“O escritor como personagem”, uma obra polifônica

Uma das características que chamam a atenção na coletânea e contos é a intertextualidade com o estilo ou a obra do autor que serve de inspiração aos textos

Simone Athayde

A vida de escritores famosos instiga muita curiosidade, o que a torna material para várias artes e para a própria literatura. Talvez essa curiosidade esteja ancorada numa aura pretensamente especial ou transgressora que foi dada a essa classe de artistas. Escritores são tidos como excêntricos, depressivos, complicados, de vidas desandadas ou aventureiras, o que é sim verdadeiro em alguns casos, e sendo vistos como pessoas especiais, são veneradas por aqueles que se deixam cativar pela literatura que eles produziram. Há muitos filmes e livros sobre a vida de escritores famosos ou sobre escritores fictícios, o que demonstra que há sempre público para esse tipo de projeto artístico. A coletânea “O Escritor Como Personagem” faz parte de um projeto literário desse tipo que começou com a publicação de textos de diversos autores no Jornal Opção e recentemente se tornou livro pelas mãos dos editores Ademir Luiz, Euler de França Belém e Iúri Rincon Godinho.

O grande mérito da coletânea de contos é a criatividade na construção das narrativas

A obra é uma seleção de contos que, segundo Ademir Luiz, “tem o objetivo de narrar episódios ficcionais na vida de escritores que realmente existiram, inspirados em suas trajetórias verdadeiras. Em outras palavras, transformar escritores em personagens, transformar criadores de literatura na própria literatura”. Nesse livro, autores goianos consagrados e novos talentos tiveram que criar seus textos a partir da premissa de que nele estivesse contida alguma referência ao seu escritor preferido. E como a literatura é filha da imaginação e do talento, os textos resultantes abarcam diferentes visões e interpretações sobre o mote, nos quais tanto o escritor famoso pode interagir com o autor, quanto pode ser colocado em outras situações ficcionais que vão do realismo mágico ao lirismo, do cômico ao trágico.

Para Mikhail Bakhtin, teórico russo criador do termo dialogismo, a linguagem é dialógica por natureza, pois, quando nos expressamos, também externamos opiniões, dogmas e crenças que nos foram repassadas por outras pessoas, incluindo aquilo que reside no não-dito. Nos seus estudos sobre o romance, ele o definiu como um gênero dialógico, pois permite o diálogo entre estilos e gêneros intercalados e a coexistência, no interior de seus enunciados, de diferentes vozes sócio-históricas.

Se estendermos esse conceito para o gênero conto, ele cai como uma luva no caso de “O Escritor Como Personagem”, pois uma das características que chamam a atenção na coletânea é a intertextualidade com o estilo ou a obra do autor que serve de inspiração aos textos. Nos vinte e quatro contos teremos algo que caracterizava o escritor famoso, seja uma faceta de sua personalidade, um fato que marcou sua vida, ou sua obra em si. E mesmo que em alguns textos os escritores que os inspiravam tenham se repetido, a diferença de foco e de estilo faz com que os resultados obtidos não sejam repetitivos, mas originais e de agradável leitura.  Como exemplo, podemos citar dois contos sobre Jorge Luiz Borges, “Borges, o outro e o eco”, de Ademir Luiz, e “A segunda vida suspensa de Borges”, de Edival Lourenço, que, de formas diferentes, produziram textos que lembram o realismo mágico presente nas obras de Borges. Já no conto “Encontro marcado”, de Adelice da Silveira, o protagonista, solitário e depressivo, conhece na escola a obra de Gabriel García Márquez e, mesmo vivendo uma vida aparentemente normal, terá que lidar, nas águas do Rio Araguaia, com a solidão que carrega, marca dos personagens do autor colombiano.

Outros exemplos nos quais temos uma semelhança de estilo com os autores são o conto “Pelas janelas do rio”, de Rafael Fleury, e “Labuta para coisa melhor” de Hélverton Baiano. No primeiro, sobre Cora Coralina, a narrativa constrói-se em forma de uma bonita prosa poética. No segundo, os trechos literais das obras de Guimarães Rosa e de Manoel de Barros mesclam-se aos escritos do autor. Kakfa também é personagem em três contos, todos eles com ambientações pouco convencionais, assim como aquelas que faziam parte do universo kafkaniano.

Em “Um encontro casual nas portas do inferno”, de José Fábio, o escritor brasileiro Murilo Rubião entrará num inferno de Dante revisitado e nele encontrará o autor tcheco. Em “Um retorno”, de Simone Athayde, será a vez de Kafka voltar do além e encontrar uma colega das letras goiana em plena Praga do século 21, e em “Sonhos”, de José Umbelino Filho, as histórias e personagens de “A Metamorfose” se mesclarão às de Alice no país das maravilhas.

Ainda temos na obra momentos criativos em que os escritores são entrevistados, encontram outros autores que nunca em verdade conheceram, ou se deparam com os próprios personagens que criaram. A coletânea ainda possui outros ótimos textos sobre outros autores, como: Edgar Allan Poe, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Albert Camus, Carmo Bernardes (este, nascido em Minas, mas considerado como escritor goiano).

Enfim, os grandes méritos da coletânea são a criatividade na construção das narrativas e o respeito aos autores que as inspiraram, num processo que certamente envolveu pesquisa e/ou o olhar atento do fã. Ganha o leitor que pode usufruir desse curioso exercício polifônico.

Simone Athayde, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

2 respostas para ““O escritor como personagem”, uma obra polifônica”

  1. Avatar Rosy Cardoso disse:

    Simone Athayde parabéns pela desenvoltura e encanto de texto.

  2. Avatar Vítor Hugo da Silva disse:

    Um comentário critico sensacional. Muito bem posicionado

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