O desafio de um país que cresce pouco

Em “Complacência” os economistas Fábio Giambiagi e Alexandre Schwartsman navegam por temas complexos da economia brasileira procurando desmitificar e responder por que o país, mesmo com a grande oferta de empregos, vem crescendo tão pouco

Dilma Rousseff: crescimento pífio e falsa sensação de bem-estar na população

Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção

A economia sempre foi uma ciência voltada para um público seleto que entende sua linguagem. Ler e entender os escritos econômicos repletos de complexas equações matemáticas não é tarefa nada fácil para aqueles que não têm formação específica no assunto.

Este sempre foi de fato um problema, pois, quando se discute economia em fechados círculos acadêmicos, ou, até mesmo, quando esse debate se estende para os meios de comunicação o tema não deixa de ser árido.

Nos últimos anos, temos observado que vários economistas me­lhoraram sensivelmente a capacidade de se fazer entender focalizando um público que necessita de informação sem ter para isso a necessária formação acadêmica para compreender o assunto. Também pudera. Basta abrir as páginas dos jornais, ligar a televisão ou escutar o rádio para se constatar o quanto o debate econômico permeia grande parte do noticiário. Jornalistas especializados no assunto, como Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardenberg, entre outros, encarregam-se de esfriar temas de difícil entendimento para um público, em sua maioria, leigo, mas ávido de informação de natureza econômica. Economia mexe com a vida de todos nós, por essa razão, devemos nos esforçar para, conforme nossas limitações, dela entendermos um pouco.

Dois renomados economistas de presença constante nos meios de comunicação — Fábio Giambiagi e Alexandre Schwartsman — aceitaram desmitificar muitos desses assuntos para um público mais abrangente e sedento por entender a macroeconomia de um país tão complexo como o Brasil.

Giambiagi e Schwartsman navegam por vários temas da economia brasileira procurando responder por que o país vem crescendo tão pouco. Crescer sustentavelmente é, sem dúvida, o grande desafio do Brasil de agora. Para isso, elevar a produtividade precisa se tornar, no entender dos autores, uma “obsessão nacional”. E elevar a produtividade é algo mais complexo do que se possa imaginar. Faz-se necessário enfrentar desafios diretamente correlatos a ela, como a educação, a deficitária infraestrutura e complexas questões fiscais. Não tenham dúvidas de que elevar a produtividade requer gigantescos esforços sistêmicos que transcendem gerações.

Questões dessa natureza são tratadas de maneira palatável pelos au­tores de “Com­pla­cência — En­tenda Por Que O Brasil Cresce Menos do que Po­de”, o título destes escritos que mais adiante co­mento. Es­tes deixam bem claro, na a­presentação, os objetivos que pretendem atingir. Para eles, “este livro não é um livro apenas para e­conomistas. Ou, colocando a questão de outra for­ma, este é um livro que pode ser lido — até mes­mo — por e­conomistas, mas eles não constituem o único público-alvo”.

Antes de irmos em frente, façamos uma breve apresentação dos au­tores. Fabio Giambiagi é mestre pe­la Universidade Federal do Rio de Ja­neiro, universidade da qual foi professor. Giambiagi também lecionou na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e foi assessor do Mi­nis­tério do Planejamento. Além disso, foi membro do staff do Ban­co de Desenvolvimento em Washin­gton. Credita-se a Fábio Giambiagi a au­toria ou organização de mais de 20 livros sobre a economia brasileira.
Alexandre Schwartsman é doutor em economia pela Univer­sidade da Califórnia (Berkeley). Foi docente da Universidade de São Paulo e da Pontifícia Univer­sidade Católica de São Paulo. Atualmente é professor do Insper, tendo sido economista-chefe dos bancos ABN-Amro e Santander.

O quadrado mágico que impulsionou a economia

Para início de conversa, coloquemos a seguinte indagação: que ambiência possibilitou o crescimento econômico dos dois governos do ex-presidente Luiz Inácio da Silva? A resposta pode ser condensada nos quatro fatores que os autores chamam de “quadrado mágico” da economia: crescimento das exportações, decréscimo das taxas de juros, câmbio favorável e excesso de mão de obra disponível no mercado. O que fez o governo Lula, na verdade, foi surfar nas ondas de um ambiente externo altamente favorável e que muito contribuiu para o considerável crescimento econômico que teve o país nesse período. Posto isso, vejamos o que têm a dizer os autores a respeito de cada um dos vértices do quadrado mágico.
Quanto ao crescimento das exportações: “Na segunda metade da primeira década do século atual, foi uma festa e o índice [preço de exportações/preço das importações] chegou a 2011 no nível 105 — o mais alto dos últimos 50 anos”. Quanto às taxas de juros in­ter­nacionais: “Foram incrivelmente bai­xas nos últimos anos […] para se ter uma ideia, estes [fundos de FED americano] despencaram pa­ra níveis próximos de zero em 2008”.

FHC e Lula: o livro mostra que FHC entregou a seu sucessor um país economicamente estável, mas não deixa de enfatizar os reais méritos que teve a gestão de Lula na condução desse processo

FHC e Lula: o livro mostra que FHC entregou a seu sucessor um país economicamente estável, mas não deixa de enfatizar os reais méritos que teve a gestão de Lula na condução desse processo

E aqui vale a seguinte ressalva: cer­tamente, a conjugação desses dois fatores —baixas taxas de juros aliadas aos elevados preços das exportações (baseada em commodities) — incentivaram a busca de investimentos de elevado risco. Estes, na opinião dos autores, constituíam-se em “investimentos que sequer seriam considerados em épocas de taxas de juros normais, tornaram-se, com o tempo, quase irresistíveis”.

Quanto ao câmbio: os escritos de Giambiagi e Schwartsman apontam para um câmbio altamente favorável nos tempos em que Lula governava o país. “Depois de ter ‘flertado’ com os R$4,00, em 2002 , a taxa do dólar caiu em forma praticamente contínua desde o final de 2002 até o governo Dilma Rous­seff”. Finalizando, o quarto vértice do quadrado mágico se centra no elevado número de desempregados que conseguiram empregos nesse período em que os ventos da economia internacional sopraram favoravelmente na economia brasileira.

Observadores, quando desprovidos do radicalismo ideológico, que emociona e cega ante a prevalência da emoção, nutrem-se da racionalidade para, por meio dela, avaliar friamente, à luz dos números, a realidade como ela é e não como querem que ela seja. Esta foi a postura de independência adotada pelos autores de “Com­pla­cên­cia”. De um lado, apontam o quanto as condições internacionais be­neficia­ram a era Lula; de outro, não deixam de enfatizar os reais méritos que teve a gestão do ex-presidente na condução desse processo.

Nesse sentido, vale ressaltar o meio termo adotado nem tanto à direita, pró-mercado, como adotaram países como o Chile e a Co­lôm­bia, nem tanto à esquerda, co­mo é o caso do bolivarismo de Hu­go Chaves e Evo Morales. Outro as­pecto que deve ser ressaltado se centra no fato de o governo Lula ter preservado a “herança maldita” (ou bendita, que ele sabe, mas não quer admitir) do governo FHC, que entregou a seu sucessor um país estável economicamente e com as contas públicas arrumadas. São inegáveis os méritos do programa Bolsa-família, que realmente atingiu quem necessitava atingir: os mais pobres. Como também é inegável que o governo Lula, ao contrário da vizinha Argentina, soube surfar nas ondas internacionais do mercado e, assim, a economia cresceu cooptando desempregados para o mundo formal dos empregos. A bonança passou, Dilma as­sumiu e, com ela, a economia se en­contra diante de um paradoxo: o do crescimento pífio de um lado; e do pleno emprego, de outro. Será sus­tentável essa situação? É o que se procura responder no item que segue.

Crescimento econômico pífio nos tempos do pleno emprego

Foi-se a era da bonança do quadrado mágico; e a economia, embora cresça hoje timidamente, continua a manter a sensação de bem-estar na população ante o pleno emprego que se constata no governo da presidente Dilma Rousseff. Cabe aqui mais uma indagação: por que razão o crescimento pífio consegue manter essa situação irreal de empregos tipicamente característicos de economias que apresentam crescimento acelerado? Eis a resposta: muito dessa irrealidade se deve não ao investimento, mas à grande capacidade ociosa hoje existente na economia, capacidade essa que possibilita contratar gente sem necessariamente investir.

Para nos explicar essa situação, Giambiagi e Schwartsman lançam mão de um conceito bastante conhecido entre os economistas: o de PIB e PIB.potencial. Este se refere ao potencial máximo que a economia pode crescer. Relaciona-se ao PIB.potencial a situação limite que só será ultrapassada se houver investimentos que aumentam a capacidade instalada. Já aquele primeiro, uma sigla bastante divulgada pelos meios de comunicação, relaciona-se ao quanto de fato cresceu a atividade econômica.

Dito de outro modo: a relação entre PIB e PIB.potencial sinaliza o quanto a economia cresceu quando comparada ao máximo que ela poderia ter crescido. No sentido de tornar mais clara a exposição, vejamos um exemplo exposto pelos próprios autores em seus escritos.

Uma fábrica de automóveis com seus equipamentos que emprega X pessoas tem capacidade de produzir 200 mil veículos por ano. Se neste ano ela produziu 160 mil veículos, isso significa que a produção pode ser aumentada em 40 mil veículos sem que seja necessário aumentar a capacidade instalada da fábrica. Para que isso aconteça, basta contratar mais gente. Eis aí uma boa explicação porque taxas de crescimento pífio do PIB vêm mantendo a economia em pleno emprego. Como não é sustentável ao longo de todo tempo, a festa está para acabar pela falta do ingrediente que daria sustentabilidade a esse crescimento: a elevação da produtividade. É disso que falaremos seguir.

cul2Por que a elevação da produtividade faz a diferença?

“Produtividade, inovação, superação: essas são as marcas do sucesso. E nós, nesse panorama, como estamos?”, indagam os autores. Convém, antes de vermos como estamos diante de um mun­do que se globaliza, rememorarmos como evoluiu a produtividade bra­sileira em um passado no qual imperaram políticas eminentemente Keynesianas tendo o Estado co­mo indutor do desenvolvimento e­conômico social até os dias de hoje.
De acordo com Giambiagi e Schwartsman, o Brasil de 1940 a 1980 cresceu assustadoramente — 4,2% ao ano — devido a pequenos incrementos de educação e ao processo migratório das zonas rurais para as urbanas. Vale ressaltar que muito dessa migração se deve a um país que caminhava aceleradamente rumo à industrialização.

Encerrado esse processo migratório da população, o desafio de elevação da produtividade que conduz ao crescimento sustentado passou a ser outro: de crescer por incorporação de tecnologia. Resultado: para que possamos nos inserir nesse novo ciclo de crescimento, o caminho é de fato um só: sermos mais produtivos. E, para alçarmos outros patamares de produtividade nesta nova ordem que se globaliza, é fundamental que nos tornemos mais educados.

No tocante a faixas da população que possuem curso superior, apresentam os autores vá­rios dados comparativos entre diversos países. Veja-se a comparação do Brasil com outros dois países de distintas realidades: o vizinho Chile e a distante Finlândia.

Dos 25 aos 64 anos, o Brasil possui 12% de sua população com curso superior; o Chile, 29%; a Finlândia, 39%. Dos 25 aos 34 anos, persiste a diferença. Brasil, 13%; Chile, 41%; Fin­lândia, 39%. Na faixa dos 35 aos 44 anos, a diferença de realidades continua arrasadora. Brasil, 12%; Chile, 30%; Finlândia, 47%. Dos 45 aos 54 anos, o Brasil possui somente 9% de sua população com curso superior; o Chile, 23%; a Finlândia, 41%. Por fim, dos 55 anos aos 64 anos, 9% dos brasileiros possuem curso superior, enquanto que, no Chile, são 21% e, na Finlândia, 31%.

Outro indicador que mensura como estamos mal na fita da elevação da produtividade via educação é o Programa Interna­cional de Avaliação de Estu­dantes (Programe for In­ter­national Student Assessment — PISA). Giambiagi e Schwartsman alertam, quanto aos resultados, que “a posição internacional do país é simplesmente constrangedora. Em termos relativos, nessas provas, é como se, numa Copa do Mundo de 32 ti­mes, o país ficasse na posição 29 ou 30”. Também pudera: dos 40 países que participaram da competição, o país ficou na “honrosa” posição número 33. Adivinhe onde estão os campeões em educação. Resposta: na Ásia. Os três primeiros colocados — China, Cingapura e Coreia do Sul — são provenientes de lá.

Creio que não bastam palavras para sermos de fato um país competitivo neste mundo que se globaliza cada vez mais. É preciso uma ação guiada por um sentido de direção de longo prazo. Nesse sentido, produzir mais, utilizando menos recursos, é elevar a produtividade que o velho guru do capitalismo mundial — Adam Smith — já mencionava há alguns séculos, no seu famoso livro “A Riqueza das Nações”. O desafio é imenso. Transcende gerações. Só nos resta, portanto, um caminho: o de elevar a produtividade.
A louca da casa chamada previdência social
Paris, Nova York ou Londres. De Bali, Cingapura a América Latina — enfim: em todos os recantos do planeta, existe um assunto que mexe e mobiliza as sociedades em torno dos seus direitos: a Previdência Social.

A Previdência é a louca da casa que deprime e inquieta seres humanos pelo mundo afora. No entanto, embora seja este um assunto inquietante, ele deve ser enfrentado politicamente ante as mudanças demográficas que vêm ocorrendo em todos os recantos do planeta.

É notório o envelhecimento cada vez mais da população ante a elevação dos níveis educacionais, a novos métodos anticoncepcionais aliados a descobertas que a medicina vem diretamente in­fluenciando no aumento da expectativa de vida das pessoas.

No Japão, a estagnação da população nos 90 anos muito se deve a desequilíbrios previdenciários causados pelo envelhecimento da população. O mesmo desafio enfrenta nosso vizinho Uruguai: “Quem foi alguma vez ao Uruguai se acostumou a ver muitos idosos pelas ruas, o que explica o desafio que o país tem enfrentado há anos para crescer a um ritmo mais dinâmico”, afirmam Giambiagi e Schwartsman.

No caso brasileiro, os autores alertam e tranquilizam a população que mais teme reformas na previdência: os da chamada terceira idade. Reformar a previdência não significa atingir direitos adquiridos dos já aposentados, mas sim adequar a sustentabilidade de caixa a mu­danças da demografia. Assim, a reforma da previdência atingirá os mais novos, certamente, não in­fluen­ciará no direito dos já aposentados.

Quanto a isso, no sentido de tornar entendível a questão, os autores segmentam a reforma em três grupos: “Os que ingressaram na terceira idade, dos quais a maioria é aposentada; no outro, o dos jovens; e, no meio, a população em idade de trabalhar”. Ressaltam ainda que “o primeiro grupo não pode ser objeto de uma reforma da Previdência, pois o pagamento do que lhes é devido é parte do contrato social e seria uma brutal quebra de contrato mudar o valor do que a geração de nossos pais e avós recebe todos os meses. O segundo grupo não conta, politicamente, porque não vota e, antes dos 18 anos, ninguém liga para o tema”.

E assim concluímos essa pequena viagem na “Complacência”, de Fabio Giambiagi e Alexandre Schwartsman. Ser complacente é ser benevolente com o outro. É ter condescendência com o outro. No caso do Brasil, é necessário que esse compromisso seja para com as futuras gerações, que almejam, para seus filhos e netos, um país educado, que cresça sustentavelmente resolvendo o maior desafio que tem uma nação para se tornar rica no mundo globalizado: o da elevação da produtividade. Nes­se sentido, o velho Adam Smith está mais vivo do que nunca.

Salatiel Soares Correia é mestre em Planejamento Energético pela Unicamp.

 

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