O dia em que o mundo homenageou Günter Grass, o gênio que pode ser comparado a Thomas Mann

Autor de “O Tambor”, Grass foi laureado com o Nobel de Literatura apenas em 1999, quarenta anos após lançar a obra

Nascido em atual território polonês, em 1927, Günter Grass faleceu aos 87 anos, no último mês de abril

Nascido em atual território polonês, em 1927, Günter Grass faleceu aos 87 anos, no último mês de abril

Edgar Welzel
De Stuttgart, Alemanha
Especial para o Jornal Opção

A morte de Günter Grass teve grande repercussão. Mani­fes­tações, homenagens e mensagens de condolências vieram tanto de seus milhares de leitores como de representantes da cultura e da política nacional e internacional. Teve destaque a sua última entrevista concedida ao jornal espanhol “El País”, em 21 de março de 2015, que foi co­mentada em muitos cadernos culturais, especialmente na Alemanha.

Naquela entrevista, o Nobel de Literatura de 1999, pela obra “O Tambor”, falou de suas preocupações com a situação na Grécia, na Ucrânia e no Oriente Médio e advertiu sobre os perigos iminentes de uma terceira guerra mundial. Criticou a União Europeia pelo fato de excluír a Rússia de uma aliança de defesa continental europeia.

Seguem alguns exemplos de manifestações colhidas após a sua morte, ocorrida em 13 de abril passado em Lübeck. A escolha dos textos é aleatória e isenta de quaisquer critérios e provam a grande reputação nacional e internacional do renomado autor.

Um dos primeiros a se manifestar foi o presidente da Ale­ma­nha, Joachim Gauck. Em carta de condolência à esposa de Grass, o presidente escreveu: “Günter Grass foi um convincente espelho de nosso país e um corajoso contendor dotado de um intransigente espírito político. Em seus romances, contos e em seu lirismo se encontram grandes esperanças e contradições, medos e anseios de gerações”.

A secretária de Estado, responsável por assuntos culturais, Monika Grütters (CDU) referiu-se a Günter Grass como “literato mundial” e deu o seguinte co­men­tário: “Günter Grass foi um ex­cepcional orador, ensaísta e, sobretudo, um grande narrador de histórias da recente história da Alemanha que, com todos os con­tratempos, também foi a sua própria história. Desgastou-se nela com o máximo empenho e deu-lhe algumas interpretações que, para seus leitores e para seus críticos, foram difíceis de suportar”.

Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, honrou o autor como “um grande europeu que sempre se empenhou pelos mais fracos e perdedores”. O chefe de governo da Gré­cia, Alexis Tsipras, declarou: “A Gré­cia perdeu um valioso amigo”.

Na Polônia, Günter Grass foi alvo de honrarias especiais. “Só poucos contribuiram tanto para o estreitamento das relações entre a Polônia e a Alemanha como Günter Grass”, escreveu o escritor polonês Pawel Huelle. Grass nas­ceu em Dantzig (hoje Gdansk), onde foi cidadão honorário. Pawel Adamowicz, prefeito de Gdansk, disse que Grass “foi um dos nossos; ele foi nosso compatriota”.

Sigmar Gabriel presidente do Partido Social Democrático da Alemanha (SPD), com o qual Günter Grass esteve estreitamente ligado, expressou seu luto pela perda: “Grass, que deixa uma impressionante obra literária e política, foi um íntimo amigo e conselheiro da social-democracia alemã. Sem as suas advertências para mais tolerância, sua vontade de intervenção e suas regulares intromissões políticas o nosso país certamente seria bem mais pobre”.

Claudia Roth, vice-presidente do Partido Verde no Parlamento Alemão, registrou: “Günter Grass teve substancial atuação não só com os seus romances, poesias e peças teatrais; especiais méritos o autor teve também na reconciliação da Alemanha do pós-guerra com seus vizinhos. Seu engajamento na política de imigração alemã e, em especial, seu claro posicionamento em relação aos problemas de minorias como os sinti e os roma permanecerão, ao lado de seu trabalho literário, em minha memória”.

Luk Perceval, o teatrólogo que verteu “O Tambor” ao teatro comentou: “Ele estava alegre, completamente lúcido e, apesar de sua avançada idade, não dava a impressão de fraqueza ou doença. Por outro lado, nas conversas, senti inúmeras vezes que ele chegou a um ponto no qual já produziu tudo o que tinha a produzir: tudo foi dito. Tudo foi escrito”.

Per Wastberg, membro da Academia Sueca: “A decisão, na época [1999], foi uma decisão muito consciente. Ele foi o século 20, no mínimo depois de Thomas Mann”, disse Wastberg referindo-se àquela decisão em conceder-lhe o Prêmio Nobel de Literatura.

Klaus Staek, presidente da Academia de Artes de Berlim (na qual Grass estudara escultura): “Com Günter Grass, a literatura perde um mestre da palavra e o nosso país um de seus mais conflitantes concidadãos. Não fugia de nenhuma discussão, sempre que via a democracia em perigo. Pessoal­mente, perdi um amigo com postura com o qual sempre se podia contar tanto em questões politicas quanto em simples questões práticas”.

Tilman Spengler, editor e autor de inúmeras obras como “Lenins Hirn” (O Cérebro de Lenin), Rowohlt 1991, traduzido em 24 idiomas: “Günter Grass criou a inconfundível face da responsabilidade social da literatura que com ele se aprofundou mesmo quando muitos outros já se tinham despedido deste gênero literário. O que mais me recordo de Grass é seu sorriso, sua maneira de falar, de contar histórias, seu incansável empenho por problemas sociais e sua maneira afável de falar sobre colegas”.

Herzl Chakak, presidente da Associação de Escritores de Língua Hebraica em Israel, em comunicado informa: “Günter Grass foi um escritor que contribuiu muitíssimo para a literatura internacional. Até a sua morte, Grass não mostrou nenhum arrependimento sobre seus implacáveis comentários anti-israelenses. Com sua poesia crítica contra Israel, há três anos, Grass conduziu uma moderna cruzada contra o Estado judeu”.

Elfriede Jelinek, escritora austríaca, laureada com o Nobel da Literatura em 2004, para a qual “O Tambor” foi leitura decisiva, em mail à Agência de Notícias da Áustria (APA) escreveu: “Penso que, naqueles tempos quando o li, logo nas primeias páginas já percebi que talvez eu algum dia poderia ser escritora. Naquele tempo entendi que escrever não é simplesmente contar ou descrever; o escrever pode criar suas próprias regras, que surgem das necessidades do texto”.

Salman Rushdie, escritor indiano-britânico, autor de “Os Versos Satânicos”, amigo de Grass, comentou via Twitter: “Esta é uma notícia muito triste. Günter Grass, um verdadeiro gigante, um amigo. Tamboreja o tambor para ele, pequeno Os­kar”, escreveu Salman Rushdie referindo-se a Oskar Matzerath, figura central do romance de Grass, “O Tambor”.

Mario Vargas Llosa, Nobel da Literatura em 2010, em entrevista à TV Deutsche Welle: “Günter Grass, sem dúvida, permanecerá na memória como um dos mais importantes autores da atualidade. Penso que ele é um um dos mais importantes escritores do século 20”.

O jornal “Le Monde” (Paris) co­menta: “Grass sempre confrontou o seu país com a sua pró­pria pesada consciência. Seu maior engajamento político, a partir de 1998, foi seu apoio à co­alizão vermelha-verde de Ger­hard Schroeder”. O “Figaro” (Paris) descreve Grass como “um polêmico engajado e quebrador de tabus que não cansava de sacudir a opinião pública e de estimular os intelectuais. Suas obras estão repletas de fantasia e ironia”.

O “New York Times” critica o Nobel da Literatura por seu passado na SS, mas o elogia como moralista: “Günter Grass foi, indubitavelmente, um respeitado intelectual que sempre impulsionou os alemães a discutir os lados escuros de sua história. Seu intransingente antimilitarismo e suas admoestações de que uma Alemanha reunificada mais uma vez poderia comprometer a paz mundial contribuiu para que muitos de seus patrícios o criticassem como moralista pedante que perdera a noção da realidade”.

O “Guardian”, da Grã-Bre­tanha, resume: “A história da vida e da obra de Grass é também a história da discussão alemã sobre o passado nazista do país. Esta discussão é vista como exemplar, mas continua insuficiente como o demonstra o próprio exemplo Grass”.

O “Jyllands-Posten” da Dina­mar­ca também faz referência à filiação de Grass à SS e chama-o de “nazista que, na Alemanha, foi um grande crítico-social. Grass foi um lutador que não por útimo lutou contra si mesmo”; e o “Aftenposten”, da Noruega, emenda: “Mesmo que o autor tenha ocultado, durante anos, sua filiação à SS, sua obra permanecerá como um ‘monumento da literatura universal’”.

O jornal conservador “Rzeczpospolita”, de Varsóvia na Polônia, observa: “A Polônia sofreu, especialmente no período comunista, com o fato de que o mundo nunca entendeu a nossa complicada história. Com Günter Grass a Polônia teve um embaixador informal, apesar de ter escrito em língua alemã”.

A “Gazeta Wyborcza”, liberal-esquerda, também de Var­só­via, em artigo assinado por A­dam Michnik, seu redator-chefe e essaísta, comenta: “Günter Grass foi um anticomunista cuja aversão ao comunismo nunca o conduziu às proximidades do nacional-socialismo. Ele foi a consciência dos alemães e da democracia europeia”.

Um dos poucos jornais que deram detalhes sobre a morte de Günter Grass foi “O Público” de Portugal. Em matéria assinada por Luís Miguel Queirós, o jornal informa: “Há poucos dias, tinha acabado de terminar um livro de contos, poemas e desenhos e estava ‘cheio de planos literários’ para o futuro próximo. A sua morte apanhou os mais próximos de surpresa, disse a diretora do Instituto de Alemão de Lisboa, Claudia Hann-Rabe que, logo após a morte do escritor, falou com a secretária de Grass. ‘Estava de férias, voltou a Lübeck para se tratar desta infecção respiratória, tomou antibióticos durante um dia ou dois, e morreu de forma completamente inesperada’, disse Hann-Rabe”.

Günter Grass foi sepultado já ao fim do abril passado. No ato, estiveram presentes apenas os familiares conforme fora o seu desejo. A municipalidade de Lü­beck, cidade na qual passou a maior parte de sua vida, que se or­gulha de já ter tido três laureados com o Prêmio Nobel (Thomas Mann, Willi Brandt e o próprio Günter Grass), prestou-lhe solene homenagem post mortem, realizada domingo, 10 de maio.

Estiveram presentes representantes da vida cultural e política da Alemanha e de vários países europeus. O Orador oficial John Irving, escritor americano, amigo e confidente de Grass há longos anos, em discurso muito pessoal entre outras disse: “Günter Grass escreveu ‘O Tambor’ quando tinha apenas 30 anos; um feito muito notável que não se repetirá em breve ou talvez nunca. Já não temos mais escritores como ele que podia redigir discursos eleitorais para Willi Brandt bem como uma novela que se passa em 1647 no fim da Guerra dos Trinta Anos ou uma novela que leva um peixe acusado de machismo a se responsabilizar perante a justiça por chauvinismo”.

Muito, realmente muito, foi escrito sobre a vida e a obra do, aparentemente, contravertido autor, escultor e pintor Günter Grass. A análise de sua obra levará anos e o futuro nos dirá se a fama de homem controvertido –– que leva, no momento –– se lhe faz justiça. Günter Grass, apesar de ter sido um indivíduo bem relacionado, com muitos amigos e contatos internacionais com colegas de profissão, políticos e intelectuais, foi, antes de tudo, um extremo solitário dotado de boa dose de ironia vivencial. Faz parte da natureza humana que indivíduos solitários têm propensões de produzir o que ele, na surdina de seu escritório e nos labirintos de sua imaginação, produziu.

Ninguém elucida ou o caracterizou melhor do que ele próprio com uma pequena poesia datada de 1997. Ei-la, em tradução livre:

“Wegzehrung”
(Lanche para a caminhada)

Gostaria de ser enterrado
com uma saco de nozes
e novíssima dentadura.
Quando ouvirem o estalido
donde estou deitado
poderão deduzir:
É ele,
ainda ele!

Entre a montanha de flores de seu túmulo foram encontrados saquinhos com nozes, amendoins e amêndoas…

Uma resposta para “O dia em que o mundo homenageou Günter Grass, o gênio que pode ser comparado a Thomas Mann”

  1. Que belo artigo! Parabéns ao Sr. Edgar Welzel.
    E por último, mas não menos importante o fecho dourado:

    “Wegzehrung”
    (Lanche para a caminhada)

    Gostaria de ser enterrado
    com uma saco de nozes
    e novíssima dentadura.
    Quando ouvirem o estalido
    donde estou deitado
    poderão deduzir:
    É ele,
    ainda ele!

    Entre a montanha de flores de seu túmulo foram encontrados saquinhos com nozes, amendoins e amêndoas…
    Abraços,
    Beto.
    betoqueiroz.com

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