O economista-filósofo Eduardo Giannetti e a utopia do vira-lata

A descrença quase generalizada num futuro que nos orgulhe retroalimenta cotidianamente a crença em nossa inferioridade

Everaldo Leite

Especial para o Jornal Opção

O economista e filósofo Eduardo Giannetti reúne 25 ensaios, de momentos diferentes de sua trajetória intelectual, em um livro muito bem produzido e de nome peculiar: “O Elogio do Vira-Lata e Outros Ensaios” (Companhia das Letras, 328 páginas), sendo este um excelente convite à recapitulação de seu pensamento. Quantos argumentos se mantiveram sustentáveis na cabeça do autor durante os anos? Que entendimentos mudaram de rota? Elaborados desde o final da década de 1980, uma releitura permite dizer no mínimo que o filtro do tempo mais ratificou a solidez de suas ideias, análises e interpretações do que as corrigiu. Apesar da autonomia dos ensaios, o livro pode ser lido como um mosaico de subtemas bem estruturado que em seu conjunto forma uma grande e sistemática visão crítica sobre a cultura em nosso processo civilizatório. Ou, aos que o acompanham há pouco tempo, pode também ser lido como um tipo de apêndice explicativo do seu livro anterior “Trópicos Utópicos — Uma Perspectiva Brasileira da Crise Civilizatória” (Companhia das Letras, 214 páginas).

É certo se dizer que a abrangência da ciência econômica e da prática filosófica produziu em Giannetti uma ampla disposição na área da pesquisa e na busca de um pensamento próprio. As explanações nesse nível sobre a história e a formação do Brasil, considerando nossa antropologia, nossa vontade de identidade e nossos desafios, potencializou nesse autor a capacidade de fazer diagnósticos cada vez mais dilatados e apurados de nossa realidade social, nossos vícios e virtudes. Não por acaso, de início, Giannetti esclarece que sente que o tempo lhe acirrou “a revolta com as injustiças da vida brasileira e, principalmente, exacerbou a esperança e a fé radical em nosso futuro”. De fato, em “O Elogio do Vira-Lata”, o que há de crítica desalentadora sobre decisões equivocadas no nosso passado não inibe o seu autor em destacar que isto, somente isto, não pode superar a capacidade libertadora de um sonho brasileiro: “O passado condiciona mas não aprisiona”. A questão certamente está em saber que sonho benfazejo deverá ser esse, ou, como afirma o próprio economista, “o que nós, enquanto nação dotada de uma história e de uma identidade próprias, aspiramos ser”.

Uma característica que se percebe ao longo dessa obra é a determinação de Giannetti em compor um quadro da vida produtiva e cultural do mundo, mas realçando com exata paixão o papel do Brasil nessa dinâmica. Os parâmetros que balizam seus argumentos são a realidade dura de um lado e a utopia tropical de outro. “Se o sonho desligado da realidade é frívolo, a realidade desprovida de sonho é deserta”, assevera. A nossa realidade dura pode ser, por exemplo, a perversidade do déficit da previdência brasileira em detrimento do investimento educacional. “O Estado brasileiro gasta mais alimentando a orgia de benefícios a descoberto do passado do que investindo no capital humano do futuro: os seus 2,8 milhões de inativos e aposentados absorvem mais recursos públicos do que a educação básica de 38 milhões de crianças e jovens em idade escolar”. Enquanto que a utopia fundamentada na realidade pode ser o de uma brasilidade responsável. “Uma nação que poupa e constrói sua base de capital para o amanhã, mas preserva a disponibilidade tupi para a alegria e o folguedo: uma forma de vida capaz de tornar a dádiva da existência neste planeta em fonte perene de imotivada celebração”. Giannetti propõe a valorização de um bem — a felicidade material a ser per-seguida — convivendo naturalmente com a espontaneidade brasileira — nossa malemolência tropical.

Eduardo Giannetti, economista-filósofo: “A maioridade de uma cultura se expressa na coragem e na tranquilidade de ser o que se é… a tarefa maior é virar o ‘complexo de vira-latas’ do avesso” | Foto: Reprodução

“O Elogio do Vira-Lata” faz, especialmente, nova leitura de nosso subdesenvolvimento cultural e procura dar um salto além da crítica batida ao expor suas honestas intenções utópicas. O utópico aqui também visto logicamente como um sonho factível e desejável, não como algo impossível ou caricato. Na generosidade de Giannetti se qualifica uma ideia significativa a inversão do “complexo de vira-latas — a imagem depreciativa que nós, brasileiros, fazemos de nós mesmos e o nosso renitente narcisismo às avessas”, se podemos lançar mão de um verossímil orgulho anti-inferioridade: “A maioridade de uma cultura se expressa na coragem e na tranquilidade de ser o que se é”. Com efeito, para o autor de “Autoengano” no final das contas “a tarefa maior é virar o ‘complexo de vira-latas’ do avesso”. Ora, que seja louvado todo esforço verdadeiro nesse sentido! Mas, qual é a origem desse complexo e como poderíamos transformar um autoflagelo moral histórico em uma vantagem efetiva? O autor oferece uma visão histórica e literária para a primeira parte da pergunta. Vale a pena aqui dar uma breve espiada em seu raciocínio.

Para Giannetti, a genealogia do “complexo” nos leva às primeiras crianças nascidas há cinco séculos, do encontro entre etnias distintas no território que logo chamaríamos de Brasil. Esses indivíduos, miscigenados e apátridas, passaram a ser chamados de mazombos, termo oriundo do quimbundo angolano que quer dizer “grosseiro, atrasado, bruto, iletrado”. Um título nada elogioso, evidentemente, que por si só já degradava os nossos novos nativos e colonos. Segundo ele, “o traço distintivo do mazombo é a ausência do senso de pertencimento”, estando este também “alheio a qualquer propósito coletivo e afeito aos acasos do ganho fácil e rápido e da aventura erótica”, sendo finalmente caracterizado pela “subjetividade dilacerada, pontuada por rompantes, arroubos e fogachos”. Mesmo ao serem chamados de “brasileiros” pouca coisa mudou naquele sentido, continuamos nos percebendo culturalmente subcivilizados ao longo do tempo. De colônia a império, de império à república, da monocultura à indústria, o “complexo” se solidificou em vários âmbitos sociais. No primeiro ensaio, que dá nome ao livro, Giannetti destaca as palavras do bacharel Paulo Maciel quando este suspirava, no romance “Canaã” de Graça Aranha: “O meu desejo é largar tudo isso; expatriar-me, abandonar o país, e com os meus ir viver tranquilo num canto da Europa… A Europa… A Europa!”.

Nelson Rodrigues, dramaturgo e jornalista: não era teórico, mas criou a “teoria” do complexo de vira-lata | Foto: Reprodução

A expressão “complexo de vira-lata”, é claro, só se tornou uma “categoria” a partir do seu uso na segunda metade do século 20. “Embora ele (o complexo) tenha nos acompanhado como verdadeira marca de nascença desde a pré-história da nacionalidade, foi somente em 1958 que Nelson Rodrigues, o dramaturgo e cronista recifense radicado no Rio de Janeiro, ousou criar um nome de batismo apto a designar esse traço marcante da alma brasileira”, explica Giannetti. Nas palavras de Nelson Rodrigues: “Por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isso em todos os setores e, sobretudo, no futebol”. Hoje, se dependêssemos do futebol para eleger uma melhor autoestima para os brasileiros até que estaríamos bem, mas em diversas outras áreas não é este o caso. Para Giannetti, o sentimento de inferioridade frente ao resto do mundo continua sendo “uma realidade incontornável da vida brasileira”, entretanto, questiona se essa categorização, na prática, é uma terrível condenação, irreversível, ou se podemos vê-la de forma inversa, elogiável.

Obviamente, o movimento de inversão do sentimento “complexo de vira-lata” se revela impossível a partir de um simples exercício motivacional, notadamente num país de adultos céticos, jovens cínicos e politicamente polarizado. De todos os lados a descrença quase generalizada num futuro que nos orgulhe retroalimenta cotidianamente a crença em nossa inferioridade. Daí ser importante voltar à segunda questão: como poderíamos transformar esse autoflagelo moral em efetiva vantagem? Por sorte o livro “O elogio do vira-lata” não se reduz ao ensaio homônimo, na verdade ele aponta direções em dimensões diversas do processo social brasileiro e estabelece uma perspectiva interessante que pode nos levar a uma resposta Política (com “p” maiúsculo). O autoconhecimento coletivo em conexão com o autoconhecimento individual; a realidade de nossa educação junto à necessidade de transformá-la; o compromisso de acolhimento da literatura cultural e do pensamento clássico universal; o reconhecimento de uma superioridade de pensamento econômico que ajuste a vida econômica aos limites de sua dimensão própria e desocupe os espaços onde não deveria caber; de fato, a cada capítulo Giannetti estabelece entre análises uma meta subjetiva, aberta, sem nunca impor visões doutrinárias, aguardando enfim os “sins” e os “nãos” que provocará.

Um ufanismo tolo ou uma utopia tropical? Neste momento de governo populista de direita — que substitui outro de esquerda — percorremos politicamente (com “p” minúsculo) os caminhos da primeira opção. Fugimos, como nunca, de uma perspectiva de superação do afeto da inferioridade e, freneticamente, nos agarramos ao nosso bem conhecido subdesenvolvimento cultural, este colonizado pela atual política embrutecida dos norte-americanos e dependente da promessa de uma bonança que nunca chega. Como ficam então os argumentos bem elaborados de Eduardo Giannetti? Um efeito objetivo do livro “O Elogio do Vira-Lata” é o do retorno à reflexão sobre a possibilidade de um projeto de Brasil (capitalista, mas social), em especial fora da vagarenta academia ou do período eleitoral. Esse não pode ser um assunto adstrito à elite universitária, muito menos um tema do qual se opina demagogicamente de quatro em quatro anos. Se dermos sorte, nas próximas décadas o livro deverá ser muito revisitado por intelectuais públicos e outros interessados e se tornará aos poucos uma referência moderna para os que buscam uma luz no fim do túnel. Infelizmente, nos limites do horizonte, continuaremos seguindo em nosso trade-off vulgar entre sermos o cão castrado e gordo do apartamento da madame ou obedecermos os comandos de um adestrado cão policial.

Everaldo Leite, economista, é colaborador do Jornal Opção.

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Yuri Augustus dos Santos Netto

Parabéns amigo Everaldo!
Como sempre com uma redação fincada na honestidade de seus pensamentos e princípios, dilacerante e apimentada.
Yuri Augustus.

claudia aparecida rodrigues

Relendo para parabenizar, meu colega Everaldo. Excelente texto.
Ansiosa para o livro chegar.