O desencanto de Woody Allen

“Magia ao Luar” é uma comédia romântica repleta de mau-humor, desencanto e citações filosóficas que, no final, sorri de forma inocente e apaixonada justificando uma das principais premissas do filme: a vida é indiscutivelmente um fardo, e cada pessoa necessita (tanto) de distração (quanto de mentiras) para seguir em frente

Emma Stone e Colin Firth, em cena de  “Magia ao Luar”, o novo filme Woody Allen | Foto: Imagem Filmes

Emma Stone e Colin Firth, em cena de “Magia ao Luar”, o novo filme Woody Allen | Foto: Imagem Filmes

Marcelo Costa

Ele está de volta. Se seu filme do ano passado, o bom “Blue Jasmine” (2013), foi recebido com (exagerada) comoção por parte da crítica, o deste ano, “Ma­gia ao Luar” (“Magic in the Moon­light”, 2014) se destaca pela frieza nos comentários. Realmente, a superioridade de “Blue Jasmine” é óbvia, ainda que “Magia ao Luar”, sem uma atuação digna comparável a de Cate Blanchett, seja um passatempo cômico romântico interessante que choca o desespero da finitude com a improbabilidade do amor (a Hollywood dos anos de ouro amaria).

Do começo: a trama de “Ma­gia ao Luar” leva o espectador pa­ra a Berlim dos anos 1920, mais precisamente um teatro onde um ilusionista impressiona o público com seus truques, como cortar mulheres ao meio e desaparecer com um elefante na frente de centenas de pessoas. Wei Ling Soo, o mágico chinês, é o disfarce de Stanley, com Colin Firth fazendo aqui o papel que foi de Hugh Jackman em “Sco­op”, de 2006, com a graciosa Em­ma Stone tomando o lugar de Scarlett Johansson, com a Lon­dres daquele filme sendo tro­cada pela bela Riviera Francesa.

A comparação com (o fraquinho) “Scoop” surge não apenas por ambos terem mágicos como ponto de partida (assim como outro filme fraco recente de Woody, “O Escorpião de Jade”, de 2001), mas por terem o ilusionismo como escape para uma historinha de amor banal. Ainda assim, “Magia ao Luar” dá um passo à frente por permitir a Allen desfilar seu rosário de decepções com a vida embalado em citações de Hobbes, Freud e Nietzsche, e dele próprio (o Alvin, da abertura de “Annie Hall” (1977), é relembrado a certa altura do novo filme), e perceber que a vida segue.

“A gente nasce, não comete nenhum crime, e é condenado à morte”, lamenta Stanley (Colin Firth) genialmente corroborando a decepção do cineasta com a finitude do ser, algo que sempre o assombrou, ainda que antes essa tristeza surgisse embalada em sarcasmo fino. Em “Magia ao Luar”, porém, a afirmação vem acompanhada da antipatia e do egocentrismo do personagem de Colin Firth, uma autêntica presa fácil para um mundo ilógico. “Não sabemos de nada”, afirma sua tia, com sabedoria. Ele discorda… e se apaixona.

Talvez o problema central do 47º longa-metragem de Woody resida na escolha de atores: não há química entre Colin Firth e Emma Stone. Ele (Stanley/Colin) é convidado por um amigo para tentar desmascarar ela (So­phie/Emma), uma garota que alega ter poderes mediúnicos, e que está fazendo fama na Riviera Francesa por conversar com os mortos e adivinhar fatos ocorridos com as pessoas ao seu redor. Stanley é o velho chato culto convencido incorrigível, e o fato de uma pedra se interessar por ele já seria uma surpresa, quanto mais a jovem Sophie.

Essa situação já soava impossível em “Tudo Pode Dar Cer­to” (2011), com Larry David e Evan Rachel Wood, mas havia mais em cena para distrair o espectador do romance improvável.

Aqui, não. Woody é cruel com a mediunidade, mas se dobra ao amor, um dos poucos remédios que podem aliviar o fardo do fim inevitável.

Simplório, “Magia ao Luar” se destaca como veículo de toda descrença de Woody Allen, 78 anos, com a existência, mas atende às necessidades de um final feliz, como se o mundo ainda acreditasse nisso (e acredita?).

“Magia ao Luar”, desta for­ma, lembra um bolo de limão, com a doçura do acabamento disfarçando o amargor da fruta. Assim, Woody Allen escreveu uma comédia romântica repleta de mau-humor, desencanto e citações filosóficas que, no final, sorri de forma inocente e apaixonada justificando uma das principais premissas do filme: a vida é indiscutivelmente um fardo, e cada pessoa necessita (tanto) de distração (quanto de mentiras) para seguir em frente. Neste caso, o amor basta, mas o filme (mediano) poderia ser melhor. A vida também…

Marcelo Costa é jornalista. Editor do Scream Yell.

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