Edmar Monteiro Filho

“A amizade é como o vinho: quanto mais velho melhor.” Esta frase, que ornamenta o charmoso paliteiro que herdei de minha mãe, merece ressalva. Nem todo vinho tem as características que permitem envelhecer bem. Também é preciso levar em conta a matéria prima e os métodos de produção e armazenamento para que o tempo possa revelar toda a complexidade de sabor e aroma própria dos grandes vinhos.

No início dos anos 1970 eu e os queridos amigos Wilson Cunha e Marcelo Lari formávamos uma trinca inseparável. Na última semana, décadas depois da última vez em que nos sentamos os três juntos para uma longa conversa, foi possível constatar que essa amizade envelheceu muito bem. Durante uma noite muito especial, vieram à tona diversos episódios de nossas recordações comuns.

Curioso notar que diversas ocorrências que vivemos juntos ficaram registradas de forma diferente na memória de cada um. Confundiram-se datas e interpretações, certos acontecimentos surgiram borrados na lembrança, como se frutos de sonho, e outros desapareceram completamente. Talvez nossas memórias não tenham envelhecido tão bem. Mas foi interessante constatar como algumas certezas se dissolveram numa rede de narrativas distintas, mostrando que a realidade assume formas diferentes segundo o olhar que dela se aproxima.

Nos dias que se seguiram, continuei pensando nas diferentes versões desses fatos ocorridos durante nossa adolescência. Imagino quantas conclusões um psiquiatra seria capaz de extrair daí, uma vez que os sonhos, a percepção da realidade e a memória são reconhecidos territórios da investigação psicanalítica.

Arthur Schnitzler: escritor austríaco | Foto: Reprodução

O romance do austríaco Arthur Schnitzler

Ao desvendar os caminhos do inconsciente humano, a psicanálise permitiu não apenas buscar a cura para um sem-número de enfermidades, como também expandiu os horizontes e as possibilidades de interpretação da arte. No que diz respeito à literatura, Sigmund Freud reconheceu desde cedo as filiações literárias na elaboração das bases da ciência psicanalítica.

O médico Arthur Schnitzler, contemporâneo e amigo de Freud, por seu turno, foi pioneiro ao incorporar as vozes mais secretas da mente à escrita literária, e o fez com tal mestria que mereceu do pai da psicanálise o seguinte comentário: “O senhor sabe por intuição — na verdade, porém, devido a uma acurada autopercepção — aquilo que eu descobri através de diligente trabalho junto a outras pessoas”.

Chamado de “médico-literato”, Schnitzler escreveu dezenas de romances e peças de teatro. “Breve Romance de Sonho” (Companhia das Letras, 112 páginas, tradução de Sergio Tellaroli), de 1926, traz a essência dos temas e abordagens de sua escrita.

A história se passa em Viena, no início do século XX. O médico Fridolin, personagem principal da trama, conversa com sua mulher Albertine sobre os fatos ocorridos na noite anterior, em um baile de máscaras.

O tema é a “comédia de galanteios, resistência, sedução e consentimento” encenada entre os convidados, Fridolin e Albertine alegres por terem escapado à banalidade do baile e terminado a noite nos braços um do outro.

Conforme a conversa avança, entretanto, o casal começa a trocar perguntas capciosas, obtendo respostas ambíguas sobre o jogo de atrações durante a festa. Tem início, então uma troca sutil de provocações, confissões, um testando os limites dos ciúmes do outro.

Cresce a tensão, a desconfiança, até que Albertine relata ao marido um episódio ocorrido no ano anterior, quando sentira uma atração irresistível por um desconhecido, confessando que talvez não tivesse resistido caso ele a chamasse.

Abalado, o marido narra à mulher um encontro que tivera com uma jovem durante uma caminhada pela praia e o desejo intenso que sentira por ela.

Vem a promessa de não guardarem mais segredo de tais acontecimentos, mas o incômodo já se instalou entre eles.

Enquanto ela recorda as aventuras que ele tivera antes do casamento e que não pudera guardar para si, ele sente a força avassaladora do ciúme tomando conta de sua alma. Passa a enxergar nos menores gestos da esposa sinais de sua indiferença, de sua perfídia.

Então, nos dias que se seguem, procura oportunidades para revidar suas supostas infidelidades, primeiro, com a filha de um paciente, depois, durante um sinistro baile de máscaras e, em seguida, com uma pobre prostituta.

A busca angustiante de Fridolin apresenta-se como delírio ou pesadelo, o inconsciente irrompendo à luz da realidade, seus sentidos confundidos entre a fantasia e o desejo magoado.

Este breve, mas intenso livro, ganhou versão cinematográfica sob o nome de “De Olhos Bem Fechados”. A mestria do diretor Stanley Kubrick, ainda que traga algumas escolhas mais explícitas acerca das fantasias do personagem, capturou a essência das sugestões criadas por Schnitzler. Acredito que Freud aprovaria. 

Edmar Monteiro Filho é escritor e crítico literário. É colaborador do Jornal Opção.