acessíveis que os de outras empresas do mesmo gênero.

Inúmeras outras situações desafiadoras são relatadas na biografia de Elon Musk, idealizada pelo escritor Ashlee Vance. Creio que as informações apresentadas até o presente momento são suficientes para que possamos entender a razão do sucesso do homem mais rico do mundo. Ou seja: visão de futuro, cobrança obstinada de objetivos e, o que mais importa: meritocracia. Só esta traz o perfil do trabalhador do conhecimento desejado pela Espaço X: gente muito preparada para trabalhar com inovações expressas nos produtos (no caso foguetes) que a empresa fornece a uma clientela seleta, muito esclarecida e, sobretudo, endinheirada.

Salatiel Soares Correia é engenheiro, administrador de Empresas, mestre em Energia pela Unicamp, é autor de sete livros. Entre outros, “A Energia na Região do Agronegócio”. É colaborador do Jornal Opção.