O empoderamento feminino em O Cortiço, de Aluísio Azevedo

Episódio do livro representa um instigante exemplo, no âmbito dos olhares siameses do feminismo e dos estudos culturais, do empoderamento feminino

Gismair Martins Teixeira

Especial para o Jornal Opção

Antonio Candido é considerado pelos seus pares como o mais eminente crítico literário da historiografia da literatura brasileira. Em “O Estudo Analítico do Poema”, obra que surgiu a partir de material de curso sobre poética ministrado na Universidade de São Paulo no início dos anos 60, informa Candido, sobre a especificidade do objeto literatura, a sua dupla designação na cultura alemã. Na língua de Goethe, “literatura” é o termo que designa toda e qualquer produção escrita que não esteja vinculada à imaginação artística, à ficcionalidade com preocupações estéticas. Para esta última categoria, os alemães reservaram a palavra “dichtung”.

Em “Teoria da Literatura”, o pesquisador e professor brasileiro Roberto Acízelo de Souza mapeia o longo percurso histórico, desde Platão e Aristóteles até os dias atuais, que o conceito e a definição de literatura percorreram. De definição esquiva, a literatura necessitaria de delimitar o seu objeto e práxis, conforme Acízelo de Souza, fazendo-os gravitar em torno da “dichtung”, que representaria a concretização do que é literatura numa perspectiva da teoria do conhecimento, representada pelo pomposo nome de epistemologia.

Conforme o autor de “Teoria da Literatura”, uma das proposições teóricas fundamentais para o campo de estudo da literatura é o conceito de “literariedade” apresentado pelo formalista russo Roman Jakobson, no ano de 1919. Para Jakobson, a literariedade funciona como objeto de teoria da literatura, sendo ele definível como aquilo que faz com que uma obra escrita possa ou não ser considerada literatura sob o ponto de vista da “dichtung” germânica. Sobre a literariedade, afirma Acízelo de Souza: “Num nível ainda mais elevado de exigências metodológicas, deve-se dizer, enfim, que o objeto da teoria da literatura é constituído pela literariedade”.

No entanto, a discussão acerca da literariedade permanece em aberto. A literatura como objeto de estudo, por sua vez, já foi esquadrinhada por diversas correntes teóricas e metodológicas, cujas ênfases variam de acordo com as correspondentes proposições no tempo e no espaço. Assim, linguística, psicanálise, sociologia, filosofia, estruturalismo, marxismo, dentre outras vertentes, apresentam suas contribuições sempre relativas, nunca absolutas, sobre o fazer literário e mesmo sobre a sua recepção por parte do sujeito leitor com todas as implicações humanas que cercam tanto o autor quanto o receptor de uma obra.

Da contextualização teórica que é apresentada em “Teoria da Literatura”, infere-se que os estratos teóricos há pouco mencionados gravitam em torno de um epicentro conceitual, a literariedade, da proposição jakobsoniana. Mas não somente dela. O imaginário e a ficcionalidade também desempenham papel fundamental na delimitação do objeto literatura, registra Acízelo de Souza. Essa tríade funciona, portanto, como um sistema gravitacional em torno do qual giram as demais teorias que cercam o fazer literário.

Estudos culturais, feminismo e imaginário

Em “Teoria Literária”, o crítico norte-americano Jonathan Culler apresenta capítulo específico em que discute a emergência dos estudos culturais a partir da década de 90 do último século e sua correlação com os estudos literários. Esse campo surgiu no estudo de Humanidades com base no estruturalismo francês e na crítica literária marxista britânica da segunda metade do século passado, segundo Culler. Ganhou o mundo com o olhar perscrutador sobre pautas identitárias que se desdobram em profusão. Sobretudo em questões étnicas e de gênero.

Aluísio Azevedo, autor do romance “O Cortiço” | Foto: Reprodução

Em seu trabalho, Culler busca estabelecer a relação ora de proximidade, ora de distanciamento entre estudos culturais e literatura. Questões como o distanciamento da obra literária, por exemplo, relegada a segundo plano por conta de outras plataformas de manifestação artística, além do esfacelamento do cânone, são abordadas pelo autor em seu estudo. Funcionariam os estudos culturais, no contexto literário, como um novo avatar da literatura comparada, que permite um amplo leque de abordagem.

Um olhar possível da interface entre estudos culturais e literatura é o da correlação temática. Como esse campo de estudos se preocupa com a apreensão da realidade feminina no tempo e no espaço, imediatamente se põe em diálogo com o etos do feminismo histórico. Na literatura, podem ser encontradas exemplificações bastante curiosas da interação entre ambas as instâncias do saber, que se preocupam com as mudanças sociais decorrentes de suas práticas de estudo e pesquisa.

A obra “O Cortiço” (de 1890), do escritor brasileiro Aluísio Azevedo, constitui caso que merece ser estudado na intersecção entre os estudos culturais e a literatura. Nesse romance, o leitor encontrará uma abordagem extremamente instigante, do ponto de vista do imaginário e da psicologia, da condição feminina. Publicado em sua primeira edição no ano de 1890, o romance azevediano é uma das obras mais importantes do naturalismo brasileiro. O naturalismo apresenta em sua visão de mundo a proposta estética de representação do real em estado superlativo, ancorado, de preferência, no cientificismo. É a abordagem do real levada ao paroxismo.

O enredo apresenta a constituição de um cortiço na periferia do Rio de Janeiro do final do século 19, quando o protagonista João Romão, imigrante português, decide empenhar todas as suas energias em tornar-se rico. Com esse objetivo, ergue aos poucos um cortiço, alugando barracos miseráveis para os moradores pobres da região. Nesse laboratório social, verdadeiro microcosmo, Azevedo explora as relações amorosas e de amizade dos moradores, apresentando muito da sordidez que a condição de miserabilidade daquele grupo de pessoas proporciona.

No capítulo 11 o autor abandona, por assim dizer, durante algum momento, a estética naturalista, embora o objeto da narrativa que passa a desenvolver ainda pertença ao conjunto de suas características básicas. Uma das personagens do cortiço é Pombinha, jovem adolescente cujo corpo mirrado assim se apresentava porque ainda não lhe vieram as regras. Ou seja, ela ainda não menstruara. Em “As Estruturas Antropológicas do Imaginário”, o pesquisador francês Gilbert Durand atribui grande importância às imagens decorrentes desse processo fisiológico feminino em seu isomorfismo correlacional com a água e a lua.

Afirma Durand que o isomorfismo entre a lua e os ciclos menstruais se manifesta em diversas lendas que “fazem da lua ou de um animal lunar o primeiro marido de todas as mulheres”. Neste contexto antropológico do imaginário, o romancista brasileiro surpreende, subvertendo a tradição lendária. Pombinha se despe em local ermo, cercado de pasto, ao sol do meio-dia. Deitada em posição receptiva para o ato sexual, Azevedo descreve, com inacreditável poesia para o ideário naturalista, o desposar de Pombinha pelo astro-rei, cujos raios quentes consumam, por assim dizer, o ato sexual com a adolescente virgem, fazendo-a sangrar em sua primeira menstruação.

Escriba voluntária do cortiço, Pombinha redigia cartas para os demais moradores, que as solicitavam para os mais diversos assuntos pendentes com a parentela. Bruno, morador que formava par romântico com Leocádia, fora traído pela amante, que foi surpreendida em flagrante por moradores do cortiço. Após o “barraco”, expressão associável ao imaginário constitutivo de um cortiço, ambos se separaram. No entanto, Bruno se arrepende e tem a pretensão de voltar com Leocádia, perdoando-a. Solicita que Pombinha escreva a carta de reconciliação.

Ao concluir o favor, Pombinha se põe a meditar no quanto o homem pode ser emocionalmente afetado pela mulher. Leocádia fora flagrada em pleno adultério, mas era Bruno quem pedia perdão na carta e solicitava a reconciliação. Pombinha, agora mulher, tem seus olhos abertos para o imenso poder de que dispõe a mulher. Nas palavras de Aluísio Azevedo:

“Pombinha, impressionada pela transformação da voz dele, levantou o rosto e viu que as lágrimas lhe desfilavam duas a duas, três a três, pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas. E, coisa estranha, ela, que escrevera tantas cartas naquelas mesmas condições; que tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos trabalhadores do cortiço, sobressaltava-se agora com os desalentados soluços do ferreiro. Porque, só depois que o sol lhe abençoou o ventre; depois que nas suas entranhas ela sentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas misérias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade, tal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, atingindo de súbito, em pleno desenvolvimento, uma lucidez que a deliciava e surpreendia. Não a comovera tanto a revolução física. Como que naquele instante o mundo inteiro se despia à sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os segredos das suas paixões. Agora, encarando as lágrimas do Bruno, ela compreendeu e avaliou a fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de músculos valentes, de patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes pela soberana e delicada mão da fêmea”.

O episódio narrado por Aluísio Azevedo merece estudos mais amplos sob as lentes do imaginário durandiano em diálogo com a episteme literária. Representa ele um instigante exemplo, no âmbito dos olhares siameses do feminismo e dos estudos culturais, do empoderamento feminino, expressão que surge na esteira desse campo de pesquisa da sociedade e de seus atores em ação no processo de construir as mais variadas instâncias de cultura. A sensibilidade autoral de Azevedo representa, assim, uma narrativa avant la lettre para uma problemática que se desdobrou nas décadas seguintes à publicação do clássico naturalista brasileiro.

Gismair Martins Teixeira é pós-doutorando em Ciências da Religião pela PUC-GO; doutor em Letras e Linguística pela UFG; professor e pesquisador do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte da Seduc-GO.

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