O escritor Cunha de Leiradella e a Capitu portuguesa

Leiradella, tendo vivido pelo menos metade de sua vida no Brasil, soube unir o que de melhor cada variação do idioma português nos dois continentes poderia lhe oferecer

Adelto Gonçalves

Além do teatro, do ensaio e do roteiro para vídeo, cinema e televisão, Cunha de Leiradella (1934), ao curso de uma longa vida bem vivida, sempre cultivou igualmente o romance e o conto, gêneros a que mais se dedicou, como bem sabe quem já compulsou a sua biografia. Em “Isto Não É um Romance” (Nova Fronteira, 120 páginas), porém, chega a um ponto em que inaugura um gênero, pois se trata de um conto que parece ter escapado ao controle do escritor, alcançando as dimensões físicas de um romance. Talvez venha daí a opção por tal título, embora o leitor possa concluir também que este texto não conta a história de um amor exaltado, como bem se afiguraria a um romance tradicional, mas de um amor frustrado, que não houve. É a história de um homem que não conseguiu se realizar na vida sentimental e faz um relato confessional de seu passado melancólico.

Mais uma vez, a personagem principal de um texto de Leiradella é Eduardo da Cunha Júnior, que, em outras obras, já foi vendedor de livros, dramaturgo, engenheiro, executivo e detetive. Desta vez, o alter ego do autor é um cidadão que, licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto, filho de um comerciante bem-sucedido, nunca saiu da confortável casa em que nasceu nem precisou ir à luta para ganhar a vida, vivendo dos rendimentos e dos bens que os pais teriam deixado, e que se define como “um parasita social que não é pago com dinheiro público”.

Irrealizado sentimentalmente, aferrou-se a dois seres que ganham características fortemente humanas: Tovarich, um gato, e Minha, uma pega, ave no Brasil mais conhecida como gralha. Recluso, só costumava trocar palavras com Antônia, a arrumadeira que havia mais de 30 anos fazia diariamente o serviço de sua casa e lhe sempre dizia que ele deveria ter se casado, pois “um homem como ele vivendo só era um desperdício”. E a quem, à falta de herdeiros legítimos, nomearia em testamento herdeira usufrutuária de seus rendimentos, benemerência extensiva à filha mais nova da arrumadeira, a Micas, ainda criança, “com a condição de tratarem bem da Minha e do Tovarich”.

Produto de um mal resolvido relacionamento com os pais, que o chamavam de “burro” quando pequeno porque dizia que conversava com as tábuas do teto de seu quarto, o narrador guarda lembranças de uma antiga colega de escola, Beatriz, a loira Bia, que tinha olhos verdes, e que sempre ficavam mais verdes quando Eduardo a via olhando para ele, o que o fazia lembrar dos olhos de Y, personagem de “Um Amor Feliz” (1986), de David Mourão-Ferreira (1927-1996), que eram azuis. Um dia, ela o convidou para brincar, mas ele, por timidez, não lhe deu resposta. Com ela, já saído da adolescência, voltaria a ter um breve contato, mas, uma vez mais, o relacionamento não iria avante.

Cunha de Leiradella: escritor português | Foto: Reprodução

A mística Bia, que seria a heroína deste conto-romance, se não é uma protagonista marcante, constitui, a exemplo de Capitu, de “Dom Casmurro” (1899), de Machado de Assis (1839-1908), e de Quina, de “A Sibila” (1957), de Agustina Bessa-Luís (1922-2019), ambas delineadas pelas lembranças dos narradores, personagem suficientemente forte para ser incluída numa galeria de personagens memoráveis da Literatura Brasileira e da Literatura Portuguesa imaginada pelo professor Massaud Moisés (1928-2018) no ensaio “Capitu e Quina: a Esfinge e a Sibila”, que consta da obra “Machado de Assis: Ficção e Utopia” (2001).

Definida como um enigma, essa personagem, Beatriz, a Bia, pode, portanto, passar a fazer parte dessa galeria. Como não se trata de um romance nos moldes tradicionais, o que fica explícito a partir do irônico título do livro que funciona mais como uma advertência, a personalidade misteriosa de Bia não é desenvolvida e não se fica sabendo o que teria sido feito dela na vida adulta, ou seja, se foi uma mulher enigmática e dissimulada, tal como Capitu, sobre quem pesa até hoje uma presumida infidelidade conjugal, como seria de se depreender de suas atitudes na adolescência e juventude. Ou se foi sibilina, dotada de estranhos poderes, tal como a profetisa Quina, com alto poder de manipulação de pessoas e situações. Apesar disso, o que se pode concluir é que Bia foi tudo, a vida inteira, para o autor/narrador.

Assim, ao leitor só resta concluir ainda que o seu caráter já definido na adolescência teria levado o narrador a optar pela vida em silêncio, em quase total reclusão, sem passar a outros os seus sentimentos, preferindo direcioná-los a dois bichinhos. De Bia, tal como das protagonistas machadiana e agustiniana, é possível imaginar que seria mulher maquiavélica, capaz de com o gesto simbólico de oferecer uma flor, depois de uma serenata, fazer suscitar no possível pretendente devaneios sentimentais para, em seguida, sem o menor remorso, afastá-lo com um simples fechar de boca ou gesto de reprovação. Mas afirmar isto seria ir longe demais, até porque, provavelmente, para ele, o silêncio sobre Bia falasse mais alto do que tudo o que pudesse ter escrito sobre ela.

Portanto, a heroína leiradelliana surge como aquela que poderia ter sido e que não foi, para se repetir aqui um famoso verso de Manuel Bandeira (1886-1968), embora desde logo se perceba, a partir do fluir de recordações do narrador, a dissimulação como o traço distintivo do seu caráter, o que nos leva a concluir que seria uma espécie de Capitu portuguesa em formação. Em resumo: neste conto-romance, Leiradella, tendo vivido pelo menos metade de sua vida no Brasil, soube como unir o que de melhor cada variação do idioma português nos dois continentes poderia lhe oferecer, produzindo um texto sensível que se destaca pelo vigor da linguagem e por frases poéticas compostas pela habilidade de um verdadeiro artesão da palavra.

(Texto publicado como posfácio à obra “Isto Não É um Romance”)

Adelto Gonçalves, jornalista, é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage, o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (São Paulo, Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (São Paulo, Imesp, 2019), entre outros.

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