Mariza Santana

Um homem às vésperas de completar seu centenário, professor de matemática aposentado, militar e sexto prefeito de Feira de Santana (BA), gestão ocorrida no período inicial do regime militar (1964 a 1967). Este é Joselito Falcão de Amorim, cuja vida é narrada, com algumas pitadas de ficção, no livro “O Filho da Madre”. A obra é de autoria de Jailton Batista, escritor baiano, nascido no distrito de Ubiraitá, município de Andaraí, na Chapada Diamantina, e radicado em Goiânia. Como o próprio autor reforça na nota que abre a publicação, a vida de Joselito Falcão de Amorim “se confunde com uma obra de ficção”.

O personagem foi fruto de uma única noite de amor entre Deolinda Falcão, a filha caçula de Manoel Ribeiro Falcão, um abastado comerciante de Feira de Santana, e de pai desconhecido. O escritor, dando asas à imaginação, criou o pai fictício de Joselito: um empresário alemão com breve passagem pela cidade, onde teria se hospedado no casarão da família para fechar negócios de exportação no setor do fumo. Como o evento ocorreu no final da década de 1920, período no qual imperavam a rígida moral e bons costumes, principalmente em uma cidade do interior, que foi depois chamada de “A princesinha do sertão”, a noite de amor foi a ruína da jovem. Deolinda foi separada do filho e despachada para um convento, onde se tornou madre e morreu ainda jovem.

Jailton Batista: prosador brasileiro | Foto: Facebook

O bebê nascido desta breve união não foi aceito pelo avô rigoroso. Incomodado com sua presença, o comerciante doou a criança a uma serviçal, que o levou para um bairro afastado da periferia da cidade. Mas logo o menino foi resgatado por uma amiga da mãe, que o adotou como filho. Se o início da história da vida de Joselito, principalmente sua concepção e primeiros anos, são fruto da criatividade do romancista, ou pelo menos é composta de elementos ficcionais, é justamente esse trecho o mais interessante do livro.

A partir do drama de Deolinda e da construção do personagem Kurt Rudolf, diretor de uma companhia alemã importadora de fumo, Jailton Batista mostra talento como escritor. Pois onde não existem fatos concretos, o romancista trata de engendrá-los para garantir uma boa narrativa. Ele recria o cenário do drama e o ambienta muito bem dentro do contexto histórico. No final da década de 1920 e nos anos seguintes, Feira de Santana se transformou, de uma pequena cidade surgida a partir de um entreposto de venda de gado, para uma das mais desenvolvidas do sertão da Bahia.

Mas, na época do nascimento do político, o Brasil vivia o período entre as duas guerras mundiais, mas na Alemanha já era gestado o clima de ódio que viria a dar origem ao Terceiro Reich, sob a liderança de Adolf Hitler e todas as loucuras subsequentes, que levariam aos fatos que mergulharam a Europa em um dos seus períodos mais sangrentos, que logo envolveriam o mundo inteiro. E vivemos os reflexos desses acontecimentos de quase um século atrás até os dias de hoje.

Em seguida, o autor relata um pouco da carreira política de Joselito Brandão. Neste momento não tem mais ficção, somente os fatos reais da vida desse político baiano que foi prefeito de Feira de Santana durante um período no qual faltou democracia no Brasil. Aí o encanto da prosa ficcional se perde. E o leitor fica se desejando mais ficção e perguntando: o que aconteceu com o suposto pai alemão do político baiano? Talvez com vontade de que o final também fosse romanceado, e não apenas a apresentação da figura do quase centenário Joselito, que alegou não querer saber sobre suas pretensas origens germânicas – embora sua aparência, desde pequeno, mostrasse que ele tinha sangue europeu, principalmente pelos cabelos louros, não muito comuns nos feirenses de então.

O livro narra fatos reais, com pitadas de ficção, e posso dizer que os episódios ficcionais são o forte da obra. Em entrevista concedida ao site da prefeitura de Feira de Santana em 2019, por ocasião do lançamento da publicação na cidade natal do biografado (se pode chamar “O filho da madre” de uma biografia, talvez melhor seja biografia romanceada), o escritor ressaltou que a origem de Joselito era um tabu na cidade e foi finalmente resgatada. “Mas ela é rica, dramática e muito bonita”, ressaltou o escritor. Ele, inclusive, se apressou na finalização da obra porque queria que o político baiano que a inspirou, já avançado na idade, lesse o livro, que tem sua maior qualidade nos capítulos em que é romance de fato.

Mariza Santana é jornalista e crítica literária.