“O cinema pode manifestar todas as culturas; acreditei nisso quando idealizei o Mostra Curtas. A vontade é de mudança”

Comemorando 15 anos, o festival traz, além de 118 filmes, mesas e debates sobre a Cidade, o urbano: sua construção e destruição

Além de oficinas, debates, mesas redondas, encontros e homenagens, serão exibidos 118 curta-metragens | Divulgação

A 15ª edição do Goiânia Mostra Curtas tem início na terça-feira, 6, e segue com sua programação até o domingo, 11 | Foto: Divulgação

Yago Rodrigues Alvim

Realizado entre 6 e 11 de outubro no Teatro Goiâ­­nia, o festival brasileiro de cinema de curta-metragem, Goiânia Mostra Curtas, comemora 15 anos de existência com uma programação que traz 118 filmes, oficinas, debates e mesas redondas, além de homenagens e encontros entre realizadores e entidades do audiovisual. A idealizadora, Maria Abdalla, conta ao Jornal Opção um pouco quanto ao início do festival, sua jornada de 15 anos e quanto à edição, que propõe, como temática para o debate, a cidade.

Como nasceu o festival? Qual foi a ideia inicial que a sra. teve, até porque traz um formato diferente, de curtas? Como foi isso?
Bem, eu sou goiana, nasci em Inhumas, mas morei vinte anos fora daqui. Eu participei de muitos festivais e sempre quis trazer um festival de cinema para Goiânia/Goiás. Isso, porque eu já via muito potencial nos goianos e não existia nem leis de incentivo, quando voltei para Goiás. Eu acreditei nisto, neste potencial artístico, de todas as áreas, e vi um público ávido e carente por/de conhecimento, cultura; fosse por filmes, músicas ou livros. E, aqui, não existia nenhum festival. Ver esta lacuna, este espaço vazio foi meu maior estimulo.
O curta-metragem veio por ser um formato de experimentação. Todos os cineastas, desde os mais clássicos até, passam pela experimentação. Não cabia, naquele momento, um festival de longas e, como eu adoro o formato de curtas, eu pensei que poderia ser esse o festival, que veio como um divisor de águas e não só como um evento. Existe um “antes do Mostra Curtas” e um “depois do Mostra Curtas” por ele ter trazido uma diversidade de filmes que mostram Brasis e pessoas que trocam suas experiências. Existe um intercâmbio entre pessoas de diversos lugares, que conversam sobre suas diferenças, suas semelhanças; um estado estimula o outro. Tudo isso me motivou muito.
Hoje, temos uma realidade completamente diferente de quinze anos atrás. O Mostra Curtas foi um impulso para as pessoas performarem, verem filmes brasileiros, pensarem sobre o cinema, refletirem o todo. Afinal, o cinema pode manifestar todas as culturas, os direitos; eu acreditei nisso, quando idealizei o Mostra Curtas. A vontade é de mudança. Se ele não tivesse essa finalidade e esse objetivo de mudança/transformação não fosse atingido, eu não teria dado continuidade. Por isso, ele é muito mais que um evento.

A idealizadora do Mostra Curtas, Maria Abdalla, conta que o audiovisual passou por muitas mudanças. Goiás, em especial, recebeu diversas vitrines que, somado à democratização do acesso tecnológico, impulsionaram a produção de filmes | Layza Vasconcelos

Participei assiduamente de uma das edições, em 2011, que tinha como temática a sexualidade. Lembro carinhosamente, pois teve um pocket show do Thiago Pethit e foi muito curioso para mim, tanto por ser um festival de curtas, um formato diferente do cinema de grande público, com uma plateia tão cheia, não só na abertura, mas em todos os dias. Isso, em 2011. Gostaria de saber um pouco mais sobre o festival, que chega agora a sua 15ª edição.
Em 2015, o Goiânia Mostra Curtas comemora 15 anos da existência de um festival nacional de curta-metragem, que nunca deixou de ser realizado. É uma data, de fato, de comemoração e celebração, pois é preciso muita energia e força; isso porque, nós enfrentamos muitas dificuldades quanto a fomento e apoio. O Mostra Curtas vêm acontecendo, nos últimos 15 anos, independentemente de dificuldades, de continuidades de patrocínios e parcerias. A cada ano, o festival se renova.
O festival é aberto a todo o público e traz temas atuais, uma característica própria. Discutimos temas em mesas de debates e oficinas. São temas da atualidade; seja sobre políticas culturais, linguagem, sexualidade ou outra. Ele acompanha a mudança, muito rápida, no audiovisual; sua transformação para o digital e também quanto às oportunidades de experimentação. Antes, muitas pessoas tinha talento e não conseguiam realizar seus filmes pela dificuldade de equipamentos. Hoje, a dificuldade é bem menor, por ser mais democrático o acesso à tecnologia; portanto, as pessoas têm mais liberdade. O audiovisual vem acompanhando toda esta transformação. Antes, eram 35mm, depois veio o 16mm e, agora, existe o formato digital. O festival acompanhou essa transformação. Principalmente em Goiás, um estado que viveu essa mudança, considerável até, no audiovisual tanto pela democratização do acesso, e por mais vitrine e festivais que surgiram; ou seja, mais espaços para exibição de filmes.
O Mostra Curtas vem, a cada ano, amadurecendo. Nós chegamos aos 15 anos bem mais maduros e com o objetivo de trazer, para discussão aqui em Goiás, um tema atual –– o que é nossa prioridade. Trabalhamos sempre com todas as dificuldades, com o sim e o não, de pensar não só na difusão dos filmes e formação de plateia, mas também na reflexão através dos debates, encontros e palestras. As oficinas dão uma boa bagagem, pois existe uma troca com pessoas altamente capacitadas, que estão atuantes no mercado, que são renomadas e trazem suas experiências; e, ainda que por poucos dias, são dias intensos, o que é muito importante.
Em seus 15 anos, o festival causou um forte impacto em Goiânia, não só na formação, mas em todos os aspectos socioculturais. É considerado, atualmente e em todo o Brasil, um dos mais significativos festivais de curta-metragem. E ele é muito querido por toda a classe cinematográfica brasileira; em especial, a goiana. Eu, como diretora, digo que é um festival da cidade, um festival que, com parcerias, tem em seus 15 anos, suas expectativas atingidas –– percebo isso ao final de cada edição, pois sempre lançamos um objetivo maior para a próxima edição. E 2015 foi o ano mais difícil de realiza-lo; digo quanto ao fomento, afinal nós não conseguimos entrar nos dois editais da Lei Goyazes e também do Fundo de Cultura. Portanto, houve uma questão de orçamento considerável.
Ainda assim, nós teremos uma programação extensa e rica, com debates de alta qualidade e exibição de 118 filmes. Isso, nós devemos aos colaborados do festival. Temos sim um patrocínio. A Pe­trobrás, Rodonaves, Lei Municipal de Cultura de Goiânia e a Lei Goyases são os patriocinadores dessa edição. A arte, maravilhosa, é do Bicicleta Sem Freio, que também conectou a ilustração com a nossa temática.
Quem faz oficina, participa de debates, quem de alguma forma participa do festival é um colaborador para que ele aconteça. Nossa expectativa é que essa edição seja uma das mais bacanas, pela garra, por toda luta de chegar aos 15 anos e por toda programação que está muito bacana. Temos homenagens, encontros, palestras, oficinas; temos a Curta Mostra Brasil, a Curta Mostra Goiás, a Municípios, a 14ª edição da Mostrinha, que é dedicada ao público infantil, a Curta Mostra Cinema nos Bairros, que vai para três bairros periféricos de Goiânia, a Curta Mostra Especial que, a cada ano, aborda um tema.
Neste ano, o tema escolhido pelos curadores Marcelo Pe­droso e Mariana Lacerda é “Imagens Insurgentes: A Ci­dade que Emana de Coletivos”; tema que questiona a construção e a destruição da cidade; isso, através dos filmes, a nossa “arma”. Muitas vezes, as pessoas pensam que estão construindo a cidade, quando, na verdade, estão destruindo-a. Falaremos do urbano e da falta de consciência vista em projetos mal elaborados, na má qualidade de vida. E é muito bacana, pois será por meio do cinema e também por um debate, realizado após a sessão. A jornalista Natália Garcia, que tem o projeto “Cidade para Pessoas”, o Pedroso e a Mariana Macedo e a arquiteta e urbanista Carol Faria, da Sobreur­bana, mais o Fred Be­nevides, um documentarista que participa de coletivos que questionam e denunciam por meio deste recorte de filmes, participarão do debate.

Na abertura da 15ª edição do Mostra Curtas, o cantor pernambucano Johnny Hooker apresenta um pocket show nos palcos do Teatro Goiânia | Erica Colaço

Na abertura da 15ª edição do Mostra Curtas, o cantor pernambucano Johnny Hooker apresenta um pocket show nos palcos do Teatro Goiânia | Erica Colaço

A sra. já citou um pouquinho sobre a temática. Como é falar sobre a cidade na Mostra Especial?
Em 2015, nós poremos em debate a cidade, que é algo urgente em todo o Brasil. O tema já estava proposto. O Mostra Curtas é livre, não é um festival temático. Todos os gêneros, até 25 minutos, estão ali. Mas, existe a Mostra Temática, justamente, para focarmos e abrirmos uma discussão sobre algo atual. Já discutimos sobre LGBT, sexualidade, gênero, a questão das novas mídias; ano passado foi sobre o início do audiovisual, a tevê nos anos 80. Portanto, procuramos não só exibir filmes, mas também aprofundar, discutir mais.
Eu sempre busco um curador, uma equipe de curador, que busca obras que falam sobre temas e que, por si só, já são uma denúncia, uma provocação. É realizada uma curadoria que busca isso. E nós vamos ter o debate “Audio­visual e Cidades: Por Uma Resistência Coletiva”. Fala­remos sobre o Brasil, sobre os coletivos que têm conseguido colocar em pauta a discussão sobre o urbano, a destruição das cidades, que tem acontecido por todo país. Então, existem os coletivos que fazem do cinema uma de ferramenta de questionamento, de denuncia.
Os filmes já vão por si só mostrar o caos urbano que têm acontecido e é muito importante levar isso para o festival, pois o cinema tem uma dimensão maior. O tema é tão atual, tão fundamental e é interessantíssimo para edição, pois fecha os 15 anos do Mostra Curtas com um assunto sério, urgente. O Pedroso e a Mariana fizeram a curadoria desses filmes que falam de uma suposta “construção” que, na verdade, causa uma destruição da cidade.

Existe alguma homenagem em especial? E como será a abertura?
Na terça-feira, dia 6, que é a abertura, nós homenagearemos a Gilda Nomacce, uma atriz que já fez mais de 50 filmes e, também, exibiremos um curta em que ela atua. Nós ainda homenagearemos a Ceicine, um coletivo de cinema da Ceilândia e passaremos um filme. E também tem uma homenagem ao Shell Jr., um artista goiano que já participou de filmes como “Central do Brasil” e “O Tronco”, dentre outros. Faremos uma homenagem póstuma a ele. E, por fim, na abertura, fecharemos com chave de ouro com um show pocket do cantor pernambucano Johnny Hooker.

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