Jonas Tenfen

Tenho, por hábito, recolher narrativas, o que é uma boa desculpa para começar conversas em cafés e pontos de ônibus pelo mundo afora. O prazer quase filatélico, citando Borges com suas kenningar, provém de narrativas com mesmo enredo contadas por pessoas diferentes; as mudanças de postura dos personagens diante do mesmo problema refinadas pelo tempo e espaço.

Vamos ao exemplo conhecido como “o conto do fazendeiro chinês”, embora pudéssemos colocar um “oriental” ali, mas vence a tradição. Quando o cavalo de um fazendeiro chinês fugiu, os vizinhos exclamaram “ó, que triste!”, e o fazendeiro respondeu “Talvez”. Dias depois, o cavalo retornou trazendo consigo mais quatro cavalos selvagens, os vizinhos exclamaram “ó, que alegria!”, e o fazendeiro respondeu “Talvez”. Naquela semana, o filho do fazendeiro quebrou a perna ao tentar domar um dos cavalos, os vizinhos exclamaram “ó, que triste!”, e o fazendeiro respondeu “Talvez”. Enquanto o jovem estava acamado, os soldados deram a ele a dispensa do serviço militar obrigatório, os vizinhos exclamaram “ó, que alegria!”, e o fazendeiro…

China: o conto do fazendeiro | Foto: Silvers.org

A postura do fazendeiro chinês parece exemplificar as conclusões do professor Richard Nisbett em uma de suas experiências: apresentados a blocos de frases, estudantes chineses preferiram aquelas que possuíam mais contradições (“muito humilde é muito orgulhoso”, “cuidado com seus amigos, não com seus inimigos”…) enquanto que os estudantes norte-americanos preferiram aquelas com menos contradições (“metade de um pão é melhor que nenhum”, “‘por exemplo’ não é prova”…). Nisbett, citado a partir da tradução presente no livro de Leandro Ferrari, afirma que, “quando confrontados com duas proposições aparentemente contraditórias, os norte-americanos tendem a polarizar as suas crenças, ao passo que os chineses caminham para a aceitação das duas proposições”.

Na minha terra natal, ouvi de um padre em sua prédica o contraposto do fazendeiro chinês, um fazendeiro ocidental por assim dizer. Poderia muito bem ser com “Senhor”, mas vence a memória da narração. Quando o cavalo de um fazendeiro fugiu, os vizinhos exclamaram “ó, que triste!”, e o fazendeiro respondeu “É a vontade de Deus”. Dias depois, o cavalo retornou trazendo consigo mais quatro cavalos selvagens, os vizinhos exclamaram “ó, que alegria!”, e o fazendeiro respondeu “É a vontade de Deus”. Naquela semana, o filho do fazendeiro quebrou a perna ao tentar domar um dos cavalos, os vizinhos exclamaram “ó, que triste!”, e o fazendeiro respondeu “É a vontade de Deus”. Enquanto o jovem estava acamado, os soldados deram a ele a dispensa do serviço militar obrigatório, os vizinhos exclamaram “ó, que alegria!”, e o fazendeiro…

Tarefa ingrata tentar descobrir qual das duas narrativas veio primeiro, mesmo tipo de atividade de quem procura o endereço do costureiro da bolsa de Éolos. A resposta dos fazendeiros diante dos vizinhos desocupados é bastante sintomática; esta mudança marginal que possui o maior relevo. A postura é idêntica, pois ambos tentam mitigar sofrimento e alegria sob a perspectiva de algo maior, ao menos imaterial, talvez transcendental. O primeiro mantém mais evidente a contradição de que jamais saberemos se um acontecimento é realmente feliz ou triste, pois não abarcamos os fenômenos como um todo. O segundo dilui qualquer contradição no entendimento de que há uma vontade regendo todos os atos, mesmo se o engenho humano não alcança a racionalidade desta vontade.

Com expansão de mercados, e também com a expansão da China nas relações internacionais, é antevisto que em algum momento o fazendeiro chinês e seu contraposto entrem em conflito, certamente a produtividade como um dos campos de batalha.  As narrativas aqui apresentadas são lampejos das posturas teóricas a serem utilizadas, tanto para movimentar o conflito esperado, como para interpretar os seus resultados.

Jonas Tenfen é redator e tradutor.