O diálogo na tradição da poesia mística

O escritor e professor carioca Marco Lucchesi veio a Goiânia para lançar sua tradução de “Moradas”, de Angelus Silesius, e proferiu uma pequena palestra sobre o poético e a busca pelo diálogo, muito em falta nos dias de hoje

Marco Lucchesi (e), ao lado de seu editor Miguel Jubé, na Universidade Federal de Goiás, ao falar sobre poesia mística e a tradição do diálogo no bojo dessa literatura | Foto: Reprodução

Marco Lucchesi é o tipo de homem que se tirassem a poesia de sua vida, seria como cortarem as asas de um pássaro. Basta ir ao encontro dele para ver o entusiasmo com que fala de literatura, linguagem e tradução. Ele respira isso. É seu habitat absolutamente natural. Seu espírito já se diluiu nas palavras. Na terça-feira, ele esteve em Goiânia para lançar o livro de poemas “Moradas” (Martelo Casa Edito­rial, 2017, 88 páginas), de Angelus Silesius (1624-1677), com tradução dele e prefácio de Faustino Teixeira.

Antes do coquetel de lançamento, Lucchesi proferiu uma pequena palestra como convidado especial dentro da programação que celebrava os cem anos da publicação de “Tropas e Boiadas”, de Hugo de Carvalho Ramos, na Faculdade de Letras da UFG. Ele não falou do tema do evento, tratou do livro e do universo do poeta místico Angelus Silesius.

O que vale ressaltar dessa palestra é o modo como cultura e poder estão intrinsicamente ligados. Marco Lucchesi queria falar de poesia, sobretudo do significado da poesia mística e do diálogo inter-religioso, do diálogo de alteridade, da busca pelo outro. Mas não se aguentava, e vire e mexe entrava no terreno da política e da sensação desoladora, de bússolas tortas, em que o país se encontra agora.

Não fazia isso por capricho. Fazia-o porque o momento o puxava para a realidade gritante da falta de diálogo e da perda de chão desta mesma realidade por debatedores que não sabem dialogar. Poder, diplomacia e linguagem são conditio sine qua non numa sociedade progressista, dizia ele. Nese sentido, a literatura mística tem muito a colaborar porque “está sempre marcada com um cunho altamente político.”

Segundo Lucchesi, a língua portuguesa praticada no Brasil é vista em boa parte do mundo como um veículo diplomático, praticada numa nação convergente e solidária, não agora. “Não nesse Brasil de hoje, que não existe como Brasil”, disse ele, referindo-se à surdez entre interlocutores, à carência de diálogo. Lucchesi é poeta, tradutor de várias línguas, como italiano, alemão, persa e árabe, além de professor de Literatura Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O livro de Silesius (que será resenhado neste espaço em momento oportuno) é uma chave para se acessar o significado de boa parte da tradição poética cristã e de como se busca o diálogo com outras matrizes.

Além desta tradução, este ano, Lucchesi lançou “Palavra de Escritor – Tradutor”, fruto de uma entrevista do autor a Andréia Guerini e Karine Simoni. O livro está disponível gratuitamente na internet (http://escritoriodolivro.com.br/publicacoes/), e sobre ele, a escritora e tradutora Dirce Waltrick do Amarante escreve abaixo.

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ADALBERTO+DE+QUEIROZ

Bravo! a Lucchesi: um sábio. Parabéns ao Gilberto.